- A massificação do pensamento: ChatGPT sob a ótica da Teoria Crítica - 22 de junho de 2025
A Teoria Crítica, formulada por Adorno e Horkheimer (1985), fundamenta-se no questionamento daquilo que é socialmente naturalizado, buscando revelar os mecanismos sutis que moldam o pensamento e limitam a autonomia dos sujeitos. Nessa perspectiva, a teoria aponta que, na cultura de massa, a dominação da classe dominante ocorre sobretudo pelo controle dos meios de comunicação. Isso faz com que os sujeitos percam a autonomia crítica, tornando-se receptores passivos, submetidos a um processo de padronização e empobrecimento da experiência, onde o pensamento divergente é eliminado e o raciocínio se reduz a fórmulas prontas.
Pensando por esse viés, em uma sociedade já massificada pelos meios tradicionais, como televisão e rádio, a classe dominante cria novas formas de reduzir a autonomia e a consciência crítica dos sujeitos, mas sob a aparência de liberdade. Neste contexto, insere-se a inteligência artificial como uma nova ferramenta de controle, pois é apresentada como um recurso acessível, eficiente e gratuito, que oferece respostas rápidas e adaptáveis a comandos simples (prompts), prometendo resolver, em segundos, tarefas que exigiriam horas de trabalho. O ChatGPT, por exemplo, é um modelo de IA baseado em redes neurais avançadas que simula a linguagem humana ao reproduzir padrões já existentes. O sujeito que, por falta de recursos, recorre constantemente à inteligência artificial pode, gradualmente, perder habilidades cognitivas essenciais, tornando-se dependente de respostas automatizadas. Quanto mais conteúdos prontos recebe, menor se torna sua disposição para o esforço intelectual. Assim, temos um sujeito massificado de forma indireta: privado de acesso a boas leituras, a professores capacitados e a estímulos adequados ao desenvolvimento do pensamento crítico, ele é apresentado a um sistema que pensa por ele.
Recentemente, a revista semanal norte-americana Time Magazine publicou uma matéria sobre o impacto do ChatGPT em nossos processos cognitivos, baseada em uma pesquisa conduzida pelo Laboratório de Mídia do MIT. O estudo dividiu 54 participantes em três grupos, que deveriam escrever várias redações para o SAT — um grupo utilizou o ChatGPT da OpenAI, outro recorreu ao mecanismo de busca Google e o terceiro não teve nenhum auxílio externo. Os resultados indicaram que, ao longo de vários meses, os usuários do ChatGPT apresentaram uma crescente redução no esforço a cada redação subsequente. As análises de
EEG revelaram menor controle executivo e menor engajamento atencional nesses indivíduos. Na terceira redação, muitos participantes simplesmente forneciam o prompt ao ChatGPT e deixavam que o sistema realizasse quase todo o trabalho. “Era mais como: ‘só me dê a redação, refine esta frase, edite e pronto’”, relata Kosmyna.
Por outro lado, o grupo que escreveu sem qualquer apoio tecnológico demonstrou a maior conectividade neural, especialmente as que estão associadas à ideação criativa, à carga de memória e ao processamento semântico.
Diante disso, é necessário refletir sobre como o consumo crescente de respostas prontas geradas por inteligências artificiais pode reproduzir os padrões da indústria cultural apontados por Adorno e Horkheimer. Atualmente, a racionalidade técnica manifesta-se em novas formas de cultura de massa, exemplificadas por tecnologias como o ChatGPT. Ao eliminar o conflito, o tempo de reflexão e a dúvida, a inteligência artificial constrói a imagem de um sujeito informado, porém intelectualmente conformado. O uso massificado do ChatGPT para solucionar tarefas e pensar em lugar do indivíduo reproduz aquilo que Adorno criticava: uma cultura que distrai, em vez de emancipar.
Sob esta ótica, para a biblioteconomia esse cenário impõe desafios que demandam a criação de formas e sistemas alternativos de informação. A partir da Teoria Crítica, o papel social da biblioteca se define na promoção do acesso integral à informação para grupos e classes excluídos, combatendo a exclusão.
Referências
ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos
filosóficos. Tradução: Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
