No episódio #748 do podcast “3 Irmãos”, durante o debate entre Jones Manoel (licenciado em História pela UFPE, mestre em Serviço Social, criado na favela da Borborema, em Recife, e conhecido por popularizar temas como marxismo e educação popular) e Wilker Leão (influenciador digital com posicionamento político ligado à direita radical, que produz conteúdos contra universidades públicas, ideias de esquerda e pautas sociais), este último apresentou uma visão a ser questionada sobre o papel da universidade pública.
Em um trecho específico, ao classificar cursos como Biblioteconomia, Museologia, Arquivologia e Antropologia como “pouco úteis”, “sem demanda social” ou de “baixo retorno para o contribuinte”, Wilker mostra uma visão que enxerga a universidade quase só como um espaço para formação profissional imediata, ignorando seu papel na formação crítica, cultural e social dos cidadãos. Com isso, ele fortalece ideias que simplificam o valor da educação e colocam em segundo plano saberes que são essenciais para a vida em sociedade. A partir dessas falas, este ensaio analisa essas opiniões com base na Teoria Crítica e na Teoria da Representação, mostrando como esse tipo de discurso afeta políticas públicas, decisões dentro das universidades e a forma como a sociedade enxerga o valor de certos conhecimentos.
O saber como ferramenta de poder: a contribuição da Teoria Crítica
A Teoria Crítica, criada por pensadores da Escola de Frankfurt, tem como foco mostrar como ideias e estruturas da sociedade ajudam a manter formas de dominação, mesmo de maneira mascarada e sutil. Autores como Adorno, Horkheimer e Marcuse alertaram que a busca por eficiência e lucro, típica das empresas, também foi infiltrada no sistema educacional, transformando-o em produto. A fala de Wilker Leão segue esse raciocínio de que os cursos que não trazem retorno econômico direto, segundo ele, não deveriam existir.
Essa forma de pensar já foi chamada por Adorno e Benjamin (1955) de “Indústria Cultural”, e aplicada à educação significa transformar a universidade em uma fábrica de trabalhadores, e não em um lugar de reflexão e crítica. Porém, o conhecimento — especialmente o das ciências humanas — não existe apenas para gerar lucro, mas para entender, questionar e melhorar o mundo em que vivemos.
Os cursos que ele critica são justamente os que cuidam da organização da informação, da cultura e da memória coletiva. Profissões como bibliotecário, museólogo e arquivista garantem que documentos importantes não se percam e que as futuras gerações possam conhecer sua história. Reduzir essas áreas a algo sem valor é um erro grave, que ignora sua contribuição social. Como destacam Salcedo e Bezerra (2017), bibliotecas e arquivos não são apenas espaços técnicos, mas instituições que ajudam a construir e preservar a memória cultural.
Representar: o saber e sua imagem na sociedade
Além da crítica ideológica, a fala de Wilker também pode ser analisada pela Teoria da Representação, que nos mostra que tudo o que organizamos, nomeamos ou classificamos transmite uma ideia de valor. Como menciona Araújo (2009), representar é escolher (e toda escolha deixa algo de fora).
Quando ele diz que esses cursos têm pouca demanda, está repetindo uma ideia de que só tem valor o que gera lucro ou empregabilidade imediata. Com isso, acaba “apagando” o valor de saberes que são mais difíceis de medir, mas que têm enorme impacto social. Esses discursos ajudam a tirar esses cursos do centro das políticas públicas e tornam mais fácil o corte de verbas, o fechamento de departamentos e até a negação do direito à existência dessas profissões.
Mais preocupante ainda é que essa forma de representar o conhecimento reforça uma lógica antiga e excludente, que considera importantes apenas os saberes ligados a grupos privilegiados. Os cursos atacados por Wilker são justamente os que promovem a diversidade cultural, cuidam da memória coletiva e criam pontes entre o conhecimento acadêmico e as comunidades. Chamá-los de “altruístas” é negar a própria função da universidade enquanto espaço de inclusão, diversidade e cidadania.
A Universidade como espaço de disputa – Uma conclusão

Fonte da imagem: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/a-elites-querem-o-fim-da-universidade-publica/
O que está em jogo nesse debate não é apenas a existência ou não de alguns cursos, mas sim o modelo de universidade que queremos. Devemos ter uma universidade voltada só para o mercado de trabalho, ou uma universidade que também forme cidadãos críticos, que valorizem a cultura e a justiça social? A Teoria Crítica recorda-nos que nenhuma escolha institucional é neutra e a Teoria da Representação mostra que a forma como organizamos e falamos sobre os saberes muda a forma como eles são vistos e valorizados pela sociedade.
É urgente reconhecer o valor dos cursos criticados no debate. A Biblioteconomia, por exemplo, organiza e facilita o acesso à informação. Segundo Vieira (2024), não se trata apenas de classificar livros, mas de promover a democracia informacional. A Museologia ajuda a reconstruir identidades por meio da cultura. A Arquivologia preserva documentos que são prova de direitos e ações da sociedade. E a Antropologia oferece uma leitura profunda das culturas, algo essencial em tempos de intolerância e simplificação das diferenças.
A fala de Wilker Leão não é um caso isolado. Ela faz parte de um discurso mais amplo que tenta enfraquecer os saberes críticos e culturais em nome de uma ideia limitada de produtividade e eficiência. Ao desvalorizar essas áreas, o que se ataca não são apenas profissões específicas, mas o papel da universidade como espaço de pluralidade, liberdade intelectual e democracia.
Como mostram a Teoria Crítica e a Teoria da Representação, esse tipo de discurso não é neutro: ele carrega uma visão de mundo que tenta manter certos poderes e excluir outras formas de conhecimento. Defender a diversidade de cursos é defender uma universidade pública que seja, de fato, para todos.
Referências:
ARAÚJO, Carlos Alberto Ávila. Correntes teóricas da Ciência da Informação. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Abril Cultural, 1955.
SALCEDO, Diego; BEZERRA, Maria de Fátima. A biblioteca e a construção da memória cultural: o papel dos acervos raros e especiais. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, v. 22, n. 1, p. 107–122, jan./jun. 2017. Disponível em: https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/963/pdf_106. Acesso em: 5 maio 2025.
VIEIRA, Paula Regina. Introdução à teoria geral de biblioteconomia. Rio de Janeiro: Interciência, 2024.
