A infodemia, caracterizada pela disseminação massiva de notícias falsas e desinformação, tem se consolidado como um dos maiores desafios informacionais da contemporaneidade. Diante desse cenário, a atuação dos bibliotecários assume um papel fundamental não apenas na mediação do acesso à informação, mas principalmente na promoção de uma postura crítica e emancipatória entre os usuários. Para compreender essa atuação sob uma perspectiva mais ampla e transformadora, a teoria crítica oferece subsídios relevantes.
Segundo Carneiro, Moraes e Cabral (2024), a teoria crítica, formulada por autores da Escola de Frankfurt como Horkheimer, Adorno e Habermas, propõe uma ruptura com os paradigmas da teoria tradicional e com a razão instrumental. A teoria crítica não se limita à descrição dos fatos, mas visa desvelar as estruturas de dominação e promover a emancipação dos sujeitos. Na Ciência da Informação, isso significa compreender a informação não como dado neutro, mas como um elemento atravessado por relações de poder, ideologia e cultura.
A infodemia, nesse contexto, é compreendida como um fenômeno que contribui para a manutenção da alienação e da apatia crítica. As fakes news operam como mecanismos de desinformação que perpetuam discursos hegemônicos e inibem o pensamento autônomo. Assim, a atuação bibliotecária deve ir além da curadoria de fontes ou da promoção de listas confiáveis: ela deve estar comprometida com a ação cultural crítica e com a formação de sujeitos conscientes.
Nesse sentido, o conceito de apropriação da informação é central. De acordo com Borges (2018) e retomado por Carneiro et al. (2024), apropriar-se da informação é um processo subjetivo e histórico, no qual o sujeito interpreta, resignifica e transforma o conteúdo informacional a partir de suas vivências e do contexto social. Esse processo não ocorre de forma passiva; ele é mediado pela consciência crítica e pela reflexão. Portanto, para que a informação possa ser apropriada de modo significativo, é necessário que o bibliotecário atue como um facilitador desse processo, criando condições para o pensamento crítico.
Essa mediação ocorre através da ação cultural, compreendida não como simples promoção de eventos ou atividades recreativas, mas como uma estratégia política e pedagógica. Inspirando-se em Paulo Freire e em autores como Flusser e Coelho Netto, Carneiro et al. (2024) defendem que a ação cultural deve promover o protagonismo dos usuários, valorizando suas vozes, saberes e experiências. É nessa interação que surge o espaço para o diálogo, para a produção coletiva de sentidos e para a transformação social.
Ao aplicar essas ideias ao contexto da infodemia, compreende-se que o bibliotecário, ao realizar rodas de conversa, encontros com autores, debates sobre notícias falsas, oficinas de letramento informacional, entre outras atividades, não apenas transmite informações. Ele cria espaços de escuta e de partilha, estimulando a análise crítica e a autonomia intelectual dos usuários. Trata-se, portanto, de uma ação que se opõe ao imobilismo e que busca romper com o ciclo de reprodução de discursos hegemônicos.
Assim, pode-se afirmar que a teoria crítica permite uma leitura aprofundada da prática bibliotecária em tempos de infodemia. Ao reconhecer que a informação não é neutra e que seu uso está intrinsecamente ligado às condições sociais e culturais dos sujeitos, a atuação bibliotecária passa a ser entendida como uma prática transformadora. Nessa perspectiva, combater a infodemia é também promover a emancipação.
Conclui-se, portanto, que uma abordagem fundamentada na teoria crítica amplia significativamente a compreensão sobre o papel social do bibliotecário diante dos desafios contemporâneos. Mais do que um mediador técnico da informação, ele é um agente de formação cidadã, que atua para que os indivíduos não apenas recebam informação, mas sejam capazes de interpretá-la, criticá-la e transformá-la em conhecimento significativo e emancipador.
Referências
SANTOS, J. C. S. dos. O comportamento informacional de bibliotecários no enfrentamento à infodemia de notícias falsas: breves considerações. Revista Fontes Documentais, [S. l.], v. 6, n. Ed. Especial, p. 9–24, 2024. DOI: 10.9771/rfd.v6i0.60563. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/RFD/article/view/60563. Acesso em: 21 jun. 2025.
BRAGA CARNEIRO, Júlia Carolina Rodrigues; MORAES, Rosana Portugal Tavares de; CABRAL, Rosimere Mendes. A ação cultural e a apropriação da informação sob a perspectiva da teoria crítica. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 20, p. 01-21, 2024. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1983. Acesso em: 21 jun. 2025.
BORGES, Fabiano Cataldo de Azevedo. Apropriação da informação: um estudo sobre significados. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, João Pessoa, v. 13, n. 2, p. 70-89, jul./dez. 2018. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/pbcib/article/view/45227. Acesso em: 21 jun. 2025.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 35. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
FLUSSER, Vilém. Cultura e comunicação: ensaios. São Paulo: Annablume, 1983.
COELHO NETTO, José. Ação cultural: a política cultural nos anos 80. São Paulo: Brasiliense, 1997.
