- Os clubes do livro à luz da Teoria Crítica - 21 de junho de 2025
Os clubes do livro tiveram um aumento significativo nos últimos anos e se tornaram cada vez mais populares na sociedade brasileira. Para Souza (2018, p. 673) “o clube de leitura se constitui pelo encontro regular de um grupo de pessoas paradiscutir uma seleção de livros; um por vez, quase sempre literatura” Segundo Peixoto (2025) “a pandemia de COVID-19 fez com que muitas pessoas buscassem formas alternativas de interação social, levando-as a se unir em torno da paixão pela leitura”. Isso se confirma quando analisamos os dados do Retratos da Leitura de 2020 e notamos o aumento no número de leitores para 52% naquele ano.
De acordo com Chartier (2007, p. 256) “as possibilidades de leitura parecem expandir-se, propondo práticas diferenciadas segundo os tempos, lugares e gêneros”, dando assim o início de um processo que ele chama de “revolução da leitura”. Ao mencionarmos os clubes do livro, podemos, também, considerá-los como atores desse processo revolucionário, e que, cada vez mais, participam do processo de formação de leitores.
Pensando nisso, é possível analisar os clubes do livro à luz da Teoria Crítica da Biblioteconomia, buscando entender suas influências e seus efeitos na área como um todo. Segundo essa teoria, formulada por Adorno e Horkheimer (1985) e adaptada por Carneiro, Moraes e Cabral (2024), tais espaços podem ser compreendidos não apenas como promotores de leitura, mas como arenas em que se articulam disputas por sentidos, pertencimentos e hegemonias culturais.
Os clubes de leitura operam como formas de mediação entre o leitor e o texto, criando um espaço compartilhado de construção de sentidos. A mediação é uma ação crítica que não apenas facilita o acesso à informação, mas problematiza sua origem, intencionalidade e recepção. Assim, clubes bem estruturados não apenas estimulam o hábito da leitura, mas também promovem a formação de sujeitos críticos, conscientes de seu contexto histórico e cultural. Segundo Chartier (2007), a leitura é sempre uma prática situada, marcada pelas condições materiais e simbólicas de sua realização, ou seja, constitui um palco privilegiado onde os leitores negociam sentidos, desafiam interpretações dominantes e se posicionam como agentes de significação.
Apesar de sua proposta agregadora, os clubes de leitura muitas vezes apresentam um recorte social restrito. A pesquisa publicada pela Carneiro, Moraes e Cabral (2024) evidencia que os participantes tendem a ser majoritariamente mulheres, com escolaridade elevada e inserção em espaços culturais, o que reforça o diagnóstico de que o capital cultural ainda é um fator determinante no acesso pleno à leitura compartilhada. Ao se constituírem como espaços culturais informais, esses clubes devem se atentar à diversidade de vozes, gêneros, regionalidades e repertórios culturais, evitando a reificação de uma elite leitora.
Outro fator determinante é a seleção das obras lidas, um dos pontos centrais da crítica da Teoria Crítica. Com frequência, os clubes de leitura tendem a reproduzir cânones literários ocidentais, em sua maioria masculinos e brancos. Isso gera o risco de silenciar vozes periféricas e reforçar visões de mundo dominantes. No entanto, há iniciativas que buscam subverter esse padrão, adotando curadorias que privilegiam autoras negras, literatura indígena ou produções LGBTQIA+. Esses clubes operam como resistência simbólica, comprometida com a justiça social.
Com o advento das redes sociais, os clubes de leitura migraram para formatos híbridos ou completamente digitais, como grupos em aplicativos, lives e fóruns. Isso ampliou o alcance, mas introduziu novos desafios: a diluição do debate, a superficialidade da interação e a influência dos algoritmos na seleção de obras. A lógica da mercantilização do livro pode transformar o clube em espaço de marketing editorial, esvaziando seu potencial formativo. O desafio é manter o foco no diálogo e na criticidade, mesmo diante da velocidade e fragmentação digital.
A figura do mediador ou facilitador nos clubes de leitura é vital para a promoção de debates aprofundados. A mediação crítica, defendida por autores como Freire (2015), não é neutra, mas comprometida com a formação política e cidadã dos leitores. O mediador precisa ser sensível às vozes divergentes, incentivar a escuta ativa e estimular leituras que abordem a diversidade. A Teoria Crítica reforça que o mediador deve atuar como intelectual orgânico, articulando leitura, contexto e crítica social. Isso transforma o clube em espaço de formação libertadora, em vez de simples entretenimento literário.
A análise dos clubes de leitura à luz da Teoria Crítica da Biblioteconomia revela que esses espaços possuem grande potencial emancipatório, mas também riscos de reprodução de desigualdades. Quando orientados por práticas reflexivas, políticas de inclusão e mediações críticas, os clubes de leitura podem se consolidar como instrumentos de transformação social e democratização do saber. Assim, a biblioteconomia crítica encontra nesses espaços uma oportunidade concreta de atuação ético-política no campo da cultura e da informação.
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos
filosóficos. Tradução: Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
CHARTIER, Roger. Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura (séculos XI-XVIII). Unesp, 2007.
FREIRE, Paulo. Ação cultural para liberdade e outros escritos. 15. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2015.
PEIXOTO, M. O crescimento da popularidade dos clubes de leitura coletiva e seu impacto cultural. Disponível em: https://bomdelivros.com.br/o-crescimento-da-popularidade-dos-clubes-de-leitura-coletiva-e-seu-impacto-cultural/. Acesso em: 15 jun. 2025.
RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL 2020. 5.ed. Brasília: Instituto Pró-Livro, IBOPE
Inteligência, 2020. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/5a-edicao-de-retratos
da-leitura-no-brasil-2/a-pesquisa-5a-edicao/ Acesso em: 14 jun. 2025.
SOUZA, Willian Eduardo Righini de. Clubes de leitura: entre sociabilidade e crítica literária. Informação & Informação, [S. l.], v. 23, n. 3, p. 673–695, 2018. DOI: 10.5433/1981-8920.2018v23n3p673. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/29187. Acesso em: 17 jun. 2025.
