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Neide Godinho possui graduação em Ciências Biológicas – Modalidade Médica pela Universidade Católica de Goiás, em direito pela Universidade Anhanguera de Goiás e em Tecnologia de Gestão da Qualidade pela UNIP. É mestre em Biologia pela Universidade Federal de Goiás, doutora em Biologia Animal pela Universidade de Brasília e pós-graduada em Altos Estudos em Segurança Pública pela Universidade Estadual de Goiás, em parceria com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás.
Atuou como perita criminal na Superintendência de Polícia Técnico-Científica do Estado de Goiás (SPTC/GO), contribuindo para a implantação do Laboratório de Biologia e DNA Forense (LBDF) do Instituto de Criminalística Leonardo Rodrigues, do Banco de Perfis Genéticos da SPTC/GO e do sistema de gestão da qualidade do LBDF. Em âmbito nacional, integrou a Comissão de Qualidade do Comitê Gestor da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), atuando como membro e coordenadora. Ministrou treinamentos para a formação de profissionais na área da Criminalística, tanto na Polícia Técnico-Científica do Estado de Goiás quanto na capacitação de gestores da qualidade, gestores técnicos e auditores externos nos laboratórios da RIBPG. Além disso, dedica-se há anos a trabalhos de assistência social.
Como você se apresentaria para as pessoas que não te conhecem?
Eu gosto muito de falar sobre o meu passado, porque tenho muito orgulho do que fiz. Chamo-me Neide Godinho, nasci em Mozarlândia, tenho 56 anos e sou formada em Biomedicina pela PUC e em Direito pela Uni Anhanguera; fiz mestrado e doutorado pensando na perícia criminal porque tínhamos um projeto muito importante aqui em Goiás, e, quando estava para me aposentar, fiz outro curso: tecnólogo em Gestão da Qualidade. Então estudei bastante — minha vida foi pensada na minha carreira profissional.
Você tem formações em várias áreas distintas; como foi essa sua descoberta em cada meio?
A polícia científica hoje é bastante conhecida, principalmente por causa do CSI [C.S.I.: Investigação Criminal, série de drama dos anos 2000], pois há muitos seriados e filmes, mas, na minha época, quando fazia Biomedicina, não era conhecida. Eu não tinha noção de que, na polícia, se trabalhava com ciência; conhecia só o policial de rua e não tinha ideia da dimensão do trabalho da segurança pública. Um amigo meu ficou sabendo de um concurso para auxiliar de laboratório na polícia e me convidou para fazer; na época eu não era formada, então não podia prestar concurso para perito criminal, e fiquei muito espantada — eu não imaginava que havia laboratório.
Passamos no concurso e eu descobri o mundo do CSI: ali convivi com cientistas, mas também com o mundo do crime, e fui me apaixonando porque lá trabalhávamos com produção de prova material. Às vezes vemos alguém sendo acusado, mas, ao trabalhar com a prova material e perceber que ela aponta para outra pessoa, mudamos o foco; foi assim que me apaixonei pelo mundo da perícia.
Como foi para implementar o Laboratório de Biologia e DNA Forense do estado de Goiás (LBDF-GO)?
Quando entrei, não existia o Instituto de Criminalística nos moldes atuais: ele funcionava no segundo andar do Instituto Médico-Legal e não havia uma área específica para o Instituto de Criminalística. Ainda enquanto eu era auxiliar de laboratório, o superintendente da época pensou em montar um laboratório de DNA, mas não tínhamos estrutura nem sabíamos por onde começar; decidimos junto à gestão que o mais importante, primeiro, era capacitar pessoas. Então eu e outra perita ingressamos no mestrado pela UFG, conhecemos os métodos e pudemos batalhar pelos laboratórios. Levamos cerca de 10 anos para criar o Instituto de Criminalística, elaborar projetos de aquisição de equipamentos e inaugurar o LBDF-GO. Os laboratórios da Polícia Federal e o Intituto de Pesquisa em DNA Forense do DF (IPDNA/DF) foram cruciais para nosso desenvolvimento e implantação aqui em Goiás.

Nesse período de aquisição e consolidação do LBDF-GO vocês tiveram alguma dificuldade?
Esbarramos num problema muito sério: como empregar recursos para um laboratório quando havia que priorizar, por exemplo, a compra da marmita do preso? Ouvíamos muito esse argumento e tivemos que enfrentar vários combates dentro da própria instituição — “como vocês querem montar um laboratório tão caro se não conseguimos apoiar os peritos de campo com EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] como luvas?” — então superamos muitos obstáculos, pois o DNA era algo muito novo e não tínhamos 100% de certeza. Uma das coisas que nos deu parâmetros foi a utilização dessa tecnologia nos Estados Unidos: assim que conseguimos começar a resolver casos pendentes que não tinham outras formas de análise, isso foi fundamental para gerar um impacto positivo.
Em 2024 o LBDF-GO recebeu uma premiação de melhor laboratório com mais perfis genéticos adicionados na Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG) e você chegou a trabalhar lá como membro e coordenadora. O que é a RIBPG? E como foi trabalhar em um âmbito nacional como esse?
A Rede Integrada de Bancos de Perfil Genético (RIBPG) é uma rede de laboratórios e bancos de DNA criada para compartilhar e comparar perfis genéticos em todo o Brasil. Lá tive várias experiências incríveis, como o primeiro resultado de matching nacional — um caso de estupro ocorrido em Goiás que me emocionou muito. Um homem condenado aqui havia cometido, anos antes, outro estupro em Ananindeua (Pará) e o inquérito estava arquivado; conseguimos liderar o primeiro cruzamento de DNA via Banco Nacional, o que só foi possível porque ele havia sido condenado aqui em Goiás e ainda existia uma defasagem de dados no Banco Nacional. Fiquei muito feliz por ter conseguido resolver esse caso e percebi que precisávamos de mais rigor para alimentar a RIBPG.
Você também tem formação em Gestão da Qualidade voltada para a perícia; como foi essa mudança, saindo da parte técnica para a parte mais administrativa?
Com a percepção de que só seria possível resolver outros casos alimentando o Banco Nacional, passei a olhar para a gestão da qualidade e me especializei na área. Em 2017 candidatei-me a uma vaga no Comitê Gestor de Qualidade, onde pude atuar primeiro como membro e depois como coordenadora do segundo ciclo de auditorias para os laboratórios de todo o país; trabalhei de 2018 a 2023, quando me aposentei. É um órgão muito importante para manter a qualidade dos laboratórios, embora pouco procurado por não ser remunerado.
Sua relação com trabalho voluntário não fica apenas no âmbito profissional e também faz parte do pessoal; como foi sua chegada ao Posto de Assistência Cascata de Luz?
Na polícia científica, no laboratório, havia uma pessoa que é espirita, e por lidarmos com uma área bastante violenta e pesada, reunia o grupo antes do início do trabalho para fazermos uma oração e cantar. Ela me convidou para conhecer o Centro Espírita Bezerra de Menezes, responsável por esse posto de auxílio; depois de algum tempo frequentando, fui convidada a trabalhar ali e estou há aproximadamente 21 anos. O Cascata de Luz tinha um ambiente voltado para crianças e adolescentes com o objetivo de tirá-las das ruas e ajudar a comunidade; era um local onde esses jovens puderam ter uma visão diferente do mundo, e achei isso muito bonito. Percebi que as mães vinham e tinham que esperar; no início, comecei com tarefas como limpeza, preparar um prato novo, fazer sabão e sobremesa, e, à medida que estudei sobre o Espiritismo como doutrina filosófica, encantei-me e me aprofundei cada vez mais no trabalho do posto de assistência.
Nota da redação: a Sala de Mães é um dos projetos do Posto de assistência Cascata de Luz, voltado para atendimentos de mulheres em situação de vulnerabilidade.

foto: Autoria Própria.
Nesses 21 anos no Cascata de Luz você deve ter conhecido várias histórias de superação e muito sofrimento; houve alguma que te marcou em especial?
Você deve conhecer Rossandro Klinjey [psicólogo, professor e especialista em educação socioemocional], ele fala muito sobre passar por um deserto na vida, um momento solitário de descoberta — e eu costumava ficar muito focada nas minhas dores e problemas; por mais que estivesse com as mães, não conseguia enxergá-las de verdade. Um dia, porém, aconteceu algo diferente: uma mãe que frequentava o local há bastante tempo andava com uma toalha sobre o ombro e tinha o olho sempre inchado e vermelho de tanto chorar; ela tinha muitos problemas. Um dia ela me deu um abraço e agradeceu, dizendo que pensara em desistir, e, quando falou isso, pela primeira vez vi essa pessoa de verdade — vi a toalha e percebi que ela a usava porque chorava muito. Vi o quanto eu era egoísta; aquilo me chamou a atenção e foi quando comecei a despertar. Não se “acorda” do dia para a noite — é um processo — e, assim como ela estava voltada para sua dor, eu também estava na minha.
Achei muito importante esse momento em que me despertei para parar de olhar tanto para mim e, de fato, olhar para o outro. Comecei a ver várias histórias: pessoas deram depoimentos de que palestras e as aulas conseguiram ajuda-las nos seus problemas como “eu mudei, fiquei 40 anos com ódio e muita mágoa de alguém e consegui perdoar”. Aquela mulher que andava com a toalha deixou de usá-la. Há pessoas que vêm para cá e dormem durante as palestras, sentam bem na minha frente e eu penso “por que vêm?” — mas uma dessas mulheres me deu um depoimento: disse que adora vir porque ali consegue descansar; cada um busca o seu remédio, a sua cura, e eu não sei qual é a cura que a pessoa está buscando.
