Tempo de leitura: 5 min

Jean Michel, professor na Universidade Federal de Goiás (UFG), graduado, mestre e doutor em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), explica como boicotes podem atingir de forma positiva diversas causas humanitárias e como grandes empresas prejudicam lugares e pessoas específicas em prol da exploração de mão de obra e recursos naturais.

Ativismo por meio de boicote de grandes empresas gera resultado para causas humanitárias?

Eu acho que a gente tem que ver a questão da comoção. Como é feita a comoção. Algumas pessoas têm direito a comoção e outras não.

Por exemplo, entrando em uma favela a polícia mata 20 a 30 pessoas e todo mundo encara aquilo como mais uma segunda-feira. Ou seja, porque algumas pessoas têm direito a comoção e outras não. Ou, por exemplo, quando o EUA joga uma bomba em um casamento no IME, matando 300 pessoas para pegar uma pessoa específica, não gera comoção, mas quando você tem um atentado num país onde morre três duas pessoas, o mundo para. Não estou aqui relativizando homicídio, morte, mas estou falando que algumas coisas chamam atenção e outras não, por exemplo, o Sudão está passando por uma situação imigratória muito grave também mas não chama atenção como a Ucrânia, porque algumas pessoas têm direito a comoção tem direito ao ativismo, o que é ótimo, mas outras pessoas não, como é o Congo, Sudão e Somália que também passa por conflitos civis desde o começo dos anos 2000 e não chama atenção. 

E como a comoção traz efeito a essas causas?

Porque choca. Porém mesmo com o choque, o problema continua. Israel ainda continua fazendo o que está fazendo, ele continua a cortar a entrada de ajuda humanitária em Gaza, mas choca em certo momento. 

O choque, normalmente, é naquele momento em específico. Choca quando você vê a imagem, não é? Depois a vida continua. Isso quer dizer que não gera uma crise ética? É como você vê uma mulher grávida, ela é morta no Complexo do Alemão, ou onde um senhor é vítima de uma bala perdida, isso pode ou não gerar crise ética. Porém com o uso das redes sociais, é possível gerar uma crise ética, mesmo que momentânea.

Como a crise ética pode afetar um ativista?

Tem a questão da consciência. Por exemplo, quando se trata de não consumir um produto de uma empresa que patrocina o estado de Israel, como o McDonald’s ou Starbucks, você não está contribuindo com aquilo. Mas qual sentimento você está legitimando? Você mora na Inglaterra, um país que financia o Estado de Israel, o seu Estado faz isso, os políticos vão fazer isso, mas você tem que gerar na sua consciência que você não faz parte disso. 

Mas o problema dessa atitude individual, no caso do boicote, é que você pode entrar em crise, como é a questão do veganismo, por exemplo. Muitas pessoas estão deixando de serem veganas porque não está mudando nada. O mundo continua sendo mundo, é poluído, os animais continuam sofrendo e você está até com aquela alimentação restrita, porque você não pode comer em qualquer lugar, você não pode comer qualquer coisa, mas o mundo continua sendo o mundo, igual o Starbucks continua sendo Starbucks. 

Acredito que, para as empresas hoje, pode fazer sentido não apoiar Israel,  porque os seus clientes não querem que apoiem, mesmo que talvez não faça diferença, mas não quer dizer que, quem sabe, daqui 2, 3 anos comece a ter efeito. Depende da mobilização e da comoção, se a sua causa vai comover o outro, eu acho que pode fazer sentido.

As big techs possuem uma relação de poder e influência forte em relação à situação atual no Nepal?

O que eu vejo mais como um estopim. Se foi apenas por conta das big techs, por que foi somente agora e não antes? A corrupção do Nepal está aí há muito tempo, os políticos que vivem no luxo há muito tempo. Então por que? Nesse caso temos que entender o que levou essas pessoas a agir só agora. Sabe porque as big techs estão manipulando agora e não antes? Então esses políticos eles só se viraram contrários às big techs por que elas se mostraram agora?

Países do oriente médio ou da áfrica são frequentes alvos de exploração por meio das bigs techs. Isso se trata somente de uma questão de terras ricas em minerais?

Acredito que possa ser uma questão racial. Essas empresas, elas atuam nos Estados Unidos, e também atuam na Inglaterra, França, em vários países. Mas só se apropriam de certos territórios. Onde? África, Ásia e alguns aqui na América Latina. 

E é o mesmo gerenciamento, são as mesmas pessoas que tomam conta da empresa, mas dependendo do território elas se comportam de uma maneira diferente. Como as empresas de inteligência artificial, na Nigéria em que seus funcionários estão passando por um surto psicótico.

O que acontece? A inteligência artificial, ela não é uma inteligência natural, mas sim uma pessoa ali treinando aquele algoritmo. Imagina só você passar o dia todo a troca de centavos, porque é isso que essas pessoas fazem, vendo imagens de homicídio, genocídio, tortura, ensinando para aquele algoritmo que não pode mostrar aquilo, que não pode apoiar aquilo. Vou vendo aquilo, todos os dias até não aguentar mais. Por que isso não acontece nos Estados Unidos? Geraria emprego para os americanos, não é? Não não acontece porque é um trabalho degradante, que acaba com o estado mental das pessoas, mas faz isso na Nigéria, que lá pode, ninguém dá importância para essas pessoas mesmo. Mesmo com pessoas denunciando, porque chegou até mim? É porque alguém escreveu sobre, eu não moro na Nigéria, não sei o que que está acontecendo lá, mas eu sei dessa história, porque eu sei? Porque alguém o denunciou. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *