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LORENA CAETANO DE JESUS

Falar sobre o comportamento informacional dos usuários de bibliotecas pode parecer, à primeira vista, algo técnico ou neutro, limitado a ações de busca ou uso de informação. No entanto, quando se observa esse comportamento sob o olhar da Teoria Crítica, percebe-se que a relação das pessoas com a informação está profundamente ligada a fatores sociais, culturais, políticos e econômicos.

A Teoria Crítica, proposta por autores da Escola de Frankfurt, como Habermas e Adorno, possibilita enxergar a informação não apenas como dado ou recurso técnico, mas como algo que carrega ideologia, poder e dominação. Por isso, este ensaio busca refletir de forma crítica sobre como o comportamento informacional dos usuários é construído dentro de contextos desiguais, principalmente em bibliotecas universitárias públicas. Para isso, também apresento uma proposta de intervenção, baseada na experiência real das dificuldades enfrentadas pelos estudantes no uso de fontes acadêmicas confiáveis.

A Teoria Crítica e a Informação

A Teoria Crítica surgiu no século XX como uma forma de pensar a sociedade além das explicações econômicas e políticas tradicionais. Ela mostra que o conhecimento, a cultura e a comunicação são também meios de dominação, controle e reprodução das desigualdades (HABERMAS, 1989).

No campo da informação, essa perspectiva crítica faz enxergar que o acesso ao conhecimento não é igual para todos. Ao contrário do que dizem algumas teorias mais técnicas ou neutras, as bibliotecas não são espaços que garantem automaticamente o acesso democrático à informação. Existem barreiras sociais, econômicas e até tecnológicas que afetam diretamente o modo como os usuários buscam e usam informação (CAMPOS, 2017).

Por isso, a atuação dos bibliotecários não deve ser apenas técnica, mas crítica, pensando no papel da biblioteca como espaço de formação para a autonomia informacional.

Comportamento Informacional: Nem Sempre Livre e Consciente

Nos estudos sobre comportamento informacional, autores como Wilson (1981) e Case (2007) falam de necessidades, busca e uso de informação. Porém, esses modelos muitas vezes tratam o usuário como um ser racional e livre, o que na prática nem sempre acontece.

Quando aplicamos a Teoria Crítica, entendemos que as escolhas informacionais dos usuários não são totalmente conscientes ou livres. Muitos estudantes de universidades públicas, por exemplo, não acessam bases acadêmicas não por falta de interesse, mas por falta de letramento informacional, barreiras tecnológicas ou porque o Google e as redes sociais são mais fáceis e acessíveis (LIMA; ZANELLA, 2022).

Esse comportamento reforça desigualdades, pois quem não aprende a usar fontes confiáveis ou a avaliar criticamente a informação tende a se prender a conteúdos rasos, manipulados ou até desinformativos. Assim, o comportamento informacional também é um reflexo das desigualdades sociais e culturais do Brasil.

Estudo de Caso: Uma Biblioteca Universitária Pública

Na biblioteca de uma universidade pública federal, nota-se que muitos estudantes de graduação não usam a plataforma CAPES Periódicos nem outras bases científicas. Preferem fazer pesquisas rápidas no Google ou assistir vídeos no YouTube, mesmo que essas fontes nem sempre sejam confiáveis. Isso acontece, principalmente, com alunos que vieram de escolas públicas e que não tiveram contato prévio com a cultura acadêmica ou com bibliotecas digitais.

Esse comportamento gera preocupação, pois afeta a qualidade das pesquisas desses alunos e contribui para manter a distância entre eles e o acesso à informação científica de qualidade. Para a Teoria Crítica, esse cenário reflete a dominação tecnológica das big techs, que condicionam a busca por informação de forma superficial e comercial,além da falta de políticas de mediação informacional nas bibliotecas universitárias (FONSECA, 2018).

Proposta de Intervenção: Caminhos para uma Biblioteca Crítica

Pensando nesse problema, é possível propor uma intervenção prática com base na Teoria Crítica:

            1.         Oficinas de letramento informacional crítico, ensinando a avaliar fontes, entender fake news, bolhas informacionais e algoritmos de busca;

            2.         Curadoria de bases abertas e gratuitas, com demonstração de uso de periódicos científicos e repositórios confiáveis;

            3.         Rodas de conversa na biblioteca, debatendo o papel da informação e das tecnologias no cotidiano dos estudantes;

            4.         Formação continuada para bibliotecários, para que eles desenvolvam habilidades de mediação crítica e participem ativamente da formação dos usuários.

Com essas ações, os estudantes podem aprender a questionar as informações recebidas, escolher melhor suas fontes e não depender exclusivamente das ferramentas fáceis e dominadas por interesses de mercado.

Considerações Finais

A reflexão a partir da Teoria Crítica mostra que o comportamento informacional dos usuários não pode ser entendido apenas como algo individual ou técnico. Há fatores históricos, sociais e políticos que influenciam diretamente a forma como as pessoas buscam e usam informação, especialmente em contextos de desigualdade como o brasileiro.

Por isso, a biblioteca universitária precisa ir além do papel de fornecer livros e acesso à internet. Ela deve ser um espaço de formação crítica, onde os estudantes aprendam a se posicionar diante da avalanche de informações do mundo atual. O bibliotecário, nesse processo, não é só técnico, mas educador, mediador e agente de transformação social.

Referências

CAMPOS, Maria Luiza de Almeida. A teoria crítica e a ciência da informação: aproximações e distanciamentos. Informação & Informação, Londrina, v. 22, n. 3, p. 744-767, 2017. Disponível em: https://revista.ibict.br/fiinf/article/download/6338/6142. Acesso em: 20 jun. 2025.

CASE, Donald Owen. Looking for information: a survey of research on information seeking, needs and behavior. 2. ed. Amsterdam: Academic Press, 2007.

FONSECA, Fátima Bayma de Oliveira. Informação e dominação: contribuições da Teoria Crítica para a Ciência da Informação. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 16, n. 3, p. 1-19, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rdbci/a/7RbdTh3kj5dJtdF6qMZmbKQ. Acesso em: 20 jun. 2025.

HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

LIMA, Emeide Nóbrega Duarte; ZANELLA, Aline Maria. Comportamento informacional: uma análise crítica à luz da teoria social. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 17, n. 1, p. 1-16, 2021. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1983/1493. Acesso em: 20 jun. 2025.

WILSON, Thomas D. On user studies and information needs. Journal of Documentation, v. 37, n. 1, p. 3-15, 1981.

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