Tempo de leitura: 7 min

Agnaldo Gomes é jornalista, tem 66 anos e é formado em direito pela PUC e em jornalismo pela UFG. Durante sua carreira trabalhou na AGD (Agência Goiana de Divulgação), depois em O Popular na editoria de economia, Diário da Manhã, Correio Brasiliense, Rádio Brasil Central e na TV Goiânia. Também prestou assessoria para a Secretaria da Indústria e Comércio, para o Ministério Público estadual, para a CELG (atual Equatorial) e para Naphtali Alves na época em que era o vice-governador. Atualmente é produtor na TBC (TV Brasil Central). Para contar um pouco sobre sua trajetória no jornalismo, suas opiniões sobre as mudanças que as tecnologias trouxeram a sua profissão e muito mais, ele concedeu uma entrevista ao Lab Notícias.

Pedro – O que te trouxe ao jornalismo? Alguém te inspirou a fazer esse curso?

O jornalismo ele surgiu na minha vida quando eu arrumei o meu primeiro emprego, eu tinha 15 anos de idade e foi como mensageiro em uma empresa de comunicação, que era o Consórcio de rádio e difusão de notícias do estado de Goiás. Aí na empresa que eu trabalhava, que eu já era contratado, ia iniciar uma televisão, a emissora de televisão que seria a Televisão Brasil Central. Mas nesse pedacinho de tempo aí, uma cunhada minha, o nome dela era Maria Aparecida, arrumou um teste vocacional para eu fazer. E como eu já estava em uma empresa de comunicação e esse teste vocacional deu jornalismo, então eu acabei unindo as duas coisas. Aí prestei o vestibular e eu já estava trabalhando na parte de notícias, no boletim da agência de notícias do Estado.

Pedro – Você sempre teve uma preferência em trabalhar fora das câmeras?

Teve uma época que eu trabalhei em um programa aqui na TV Goiás, que era o Goiânia Urgente, que ele era de bairro, e eu era repórter. Mas eu sempre gostei mais de trabalhar no Impresso. E hoje, o meu trabalho é elaborar pautas, fazer esse trabalho de pesquisa, orientar o repórter da TV. Mas eu trabalhei também na Rádio Brasil Central. Lá eu apresentava o jornal, fazia propaganda institucional. Trabalhei como locutor também nos jornais de hora em hora.

Pedro – Durante toda sua carreira você passou por diversas funções, e dentre elas em qual você mais se identificou ou mais sentiu prazer em trabalhar?

Rádio foi minha paixão. Eu fiz até curso de fonoaudiologia para melhorar, porque eu não sei se você sabe, mas o goiano tem um “R” muito puxado. Então, para tirar isso do meu sotaque e para melhorar minha leitura, eu fiz esse curso. Uma coisa que eu gostava muito era do imediatismo, de repente você tá no rádio e acontece um acidente, você liga na redação, dali mesmo, você já passa todas as informações, entendeu? É uma dinâmica maravilhosa, isso é uma paixão.

E eu apresentava o jornal “Mundo em Sua Casa” na rádio e a gente recebia cartas até da União da Soviética, de todo canto do mundo. Talvez um brasileiro que estivesse lá, escrevia e chegava pra gente, era uma coisa deliciosa. E ela era do tipo de onda curta, e a onda curta ela pode ser sintonizada em qualquer lugar do mundo, por isso essas coisas aconteciam. A rádio, principalmente a Brasil Central, ela foi contextualizada dentro de um projeto de governos anteriores para inserir o desenvolvimento pro interior do Brasil. Então tinha uma rádio na Amazônia, uma rádio aqui, em todo lugar a gente tinha a Brasil Central.

Pedro – E por que que você saiu da rádio?

É a transformação que tá tendo dentro da Agência Brasil Central. Aí passei para televisão, televisão também tá tendo a desenvoltura da área digital, logo logo também vai ter que digitalizar e aí tem que ir se adaptando a demanda. A rádio funciona bem lá ainda, mas já em outro contexto. Aí, dentro das mudanças que teve, eu fiquei com a televisão, já que eu já estava na produção.

Mas eu gostava mais do rádio porque nele eu apresentava, gravava, redigia os noticiários. Então, era mais multitarefa, sabe? Aí, na televisão, você já é mais fragmentado, tem um um grupo de edição, um grupo de produção, um de reportagem, tá mais estancando, e tem menos do imediatismo.

Pedro – Como você avalia o jornalismo atual? E se você acredita que a qualidade está caindo?

Eu passei por várias fases, passei do jornalismo impresso com máquina de escrever, aí vi a chegada do computador, a chegada da internet, até hoje com a inteligência artificial e tudo mais. Mas a essência do jornalismo, a notícia, o fato, a busca da verdade, essa não tem como mudar. A tecnologia que vier ela tem que se respaldar nisso. Do contrário é fake news,.

E hoje é um excesso de informação e desinformação, então fica mais difícil de você apurar as coisas, mas não é impossível. Você tem que buscar a verdade e o profissional de jornalismo que à frente de toda tecnologia, tenha ética. Que é um dos pilares mais importantes, não só para o jornalismo, mas para todas as profissões, principalmente com essa evolução da inteligência artificial, o lado ético, o de pensar as implicações de suas atitudes, né? Às vezes atitudes irresponsáveis podem causar danos para pessoas e famílias, destruir vidas até.

Pedro – Tem alguma matéria que você fez que você considera a mais importante da sua carreira? Se sim, qual?

Sim, foi o acidente do Césio em Goiânia. Na época tinha ocorrido o MotoGP de Goiânia e foi no momento que ocorreu esse acidente do Césio. E a gente cobria, buscava informação, mas era tão inusitado. Aí veio o pessoal da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) para Goiânia, e a gente tentava desvendar, mas também não podia ter muita proximidade, porque a área que teve o acidente era radioativa. E você colocava sua vida em risco. Mas foi algo marcante, não só para mim, mas para a cidade como um todo. Foi um acidente horroroso e comprometeu a imagem da cidade, teve repercussão mundial.

Pedro – Como a sua formação em direito te ajuda na sua atuação jornalística?

Assim, teve um período que foi mais importante, que era quando eu fazia assessoria de imprensa para o Ministério Público, na Procuradoria Estadual de Justiça. Então, você ter uma noção dos atos administrativos na hora de uma entrevista com promotor, com procurador, até revisão de alguns folhetos que a gente fazia lá, ajudava. E hoje em dia a questão do direito, é um “plus” que você passa a ter. Te dá uma credencial melhor para certos assuntos.

Pedro – Quais dicas e conselhos você daria a nova geração de jornalistas que está começando agora?

O hábito de leitura, ter uma visão mais ampla das coisas, ter o domínio da língua portuguesa, estudar principalmente gramática, que é a sua caixa de ferramenta. A questão de contextualização, se inteirar das coisas, não ir junto com o rebanho. E o pensamento crítico acho que é o melhor. Um ato de leitura, então, é fundamental. Hoje em dia com o celular, as coisas estão ficando muito rasas, um texto de 30 linhas as pessoas já acham ruim, imagina um livro de cem ou duzentas páginas. Então eu acho que é romper com isso, criar uma resistência, ser um rebelde. E escrever.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *