No passado, a posse e a leitura de obras escritas estavam confinadas a nobres, religiosos. As bibliotecas, por sua vez, eram instituições elitizadas, guardiãs de saberes que raramente saiam dos muros de mosteiros, palácios ou academias fechadas. A informação, portanto, não era um bem público, mas um instrumento de poder e que distinguia socialmente as pessoas, controlado para manter hierarquias e privilégios.
Porém, com o surgimento da imprensa, as transformações sociais e políticas, a sociedade começou a questionar essa exclusividade. A ideia de que o conhecimento deveria ser um direito universal e que as bibliotecas deveriam ser espaços abertos para todos começou a ganhar força. Entretanto, não ocorreu sem tensões e contradições. Por trás da aparente “abertura” das bibliotecas públicas, persistiam lógicas de poder, seleção e controle que, muitas vezes, reproduziam as mesmas desigualdades que se pretendia combater antes.
É nesse cenário que a Teoria Crítica surgiu com a Escola de Frankfurt, oferecendo uma base de conceitos fundamentais. Longe de ser um mero exercício filosófico, seus pensadores como Max Horkheimer e Theodor W. Adorno forneceram as ferramentas conceituias necessárias para desvelar as estruturas ocultas de dominação presentes até mesmo em instituições aparentemente benevolentes como as bibliotecas. Ao analisar a Indústria Cultural e a razão instrumental, a Teoria Crítica permitiu à Biblioteconomia ir além da sua dimensão meramente técnica, provocando uma profunda reflexão sobre seu papel na manutenção ou subversão das desigualdades sociais. Essa perspectiva crítica não apenas iluminou as contradições do passado, mas também pavimentou o caminho para o surgimento de uma Biblioteconomia Social e para o florescimento das bibliotecas comunitárias que hoje representam a vanguarda do acesso emancipatório ao conhecimento.
Adorno e Horkheimer, com o conceito de Indústria Cultural, expuseram como a cultura de massa padroniza o pensamento e o consumo, transformando a arte e o conhecimento em mercadorias. Essa visão é fundamental para entender como as bibliotecas, em um modelo mais tradicional, poderiam, sem querer, compactuar com essa lógica. A seleção de acervos pautada unicamente em best-sellers ou em critérios de “entretenimento”, a promoção de eventos sem profundidade crítica ou a priorização de coleções que refletem apenas os interesses das classes que dominam são exemplos de como a lógica da Indústria Cultural pode se infiltrar no ambiente bibliotecário. A Teoria Crítica, nesse sentido, serviu como um alerta: a biblioteca não é apenas um depositário de livros, mas um agente cultural que pode tanto reforçar quanto mudar as estruturas existentes.
A crítica à razão instrumental que prioriza a eficiência e os meios em detrimento dos fins e valores humanos, também impactou a percepção das bibliotecas. Se a gestão bibliotecária se torna excessivamente focada em métricas, em processos burocráticos ou na mera entrega de “serviços” sem uma reflexão sobre seu impacto social e emancipatório, ela corre o risco de desumanizar o acesso ao conhecimento. A Teoria Crítica impulsionou a biblioteconomia a questionar: para que serve o acesso à informação? É apenas para atender a uma demanda utilitária ou para promover a autonomia, a reflexão crítica e a participação das pessoas? Essa pergunta se tornou um gás para a busca de práticas mais engajadas.
A profunda influência da Teoria Crítica na Biblioteconomia colaborou com o surgimento e na consolidação da Biblioteconomia Crítica ou Biblioteconomia Social. Essa nova corrente de pensamento e ação começou a questionar e discutir que a Biblioteconomia não deveria ser somente tecnicista, focada em técnicas de catalogação, classificação e organização. Pelo contrário, defendia que a profissão deveria assumir um caráter emancipatório. A “Biblioteconomia social” busca junto com a ação reflexiva direcionar as práticas e os serviços das bibliotecas para atender às necessidades sociais, promover a justiça social, a igualdade, a equidade, o acesso à informação, a liberdade de expressão, visando contribuir para o desenvolvimento dos indivíduos e o bem-estar da atuando como um instrumento de transformação social e de promoção da justiça e equidade ( Tanus, 2023 ). Desse modo, o foco passou não só para os documentos, mas para o bem-estar das pessoas também.
Essa mudança de perspectiva influenciou todo o pensamento da biblioteconomia, desde a formação dos currículos universitários nas faculdades de Biblioteconomia que passaram a incluir disciplinas e abordagens mais voltadas para a dimensão social, ética e política da informação até as próprias ações sociais que os bibliotecários são chamados a desempenhar em seu trabalho cotidiano. O profissional de informação deixou de ser visto apenas como um guardião do acervo para se tornar um mediador cultural, um agente de letramento crítico e um articulador de redes comunitárias.
A Teoria Crítica inspirou movimentos sociais e iniciativas de base que buscavam criar espaços autônomos de conhecimento e resistência. As bibliotecas comunitárias, nesse sentido, representam uma materialização dessas ideias. De acordo com Alves ( 2020) “As bibliotecas comunitárias se encarregam de fornecer acesso informacional e também permitem o desenvolvimento sociocultural, sendo suporte para o desenvolvimento de projetos educacionais, culturais e até profissionais, contribuindo por vezes também ao desenvolvimento econômico da comunidade e dos indivíduos nela inseridos”.
Dessa forma, contrapondo à padronização ao invés de impor um acervo ou uma visão de mundo hegemônica, as bibliotecas comunitárias emergem das demandas e dos saberes locais. Elas valorizam a oralidade, a história oral, a literatura marginal e os autores regionais, desafiando a lógica da Indústria Cultural que homogeneíza o gosto e o acesso. Fomentam a autonomia diferente de um modelo que apenas “oferece” serviços, as bibliotecas comunitárias frequentemente são geridas pelos próprios membros da comunidade. Isso promove a autonomia, a participação e o protagonismo, características essenciais de uma sociedade emancipada, conforme preconizado pela Teoria Crítica.
Muitas bibliotecas comunitárias atuam como verdadeiras esferas públicas locais, ou seja, são locais onde se discutem problemas do bairro, se organizam mobilizações, se promovem debates sobre questões sociais e políticas. A informação, nesse contexto, não é um fim em si, mas um meio para a ação social transformadora. Essas iniciativas populares não nasceram do nada, mas da percepção de que as bibliotecas públicas muitas vezes não conseguiam atender às demandas específicas, às realidades culturais e às necessidades de informação de comunidades marginalizadas e periféricas.
A contribuição da Teoria Crítica para a Biblioteconomia, e em particular para o florescimento e a atuação das bibliotecas comunitárias, é inegável. Ao longo do tempo, ela forneceu as ferramentas conceituais para desvelar as relações de poder implícitas na produção e distribuição do conhecimento, permitindo que a Biblioteconomia se posicionasse de forma mais engajada e consciente de seu papel na sociedade. A ascensão da Biblioteconomia Crítica/Social é a prova mais concreta de como essas ideias transformaram não só a teoria, mas também a prática e a formação profissional na área.
As bibliotecas comunitárias, como manifestação prática dessa crítica, representam não apenas espaços de acesso à leitura, mas verdadeiros centros de resistência e emancipação. Elas exemplificam como a informação e o conhecimento podem ser mobilizados para a construção de comunidades mais justas, participativas e autônomas.
Contudo, a relevância da Teoria Crítica permanece. Em um cenário atual marcado pela desinformação, pela polarização e pela crescente mercantilização do conhecimento, as bibliotecas comunitárias, embasadas por uma postura crítica, são mais necessárias do que nunca. Elas são a prova viva de que a Biblioteconomia, quando guiada por um profundo compromisso social e por uma reflexão crítica contínua, tem o poder para a transformação e a construção de um futuro mais igual para todos.
Referências
ALVES, Mariana de Souza. Biblioteca comunitária: conceitos, relevância cultural e políticas. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, [S. l.], v. 16, p. 1–29, 2020. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1252. Acesso em: 23 jun. 2025
TANUS, Gabrielle Francinne de S. C. Biblioteconomia Social: uma virada social. Ciência da Informação Express, Lavras, v. 4, p. 1-6, 14 jun. 2023.
