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O debate sobre a identidade da biblioteconomia, constantemente tensionada entre a prática social, a técnica e a produção científica, ganhou novo capitulo com a proposta de modificação na nomenclatura dos cursos brasileiros para incluir a expressão “Ciência da Informação”. No artigo publicado pelo Jornal da USP, intitulado “Biblioteconomia não é subcampo: é ciência, é prática, é história”, Leonardo Assis (2025) defende que a Biblioteconomia deve ser reconhecida como um campo autônomo, cuja história, práticas e saberes não podem ser diluídos sob a égide de uma ciência tão ampla. Nessa óptica, este ensaio propõe refletir sobre esse debate à luz da teoria matemática da comunicação, elaborada por Claude Shannon (1948), a fim de demonstrar como os conceitos de entropia, ruído, capacidade do canal e redundância ajudam a compreender os riscos comunicacionais e simbólicos envolvidos na construção e na transmissão da identidade profissional da Biblioteconomia.

A Teoria Matemática da Comunicação foi desenvolvida originalmente para resolver problemas técnicos de transmissão de sinais em engenharia, mas seus conceitos superam os circuitos eletrônicos e oferecem ferramentas interessantes para refletir sobre processos comunicacionais mais amplos. Shannon (1948) define a comunicação como a transmissão de uma mensagem de uma fonte para um destinatário por meio de um canal, sujeito a possíveis interferências chamadas de ruído. Nesse processo, elementos como entropia (incerteza), redundância (repetição intencional para reforçar o sentido) e capacidade do canal (quantidade máxima de informação que pode ser transmitida sem erro) tornam-se fundamentais para assegurar a eficácia da comunicação inerente a forma ou objetivo ao qual a informação é compartilhada entre emissor e receptor.

Partindo disto, no artigo publicado pelo Jornal USP, observa-se um fenômeno de aumento da entropia simbólica: a substituição ou diluição da palavra “Biblioteconomia” por “Ciência da Informação” o que gera uma incerteza sobre os contornos do campo, suas práticas específicas e seu objeto de atuação, comprometendo  assim a previsibilidade e a clareza da mensagem que a profissão transmite à sociedade, às instituições e aos próprios estudantes já que quando o termo “Ciência da Informação” é adotado nessa conjectura genérica, amplia-se o campo semântico a ponto de torná-lo vago por se tratar de uma outra área de atuação que apesar de possuir relação com a biblioteconomia é distinta em suas temáticas teóricas e práticas.

Mais além, a tentativa de reposicionar a Biblioteconomia como subcampo de uma ciência mais ampla introduz um forte ruído comunicacional. O ruído, na teoria de Shannon, refere-se a qualquer elemento que distorça ou prejudique a mensagem durante sua transmissão. No caso em debate, esse ruído surge da sobreposição de discursos, interesses institucionais e narrativas acadêmicas que desconsideram sua historicidade, seus saberes específicos e sua centralidade social no acesso, na mediação e na organização do conhecimento. Consequentemente esse ruído não é apenas técnico, mas também simbólico e político, pois afeta diretamente a recepção da mensagem que define quem é e o que faz o bibliotecário.

Ao refletirmos sobre a capacidade do canal (a quantidade de informação que pode ser transmitida com precisão) percebe-se que a sociedade, os alunos e as instituições públicas recebem informações sobre as profissões de forma limitada. Ao sobrecarregar esse canal com termos genéricos, abstratos ou excessivamente amplos, como “Ciência da Informação”, perde-se parte da informação essencial: às práticas específicas da Biblioteconomia com suas competências profissionais e sua necessária atuação social na organização do conhecimento a partir do desenvolvimento dos conceitos teóricos da área difundidos, analisados e praticados não só no Brasil mas na maior parte do mundo. Se a comunicação social sobre o campo não é clara e objetiva, a saturação do canal gera perdas informacionais, resultando em desinformação sobre o papel real dos bibliotecários e consequentemente um apagamento da área.

Em contrapartida às mazelas supracitadas, na teoria matemática da comunicação a redundância pode ser encarada como um mecanismo crucial para combater o ruído e garantir que a mensagem chegue corretamente ao destinatário. No texto de Leonardo Assis (2025), observa-se exatamente esse mecanismo em ação: a constante repetição de que a Biblioteconomia é uma ciência, uma prática e uma história, funciona como uma estratégia de reforço semântico, sendo que, essa redundância discursiva não é um excesso, mas uma necessidade comunicacional frente ao risco de apagamento simbólico. Ao reiterar a especificidade da Biblioteconomia, o autor diminui a entropia e combate o ruído, preservando a integridade e a clareza da mensagem sobre a identidade da profissão do bibliotecário e suas diferenciações do campo da ciência da informação.

Ademais, analisar o debate sobre a identidade da Biblioteconomia por meio da lente da teoria matemática da comunicação permite compreender que não se trata apenas de uma disputa semântica ou acadêmica, mas de um problema profundamente comunicacional. A substituição de termos, a diluição de práticas e o apagamento histórico elevam a entropia, introduzem ruído e saturam o canal de informação que conecta a profissão à sociedade. Por outro lado, a resistência discursiva, expressa no texto de Leonardo Assis (2025) constrói a defesa da Biblioteconomia como uma ciência autônoma mobilizando mecanismos de redundância e clareza para garantir que a mensagem (o valor, a prática e a história da profissão) não se perca no processo comunicacional. Por conseguinte, a teoria de Shannon, embora nascida no campo da engenharia, revela-se uma ferramenta potente para refletir não apenas sobre transmissão de sinais, mas sobre a própria preservação de identidades profissionais no mundo contemporâneo de maneira combativa, prática e elegante.

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