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Ana Julia Luzin

Sumbal Saba é doutora em Química e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG). Natural do Paquistão, construiu sua trajetória acadêmica entre diferentes culturas, enfrentando desafios e superando barreiras como cientista mulher.

Neste sábado (13), a professora foi entrevistada por Ana Julia Luzin, estudante de Jornalismo da UFG. A conversa abordou sua experiência acadêmica, os desafios da adaptação em um novo país e as perspectivas para mulheres na ciência.

Para começar, eu gostaria de saber como foi a sua formação no Paquistão até chegar ao Brasil.

Eu sou do Paquistão, então fiz toda a minha formação até o mestrado lá, na minha cidade de Peshawar, na University of Peshawar. Meu mestrado foi em Química Orgânica. Depois, em 2012, concorri a um processo seletivo para uma bolsa internacional financiada pelo CNPq. Eles estavam oferecendo bolsas para alunos irem a diferentes países e fazerem mestrado ou doutorado. Como eu já havia concluído o meu mestrado, sonhava em fazer o doutorado fora do Paquistão, pois a pesquisa que eu queria desenvolver exigia muitos recursos que, na época, não estavam disponíveis no meu país. Hoje as condições melhoraram, mas naquele momento eles não tinham aqueles recursos. Por isso concorri e consegui a bolsa, ficando entre os cinco selecionados do continente. Eu escolhi o Brasil, mas também havia opções como China, Índia e outros países. Optei pelo Brasil porque, quando pesquisei, gostei da cultura e de outros aspectos. Então fui para a Universidade Federal de Santa Catarina e comecei meu doutorado

Professora, e o que te motivou a seguir a área da Química?

Quando estava fazendo a graduação no Paquistão, em um colégio bem prestigiado — onde minha mãe também havia estudado, um colégio federal bem antigo —, comecei a me interessar ainda no ensino médio. Lá é um pouco diferente daqui: a partir dos onze anos já ingressamos no colégio, como um ensino superior. No Paquistão, temos combinações de disciplinas; eu selecionei química, biologia e zoologia. Desde o início eu gostava de química e me lembro de uma professora, que já era senhora naquela época, então não sei se ainda está viva, a quem perguntei: “Professora, por que vou estudar química? Eu gosto de química, mas onde vou aplicar isso?”. No colégio, não temos muita visão das coisas, e não tínhamos tecnologia para pesquisar sobre a área. Ela me respondeu: “Olha, Sumbal, se você pegar uma agulha de injeção, aquilo é metal, é química também, são átomos e moléculas. E se você olhar para o céu, aquilo são gases, também é química”. A química está em tudo, do céu até a agulha. E eu gostei dessa abrangência.

Quando fui para a universidade e entrei no Departamento de Química, precisei escolher uma área específica, então fiz a prova para Química Orgânica, que era a mais concorrida na época. Lembro de estar muito ansiosa esperando o resultado da seleção, e fiquei feliz em ter sido aprovada. Graças a Deus, consegui entrar na área, escolhi meu campo de pesquisa e continuei minha carreira até hoje.

A senhora disse que escolheu o Brasil por conta da cultura, teve um choque cultural muito grande? 

O choque cultural sempre existe, qualquer pessoa que viaja para outro país sente isso. No meu caso, foi um pouco diferente porque eu usava o lenço por causa da minha religião. Eu sou muçulmana e optei por seguir isso, usar o lenço e mostrar a minha identidade, mostrar de onde eu vim. Hoje sigo algumas coisas das duas culturas, na medida do possível, e levo também aspectos da cultura brasileira comigo.

Quando cheguei, muitas pessoas na UFSC não estavam acostumadas a ver alguém usando lenço, então ficavam curiosas, me olhando e tentando descobrir de onde eu era. Mas muitas pessoas gostaram também. Uma vez, por exemplo, eu estava no auditório da reitoria e uma moça veio correndo dizer que achou muito lindo e até perguntou onde eu tinha comprado. Até hoje, muitas pessoas admiram e ainda me param para perguntar sobre minhas roupas.

Claro que também houve casos de pessoas que discriminavam e não gostavam de estrangeiros, mas isso foi muito pouco no Brasil. Aqui, eu não me senti discriminada. Meu marido também é professor e fez o doutorado aqui. Nós escolhemos o Brasil justamente por ser bem menos discriminatório do que os Estados Unidos, por exemplo. Quando participamos de congressos lá, sentimos preconceito das pessoas por causa das nossas vestimentas, da religião e, até mesmo, simplesmente por sermos estrangeiros.

E no campo da ciência, como é ser uma mulher estrangeira, mãe e pesquisadora?

Eu estou sempre dizendo que não existe uma igualdade de verdade. Quando eu não tinha minha filha, quando ainda não era mãe, passava todos os dias, o dia todo, no laboratório fazendo pesquisas. Às vezes eu saía do laboratório à meia-noite. Mas depois que tive minha filha, isso afetou a minha produtividade. Eu tenho mais responsabilidades agora, preciso levar minha filha para a creche, cuidar dela quando fica doente, dedicar tempo a ela.

Por isso eu digo que ser mãe e cientista é difícil em qualquer lugar do mundo. A maternidade é desafiadora em qualquer país, seja no Paquistão, nos Estados Unidos ou no Brasil. Os pais também têm que cuidar, claro, mas nós sabemos que as mulheres acabam ficando com mais responsabilidades. Temos que pensar em diferentes coisas ao mesmo tempo.

Por exemplo, esta semana eu vou para o BRICS e preciso enviar os materiais da minha apresentação, mas só consigo trabalhar nisso depois que minha filha dorme. Apesar de ser cansativo, a maternidade é maravilhosa, porque Deus deu esse poder de ser mãe para nós, mulheres.

E quando olhamos para esse mundo de homens, vemos que ainda existem muitos espaços para nós, mulheres, ocuparmos. Apesar de hoje estar melhor, com as grandes fundações nos dando mais oportunidades, ainda há muito a conquistar. Eu acredito que deveria haver um incentivo maior para que mulheres ocupem esses espaços na ciência, talvez abrir mais editais voltados para mulheres e mães pesquisadoras, além de fomentar mais as pesquisas lideradas por mulheres.

E para fechar a entrevista, que conselho a senhora daria para mulheres jovens que sonham em seguir carreira científica?

Tem que ficar firme. Não pode desistir. Nós somos humanos e perdemos, falhamos e temos nossas emoções. O importante é levantar de novo. Se não conseguir algo, pode chorar, mas depois é preciso renovar as energias e recomeçar. Tentar e tentar até conseguir chegar lá.

Eu mesma passo por isso. Já conquistei diversas premiações, mas algumas não consegui até hoje. Há um prêmio que estou tentando há cinco anos, e vou continuar tentando até conseguir.

O segredo é a persistência. Você vai chegar nesse lugar se não desistir. Nós, como mulheres pesquisadoras, podemos enfrentar muitas dificuldades durante a vida, mas quando temos um motivo, os problemas deixam de importar.

Quando perguntei sobre química para a minha professora, ela me deu uma motivação, e esse é o meu objetivo agora. Tenho três jovens meninas entrando na minha iniciação científica, e será um prazer poder contribuir para a vida profissional delas.

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