Inglid Martins é atualmente repórter do Mais Goiás, atuando majoritariamente em matérias voltadas a casos criminais e Hard News. Ela se formou em jornalismo pela Estácio em 2024, mas desenvolve trabalhos jornalísticos desde 2023.
Curiosa e determinada, Inglid sempre sonhou se tornar jornalista, mas foi obrigada a adiar essa realização, mesmo assim, ela não curvou diante às dificuldades e não se importou quanto ao tempo, pois quando tudo era incerto, ela decidiu dar o primeiro passo.
Na entrevista a seguir, ela reflete sobre a sua carreira e a associa, de modo geral, à formação jornalística.

Iarle Januário: Desde a infância, somos estimulados a pensar sobre o futuro profissional. O questionamento “O que você quer ser quando crescer?” é muito comum e, normalmente, há influência de nossos familiares em nossas respostas. A profissão de jornalista é um tanto quanto impopular entre crianças e, também, não é uma das mais incentivadas. Na infância, você já imaginava seguir o caminho que tomou ou essa foi uma escolha que você teve mais tarde?
Inglid Martins: Desde pequena eu tenho esse sonho. Eu sou dos anos 80, então, minha infância foi nos anos 80 e 90, não tínhamos a era tecnológica ainda. Eu nasci em São Paulo e nessa época nossos maiores veículos de comunicação eram a rádio e a TV. Eu gostava muito do programa do Tim Lopes, qualquer matéria dele ou do Caco Barcellos já me colocavam automaticamente em frente a televisão. Eu sempre gostei muito do True Crime, e sempre fui muito curiosa, tudo isso me fez querer cursar jornalismo, mas na época não era tão fácil assim, era um curso muito caro, por isso, eu casei muito cedo e fui adiando esse desejo. Quando chegou a pandemia, eu pensei “É agora ou nunca mais”.
IJ: A escrita é uma das ferramentas principais do jornalismo, e é com ela que você trabalha atualmente. A maioria dos ingressantes do curso de jornalismo tem como motivação de escolha, o gosto pela escrita e/ou comunicação. Você acha que isso é suficiente para manter um estudante motivado durante a formação e garanta que ele consiga concluir a graduação?
IM: Eu acho que é importante pensar que no jornalismo, nem tudo vai ser glamour. Acho que a maioria dos graduandos deseja trabalhar na TV quando ingressa no curso. Para poder se manter motivado, é interessante entrar nessa área desejada, seja qual for, desde o início da graduação. É importante que desde o primeiro dia que o aluno começa a fazer jornalismo na universidade, ele procure desenvolver algo dentro desse nicho desejado para ter certeza do que fazer até o final do curso. Há várias associações de jornalismo que podem ajudar a fazer isso, até porque é muito frustrante chegar no final do curso acreditando que você já vai sair dali para as redes de TV e encontrar um mercado que está saturado, problemático. É aí que você pensa “Eu escolhi a profissão errada”, mas na verdade, você não se preparou durante a graduação, não descobriu como as coisas funcionam. Tem gente que entra no jornalismo e descobre que vai ser um ótimo social mídia, pessoas que entram no jornalismo e descobrem que são ótimos em marketing, e por aí vai. Mas a melhor parte do jornalismo é que ele abre um leque gigantesco para todas as áreas que uma pessoa queira seguir, mas se ela se fixar em uma única entrada, no final ela pode se frustrar.
IJ: Você atua hoje, no Mais Goiás, como repórter criminal e está cursando atualmente uma Pós-Graduação em Criminologia. A área criminal sempre te interessou ou foi algo que durante a sua formação começou a chamar sua atenção? Como você chegou até a reportagem criminal?
IM: Sempre me interessei pelo jornalismo criminal, mas ele veio com mais força porque eu tenho uma irmã que foi vítima de feminicídio. Na época que isso aconteceu, ela desapareceu e não houve muito empenho da polícia para que houvesse elucidação do crime, tanto é que hoje ela é dada como desaparecida, embora haja uma certidão de óbito. Isso foi em 1994, quando esse tipo de crime era tratado apenas como um homicídio. Eu percebi que quando você tem um espaço na mídia, você tem também o apoio da população, eu tinha muita vontade de ter esse apoio. Por isso, quando decidi que queria trabalhar nesse nicho criminalístico, foi justamente para dar voz a essas vítimas e aos órfãos dessas vítimas porque eu acho que é importante dar voz a quem não tem a possibilidade de conseguir espaço na mídia para contar a sua história.
IJ: A reportagem, assim como qualquer outro tipo de matéria, é algo que exige uma boa apuração de informações e uma pesquisa minuciosa, um trabalho árduo. Qual você acha que foi, até agora, a reportagem que exigiu mais de você, a mais desafiadora?
IM: As reportagens mais desafiadoras para mim são aquelas que envolvem feminicídios e violência contra a mulher. Não é só pela complexidade da apuração, mas pelo impacto emocional. É difícil ser mulher e não se abalar com os relatos das famílias, com os detalhes que aparecem nos boletins de ocorrência, com as fotos e vídeos que temos acesso, e até nisso temos que ter a responsabilidade de preservar a vítima, e também pela brutalidade do crime. É difícil lidar com o silêncio que muitas vezes envolve esses casos. Creio que toda jornalista/repórter engole seco para manter a postura profissional e a escrita imparcial dos fatos – porque há uma identificação inevitável de se colocar no lugar. Cada história carrega dor, injustiça e, muitas vezes, um grito que não foi ouvido a tempo ou até mesmo negligenciado e silenciado. Isso exige da gente não só um alto rigor jornalístico, mas também sensibilidade e respeito.
IJ: A mudança de um mundo mais analógico para algo tão digital é relativamente recente e o jornalismo foi fortemente afetado por essas mudanças. Muitos acreditam que não houve adaptação necessária para abranger um espaço maior da mídia jornalística no mundo tecnológico. Qual é a sua opinião sobre essa questão?
IM: Eu sempre gostei muito de textos extensos, explicados, com o desenrolar da história. Hoje não é mais assim, o jornalismo atual é um pouco fast food. Meu começo foi com uma série de reportagens muito minuciosas, uma coleta de informações muito rica que levou oito meses de investigação sobre a população do quilombo Kalunga, em Goiás. Depois da época dessas reportagens eu fui trabalhar no “Diário da Manhã”, onde eu tinha a missão dupla de escrever tanto para o jornal digital quanto para o impresso, e eu via a diferença de perto, do que era escrever para o impresso e para o site, meu nome como redatora no impresso sempre teve um impacto maior para mim, é muito gratificante. Quando entrei no “Mais Goiás”, o principal produto sempre foi o site, e tive de reaprender a escrever, separar suítes, desenvolver a reportagem ou matéria para o jornal digital, para o público do MG que é bastante exigente, tive dificuldade, mas tenho um editor muito profissional que me ajuda muito a chegar no texto certo. Aliás toda equipe ajuda e tenho aprendido muito. Eles desde o início do ano passaram a ter o impresso, ver meu nome ali, não tem realização maior na minha profissão

IJ: O jornalismo é conhecido por ser um curso muito amplo, no qual se pode atuar em muitos âmbitos informativos, de política à cultura e economia. Você acredita que alguém recém-formado possa trabalhar diretamente na área que almeja ou primeiro é preciso construir uma base mais sólida em diversos editoriais para enfim, conquistar a exclusividade no nicho desejado?
IM: No meu caso, eu comecei trabalhando na área política porque durante a minha formação, surgiu a oportunidade de fazer um vídeo em grupo falando sobre alguma questão política, assim, fizemos uma reportagem sobre a Lei Maria da Penha para as mulheres trans que foi aclamada por nossos superiores, recebemos uma monção de aplausos. Com o sucesso desse trabalho, eu imaginei que deveria seguir nessa linha política, mas acabei no jornalismo ambiental com a série de reportagens sobre a população quilombola Kalunga. Quando fiz essa reportagem mudei meu pensamento e achei que era aquilo, mas foi quando eu estagiei que eu entendi que o que eu realmente queria eram as Hard News, que são aquelas notícias quentes, urgentes. Do meu estágio, eu fui escrever jornalismo cultural, por um acaso, e depois voltei à área política, a partir daí, tive a oportunidade de fazer um trabalho como freelancer no “Mais Goiás” cobrindo as eleições. Quando consegui entrar mesmo onde trabalho atualmente, foi quando eu comecei efetivamente a fazer Hard News, o que faço até hoje.

IJ: Sobre os diversos editoriais dentro do jornalismo, você acredita que exista uma hierarquia entre eles? Alguns são mais valorizados que outros? De que forma isso acontece?
IM: Sim, essa hierarquização existe. As notícias factuais, as primordiais sempre vão entrar primeiro, acontecimentos mais recentes, sempre serão prioridade. A política é uma área mais refinada, ela precisa de alguém que tenha conhecimentos e informações mais voltados para essa área, por isso, além da grande relevância que têm na sociedade por se tratar de algo real que afeta de forma direta a população, é que a política e as notícias factuais são sempre prioridade. Tirando isso, o jornalismo cultural, de entretenimento e o esportivo são os que mais chamam a atenção do público, eles sempre serão relevantes para todos, pois sempre vão se interessar por aquele ídolo específico que é entrevistado por um jornalista, ou aquela informação sobre a vida de algum famoso. Já o político e econômico sempre vão estar restritos para quem entende daqueles assuntos, poucas pessoas entendem disso e poucas se interessam em entender, elas preferem a polêmica.
IJ: Para finalizar, que dicas você daria a estudantes de jornalismo para que eles possam aproveitar o curso ao máximo e como esse aproveitamento pode ser favorável no futuro ingresso no mercado de trabalho?
IM: Aproveitem muito esse momento acadêmico, extraiam tudo do curso, tudo que ele oferecer, palestras, festivais, qualquer coisa que a universidade possa ofertar, se coloquem dentro porque a vivência acadêmica vai não só testar valores, é preciso mostrar que existe um interesse real e se aprofundar em tudo que for feito. No jornalismo, tudo é escrito, mesmo na TV, é preciso fazer um roteiro, uma investigação e para esse último caso principalmente, é preciso apurar fatos da forma mais minuciosa possível. Se for necessário, busquem informações no lixo, vasculhem tudo. Além disso, façam todo o tipo de condução em work que puderem, conheça os jornalistas, siga os seus preferidos, leia matérias de pessoas diferentes, faça comparações e quando encontrar matérias mal escritas, reescreva. Quando chegar a hora de adentrar no mercado de trabalho, é preciso ser cara de pau, vá atrás das oportunidades, procure por elas, não espere que elas simplesmente venham até você. Mas principalmente, lembre-se: Para alguns, nós jornalistas somos o bote salva-vidas; para outros, o amplificador que leva o grito onde ele precisa ser ouvido. Acho que é isso que representamos. Um microfone nas mãos de um repórter é a forma de dizer, “estou aqui porque você precisa ser escutado”.

