Tempo de leitura: 6 min

Em Março de 2023, o político sul-coreano Jang Ye Chan foi exposto por ter escrito uma fanfic com conteúdo pornográfico envolvendo celebridades femininas, com destaque na cantora IU, uma das maiores – se não a maior, estrela do kpop atual. Enquanto a mídia tratou o caso como um mero “escândalo político“, uma análise fundamentada na Teoria Crítica revela estruturas mais profundas: a objetificação do artista por meio da indústria cultural, a naturalização da violência digital contra mulheres e as possibilidades de resistência na esfera pública digital. Este ensaio articula três eixos de análise:

  • A Fetichização da celebridade como mercadoria (Adorno e Horkheimer)
  • A esfera pública como espaço de silenciamento (Habermas e Teorias Feministas)
  • Contra-narrativa e resistência comunicativa

Adorno e Hokheimer, em Dialética do Esclarecimento (1985), definem a indústria cultural como um sistema que transforma arte e seres humanos em mercadorias. IU é um produto da indústria do kpop, onde as celebridades comumente são comercializadas como objetos de desejo. A fanfic, nesse caso, reflete como a cultura de massa transforma artistas em objetos de fantasia sexual, mesmo que a imagem pública delas seja “”controlada”” para evitar isso – entre muitas aspas, uma vez que mesmo que sua imagem seja comercializada como alguém pura, as fancams que focam em seus corpos e os photoshoots sugestivos sempre partem para uma outra narrativa.

Adorno também discute sobre a regressão da audição (e da empatia), criticando a passividade do consumo cultural, além do conteúdo da fanfic, onde reduz uma celebridade a um desejo masculino, a reação do público com memes e curiosidade quase mórbida, ao invés de uma indignação com a violação digital.

Habermas (2014) via a mídia como espaço de debate racional, mas o tratamento desse caso mostrou um enquadramento misógino. Manchetes como “Político escreve fanfic picante sobre IU”, banalizam a violência digital e focam somente no escândalo. Houve uma distorção comunicativa, Adorno diz que a linguagem da indústria cultural banaliza a violência, tanto que a cobertura não questiona as estruturas que permitem esse comportamento (misoginia, fanbase tóxica). Pensando na produção social do silêncio, a comunicação nesse caso exclui certas vozes, a cantora não foi ouvida, sua reação foi ignorada e reduzida apenas a ‘uma nota da empresa’, já o político teve seu destaque com o questionamento de como isso afetaria sua carreira.

Passando para a regressão do debate e da escuta crítica acelerado pelas redes sociais, que reduziu o caso para apenas um evento do cotidiano, mais um fanboy no mundo e que ela não precisa sustentar a imagem de alguém puritana por tanto tempo, sendo citado até sobre o seu recente relacionamento. E se pensar por outro lado, essas plataformas de interação digital e disseminação de notícias lucram com cliques, transformando o assédio em entretenimento. Em 72h o assunto foi substituído por outra polêmica – seguindo a lógica do fast content.

IU, durante toda a sua carreira, é conhecida pelas suas letras que impactam e nas melodias suaves. Dentre elas, Celebrity cria uma narrativa de conexão entre idol e fã, mas muito além disso, gera uma conexão mais intimista consigo mesma, questionando se os tempos difíceis realmente são passageiros. Em suas composições, cita os eventos do começo de sua carreira – como assédio, bullying, citados pela mesma em diferentes entrevistas.

A conclusão é a de que a indústria cultural explora corpos femininos e o fato da mídia normalizar a violência e cyberbullying (atividade crescente na Coréia do Sul). Podemos nos perguntar como o ativismo digital pode ressignificar a esfera pública. Em muitos casos de assédio e violência direcionadas a celebridades, a denúncia em massa feitas pelos fãs é vista como tática de resistência a esse comportamento em plataformas (usando de exemplos o compartilhamento dessa fanfic não consensual e deepfakes de celebridades espalhados pela internet), juntando com a arte crítica.

Referências:

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

ADORNO, Theodor W. O fetichismo na música e a regressão da audição. In: ADORNO, Theodor W. Obras escolhidas. São Paulo: Unesp, 2003. v. 1

HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública. São Paulo: Unesp, 2014.
KWDI.

Digital Gender-Based Violence in K-pop Industry. Seoul: Korean Women’s Development Institute, 2023.

ADMIN_BIS. Cyber-harassment of women in South Korea – Institut du Genre en Géopolitique. Disponível em: https://igg-geo.org/en/2023/10/09/cyber-harassment-of-women-in-south-korea/#:~:text=According%20to%20the%20same%20study,(LPA)%2C%20International%20Journal%20of

/https://www.allkpop.com/article/2023/03/politician-faces-controversy-for-writing-lewd-fanfic-featuring-iu

/https://www.instagram.com/p/CpLIW2bLSLr/?utm_source=ig_web_copy_link

(este último fica como recomendação, na letra, IU incorpora a árvore que auxilia o personagem Zeze, protagonista da obra Meu Pé de Laranja Lima, em um momento onde ela se lembra dos comentários e situações depreciativas enquanto estreava na indústria.)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *