Tempo de leitura: 4 min
GIOVANNA SILVA RODRIGUES MANUSSAKIS
Últimos posts por GIOVANNA SILVA RODRIGUES MANUSSAKIS (exibir todos)

A recente participação da influenciadora Virgínia Fonseca na CPI das Bets pode ser analisada sob a perspectiva da teoria crítica, que examina como os meios de comunicação e as práticas midiáticas refletem e perpetuam estruturas de poder e desigualdades sociais.

Em 13 de maio de 2025, Virgínia Fonseca prestou depoimento à CPI das Bets, comissão parlamentar que investiga irregularidades no setor de apostas online. Durante a sessão, a influenciadora negou ter recebido percentuais sobre as perdas de apostadores que acessaram a plataforma “Esportes da Sorte” por meio de seu link. No entanto, reportagens indicam que ela teria recebido um adiantamento de R$50 milhões e teria direito a 30% do valor perdido por usuários oriundos de sua divulgação.

A postura de Virgínia durante o depoimento também gerou críticas. Ela compareceu ao Senado trajando uma blusa com a foto da filha e portando um copo Stanley, além de finalizar suas declarações iniciais com a frase “bora pra cima”, o que provocou risadas entre os presentes. Em dado momento, ela se irritou com a exibição de um vídeo publicitário de 2022, apresentado pela senadora e relatora Soraya Thronicke, no qual promovia um site de apostas online. Posteriormente, Virgínia pediu desculpas por sua reação.

A teoria crítica da comunicação, influenciada por pensadores da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno e Max Horkheimer, propõe que os meios de comunicação de massa funcionam como instrumentos de reprodução das ideologias dominantes, contribuindo para a manutenção das estruturas de poder existentes.

No contexto da CPI das Bets, a atuação de Virgínia Fonseca pode ser vista como um exemplo de como influenciadores digitais, ao promoverem plataformas de apostas online, participam da disseminação de práticas que podem ter impactos negativos na sociedade, especialmente entre os jovens e populações vulneráveis. A promoção de jogos de azar por figuras públicas com grande alcance nas redes sociais pode normalizar comportamentos potencialmente prejudiciais, reforçando padrões de consumo que beneficiam interesses econômicos específicos em detrimento do bem-estar coletivo.

Pode-se compreender a atuação de Virgínia Fonseca não apenas como uma ação individual, mas como parte de um sistema maior de indústria cultural, conceito central na obra de Adorno e Horkheimer. Segundo essa concepção, produtos culturais — incluindo o conteúdo produzido por influenciadores — são mercadorias moldadas para atender à lógica do mercado e da reprodução ideológica, anestesiando o pensamento crítico do público. Ao promover uma plataforma de apostas com linguagem leve, estética apelativa e envolvimento emocional, Virgínia participa da estetização de uma atividade potencialmente lesiva, transformando-a em entretenimento e reforçando a passividade do consumidor diante de riscos reais.

Além disso, a lógica de espetacularização da política, visível na repercussão midiática da CPI e no comportamento da influenciadora, revela como as fronteiras entre esfera pública e mercado são cada vez mais difusas. A presença performática de Virgínia, marcada por gestos e símbolos de sua identidade digital, serve tanto para manter sua influência como para desviar o foco das responsabilidades estruturais envolvidas no caso. Isso evidencia um deslocamento perigoso: o debate público sobre os impactos sociais das apostas online é reduzido a um episódio de infotainment, despolitizando questões centrais como a regulamentação do mercado digital, a proteção do consumidor e o papel da mídia na formação da opinião pública. Assim, a teoria crítica denuncia como o consumo cultural, sob o disfarce de liberdade individual e entretenimento, opera frequentemente em favor da perpetuação de uma ordem social desigual.

A análise da participação de Virgínia Fonseca na CPI das Bets, à luz da teoria crítica da comunicação, destaca a importância de refletir sobre o papel dos influenciadores digitais na sociedade contemporânea. Sua atuação evidencia como práticas de comunicação podem estar alinhadas a interesses econômicos que perpetuam desigualdades e impactam negativamente determinados grupos sociais. Esse caso reforça a necessidade de debates sobre ética na publicidade digital e a implementação de políticas públicas que protejam os consumidores, especialmente os mais vulneráveis, dos riscos associados à promoção de jogos de azar e outras práticas potencialmente nocivas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *