O estudo empírico sobre gestão de projetos em bibliotecas catarinenses, conduzido por Spudeit (2025), revela um cenário paradoxal: embora os coordenadores reconheçam a importância da gestão de projetos, sua implementação é marcada por barreiras estruturais. Quando analisado através das lentes da Teoria Crítica, especialmente as contribuições de Adorno, Horkheimer, Marcuse e Habermas, esse cenário deixa de ser mero problema operacional e transforma-se em um sintoma de relações de poder assimétricas e alienação institucional
Financiamento Público e a Ilusão da Democratização
A pesquisa aponta que os recursos para projetos em bibliotecas vêm majoritariamente de fontes públicas, mas seu acesso é limitado por burocracias e concentração em poucas instituições. Essa dinâmica exemplifica o conceito de “semicultura” (Adorno,1995): uma aparência de democratização que mascara a perpetuação de desigualdades. O financiamento, embora coletivo, opera como mecanismo de exclusão, onde:
– Critérios obscuros beneficiam instituições já privilegiadas
– A burocracia atua como barreira para bibliotecas menores, reproduzindo a lógica da “racionalidade instrumental” (Horkheimer,1976), que prioriza eficiência técnica em detrimento da equidade
– Bibliotecários são alienados dos processos decisórios (Marcuse,1964), tornando-se executores passivos de políticas definidas por elites técnicas
Especialização e a Autonomia da Esfera Técnica
A pesquisa revela que apenas 25% dos coordenadores conhecem o PMBOK, e nenhum o aplica sistematicamente. Essa assimetria reflete o que Habermas chamou de “esfera técnica autônoma”, onde:
– O conhecimento especializado (como certificações PMP) é monopolizado por poucos, criando uma barreira simbólica que marginaliza profissionais não iniciados
– Ferramentas como Trello ou metodologias ágeis são adotadas superficialmente, sem transformar relações de poder. Marcuse identificaria isso como “tolerância repressiva”: uma aparente abertura à inovação que, na prática, mantém a situação atual
Comunicação Deficiente e Hierarquias Rígidas
Os coordenadores relatam falhas na comunicação, muitas vezes atribuídas à falta de envolvimento da equipe. A Teoria Crítica enxerga aqui um problema mais profundo:
– A “razão instrumental” (Horkheimer/Adorno,1947) domina as relações, reduzindo a comunicação a fluxos verticais de informação, não a diálogos horizontais
– Estruturas organizacionais opacas reforçam hierarquias, impedindo a participação efetiva dos profissionais de base – o que Freire chamaria de “cultura do silêncio”
Ferramentas de Gestão como Instrumentos de Cooptação
O uso limitado de softwares como Trello ou metodologias ágeis (como Scrum) não é apenas uma lacuna técnica, mas um reflexo de como a tecnologia é cooptada pelo sistema:
– Ferramentas potencialmente democratizantes são esvaziadas de seu potencial transformador quando inseridas em estruturas autoritárias
– A falta de capacitação não é acidental; é sintomática de uma formação em Biblioteconomia que prioriza habilidades técnicas sobre reflexão crítica (Habermas,1987)
A Teoria Crítica como Caminho para Emancipação
Para superar essas contradições, a Teoria Crítica propõe uma práxis emancipatória:
1. Conscientização crítica: Revelar as estruturas de poder que moldam a gestão de projetos, indo além do treinamento técnico
2. Espaços dialógicos: Criar fóruns onde bibliotecários possam debater alocação de recursos e prioridades – uma “ação comunicativa” (Habermas,1981)
3. Desnaturalização dos critérios técnicos: Mostrar que metodologias como PMBOK não são neutras, mas carregam valores políticos
4. Reorganização institucional: Incluir profissionais de base nas decisões, rompendo com a alienação (Marcuse,1964)
Conclusão: Gestão de Projetos como Ato Político
O estudo de Spudeit (2025) confirma que os desafios na gestão de projetos em bibliotecas são, em essência, políticos. A Teoria Crítica desvela como soluções técnicas falham ao ignorar relações de poder. A verdadeira transformação exigirá:
– Formação crítica em Biblioteconomia, integrando disciplinas que discutam poder e informação
– Pressão por transparência nos financiamentos públicos
– Adoção de ferramentas com consciência crítica, não como fins em si mesmas, mas como meios para democratização
Enquanto as bibliotecas reproduzirem lógicas de dominação técnica, sua gestão de projetos continuará a ser um instrumento de manutenção do poder, não de emancipação. A mudança só virá quando os profissionais enxergarem-se não como meros executores, mas como agentes de transformação – tal como preconizava a Teoria Crítica.
Referências
ADORNO, T. W. Prismas: crítica cultural e sociedade. Tradução de Augustin Wernet e Jorge Mattos Brito de Almeida. São Paulo: Ática, 1995.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HABERMAS, J. Teoria do agir comunicativo. Tradução de Flávio Beno Siebeneichler. v. 1. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
HORKHEIMER, M. Eclipse da razão. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976.
MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Tradução de Giasone Rebuá. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
SPUDEIT, D. Gestão de projetos em bibliotecas: uso de ferramentas, softwares e plataformas para efetivação de serviços de informação. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 21, n. 1, p. 1-19, jan./jun. 2025. Disponível em:https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1747/1528 . Acesso em: 16 jun. 2025
