- Representação das mulheres no acervo de bibliotecas escolares - 23 de junho de 2025
A presença das mulheres na história da humanidade é marcada por tentativas de silenciamento, o que não seria diferente na produção literária, onde por décadas mulheres tiveram que negar seus nomes e utilizar-se de pseudônimos masculinos para que suas obras fossem levadas a sério. O mesmo ocorre nos espaços escolares, onde a divulgação do conhecimento feminino é inviabilizada nos componentes curriculares e, sobretudo, nas bibliotecas. Nesse contexto, como espaço fundamental da formação leitora e construção identitária de crianças e adolescentes, as bibliotecas escolares, bem como os profissionais bibliotecários, desempenham um papel crucial na desmistificação de estereótipos de gênero e na formação crítica do leitor.
Este ensaio propõe refletir, a partir da teoria crítica da informação, sobre como a organização dos acervos das bibliotecas escolares podem contribuir para a desmistificação da reprodução de estereótipos de gênero e, consequentemente, para a valorização da produção intelectual feminina, objetivando compreender de que forma a seleção de obras e a mediação da leitura podem contribuir com a formação crítica e feminista dos estudantes.
A Teoria Crítica da Informação
A Teoria Crítica da Informação é um dos grandes marcos da Escola de Frankfurt e tem como seus principais nomes pensadores como Adorno, Marcuse e Habermas. Segundo Araújo (2009, p. 196):
“A informação é entendida, pela teoria crítica, como recurso fundamental para a condição humana no mundo e, como tal, a primeira percepção que se tem é de sua desigual distribuição entre os atores sociais. Como recurso, a informação é apropriada por alguns, que garantem para si o acesso. Aos demais, sobra a realidade da exclusão.”
Portanto, comprometida em entender como as relações de poder interferem no transporte de recebimento igualitário da informação, a Teoria Crítica, aplicada à área da Biblioteconomia, questiona os critérios de seleção de conteúdos, o papel das instituições na promoção da paridade literária e a atuação consciente por parte dos bibliotecários e demais profissionais da informação.
Espaços de formação identitária
Dessa forma, as bibliotecas são ricos ambientes de disseminação informacional, sendo um ótimo suporte didático e um agente de transformação cultural. O problema em questão deve-se ao fato de que não somente um local de acesso a informação, também pode acabar reproduzindo e disseminando as assimetrias presentes na sociedade, caso não atue com criticidade. Um levantamento realizado no acervo do Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD) 2018, revelou que apenas das 190 obras literárias voltadas para o ensino médio eram de autoria feminina (CASTRO, 2023), o que contribui para um silenciamento simbólico das mulheres, comprometendo a construção de uma consciência de gênero crítica desde a infância.
Além disso, quando presentes em materiais voltados ao público infanto-juvenil, as obras vêm com um teor de reafirmação de velhos estigmas, buscando sempre atrelar a imagem feminina à afetividade ou à maternidade, colocando as personagens femininas de forma passiva ou como coadjuvantes de um herói masculino, dessa maneira, reforçando e naturalizando papéis de gênero tradicionais e limitando a perspectiva de mundo das alunas em relações às suas possibilidades de atuação social.
Conclusão
Todavia, iniciativas que buscam sanar a invisibilidade feminina nas bibliotecas escolares, como curadorias e palestras com enfoque em projetos e leituras feministas, o incentivo a leitura crítica de personagens femininas e ações governamentais que apoiem na luta contra a violência de gênero, são caminhos que promovem a desconstrução de preconceitos e o empoderamento das meninas. Em função da Teoria Crítica, pode-se concluir que o modo como o acervo é constituído não deve ser neutro, de maneira que se busque sempre superar as desigualdades, suscitar a diversidade e fomentar a leitura crítica. Assim, cabe às instituições e profissionais da informação fazer das bibliotecas escolares espaços de resistência, que sejam plurais, justos e feministas.
“Extremistas mostram o que mais os assusta: uma menina com um livro.”
Malala Yousafzai
Referências
ARAÚJO, Carlos Alberto Ávila. Correntes teóricas da ciência da informação. Ciência da informação, v. 38, p. 192-204, 2009.
CASTRO, Tamires Vieira Pinheiro de. Literatura de autoria feminina na biblioteca escolar: análise das obras Retratos de Carolina e Sapato de Salto, de Lygia Bojunga Nunes. 2023.
