Fundamentada na década de 30, a chamada Teoria Crítica propõe uma análise aprofundada e radical das estruturas sociais e culturais nas sociedades capitalistas avançadas, sobretudo ocidentais, com o intuito de revelar os mecanismos ideológicos de dominação da grandes mídias ou da chamada indústria cultural, como artifício da burguesia. A cultura nas sociedades modernas não é mais expressão espontânea da criatividade humana, senão um produto padronizado e mercantilizado, que serve aos interesses do capital, cuja burguesia é detentora. A indústria cultural transforma a informação em instrumentos de reprodução ideológica, moldando consciências e comportamentos de forma a manter a ordem vigente. Desta forma, os meios de comunicação de massa assumem papel central na reprodução dos valores do sistema capitalista ocidental, suprimindo o pensamento crítico e promovendo uma falsa consciência coletiva, lastrada nos valores do sistema vigente do Norte Global.
Ademais, a chamada teoria do enquadramento (framing), desenvolvida por autores como Goffman e aprofundada no campo da comunicação por pesquisadores como Robert Entman, contribui fundamentalmente para a compreensão dos mecanismos específicos pelos quais a mídia constrói realidades e as exibe para a opinião pública como sendo toda a realidade (quando é um enquadramento estrategicamente pensado pela mídia hegemônica e burguesa). Essa teoria aponta que, ao selecionar certos aspectos de um evento e organizá-los em um determinado esquema interpretativo, os meios de comunicação influenciam significativamente a maneira como o público compreende e avalia os acontecimentos.
Portanto, no contexto de conflitos internacionais, os enquadramentos utilizados pela mídia hegemônica ocidental tendem a reforçar narrativas favoráveis às potências liberais, retratando as mesmas como defensoras da liberdade e da democracia, ao passo que atores do Sul Global são frequentemente apresentados como ameaças, irracionais ou inimigos da ordem. Esse processo, muitas vezes sutil e estruturado, coopera com os interesses geopolíticos e econômicos das elites burguesas dominantes, orientando ou dirigindo a opinião pública em direção à naturalização das ações militares ocidentais e à deslegitimação de resistências locais.
Outrossim, essa instrumentalização da informação é ainda mais evidente quando analisamos o papel da mídia hegemônica ocidental, especialmente dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, na cobertura de conflitos geopolíticos que envolvem as próprias potências liberais ocidentais. Através da lógica da indústria cultural, os grandes veículos de comunicação atuam não mais como agentes neutros da informação, senão como articuladores e atores ideológicos que moldam, direcionam ou enviesam a opinião pública de acordo com os interesses da ordem burguesa vigente: capitalismo-; normalizando ações militares, encobrindo violações de direitos humanos e deslegitimando atores do Sul Global, como visto recentemente em ataques ilegítimos de potências da OTAN a países do Oriente Médio.
Ademais, estudos contemporâneos, reforçam essa ótica ao demonstrar como a mídia ocidental constrói enquadramentos enviesados em coberturas de conflitos como entre Israel e Palestina, influenciando diretamente as percepções sociais sobre o ”certo” e o ”errado”, ou o ”vilão” e o ”mocinho”, no cenário internacional. Assim, a mídia não apenas informa, mas fabrica consenso, operando como extensão simbólica do poder de impérios e da ordem vigente burguesa e capitalista do Norte Global. Tais óticas são estruturadas e transmitidas não somente em grandes veículos de países do centro do capitalismo (instando a ordem das classes dominadas e, agora, inertes, nessas sociedades), senão na mídia de países do próprio Sul Global, majoritariamente propriedade das elites burguesas e liberais regionais, alinhadas aos valores e interesses das grandes potências liberais e centrais.
Outrossim, em conflitos contemporâneos envolvendo potências liberais ocidentais, como os Estados Unidos e seus aliados da OTAN, é factível a atuação sistemática da mídia hegemônica na legitimação das ações militares dos mesmos, e na construção de consensos favoráveis as intervenções desses países do centro do capitalismo. Um dos exemplos dessa dinâmica nas últimas décadas foi a cobertura da Guerra do Iraque, quando grandes veículos da mídia hegemônica do Norte Global reproduziram, de forma irresponsável, narrativas sobre a suposta existência de armas de destruição em massa no Iraque. Sendo esses enquadramentos, amplamente divulgados sem a devida verificação, e que criaram uma atmosfera de medo e justificaram, junto à opinião pública internacional, a invasão liderada pelos Estados Unidos ao país do Oriente Médio.
Contudo, situação similar ocorre neste instante nas coberturas midiáticas do conflito Israel-Palestina, com estudos e análises, apontando que a mídia ocidental frequentemente enquadra o Estado de Israel como um Estado democrático que reage a ameaças, enquanto que a fragilizada Palestina é apresentada de forma ambígua ou diretamente associada ao terrorismo ou ameaça antidemocrática não somente a Israel, senão as potências centrais do capitalismo. Essa assimetria de enquadramento reforça uma lógica binária entre civilização e barbárie, que serve aos interesses das potências ocidentais centrais aliadas a Israel e deslegitima as reivindicações históricas do povo palestino e de outros povos árabes.
Assim, a mídia atua não como espelho da realidade, mas como um artifício para a legitimação das diretrizes ideológicas do capital burguês internacional e da ordem vigente, aprofundando a alienação e dificultando o pensamento crítico sobre os reais interesses envolvidos nesses conflitos. E, como supracitado, sendo recorrente reprodução de tais narrativas do Norte Global em mídias de massa de Estados da periferia do capitalismo, findando legitimar nesses países os discursos das potências centrais do Norte capitalista.
Sob a ótica da análise apresentada, é factível que tanto a Teoria Crítica quanto a Teoria do Enquadramento oferecem ferramentas fundamentais para compreender o papel desempenhado pela mídia hegemônica (tanto nos centros como nas periferias do capitalismo) na construção de narrativas ideologicamente orientadas que servem aos interesses da ordem vigente. A indústria cultural, ao transformar a informação em instrumento de dominação simbólica, impede a formação de uma opinião pública autônoma e crítica. Assim, essa lógica se expressa de maneira evidente na cobertura ocidental de conflitos internacionais, em que intervenções das potências liberais do Norte Global, são justificadas, enquanto os povos do Sul Global são constantemente deslegitimados e privados de voz.
Referências
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
HORKHEIMER, Max. Teoria tradicional e teoria crítica. In: HORKHEIMER, Max. Teoria crítica: uma documentação. Trad. Artur Morão. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 159–212.
RIZZO DE AZEVEDO, N. A. Framing, a teoria do enquadramento: conceitos e aplicações. Salvador: EDUNEB, 2023.
BOYD-BARRETT, Oliver. Media imperialism: towards an international framework for the analysis of media systems. Londres: SAGE, 2015.
