- Fios soltos expõem falhas no planejamento urbano de Goiânia - 4 de novembro de 2025
- ‘Hoje o nosso olhar é disperso’: Lisandro Nogueira fala sobre o futuro do cinema na sociedade contemporânea - 16 de setembro de 2025
- Caliandras: Mulheres Empreendedoras de Goiás - 7 de junho de 2025
Lisandro Nogueira é professor de cinema na Universidade Federal de Goiás (UFG), mestre em Cinema e Televisão pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Cinema e Jornalismo pela PUC/SP. Além da rica formação intelectual, Lisandro apresenta o programa Cinema Falado na Rádio Executiva FM, e participa da curadoria e organização de diversos festivais de cinema em Goiás, como a mostra O Amor, a Morte e as Paixões.
Nessa entrevista, ouvimos o professor sobre o futuro do cinema diante das novas tecnologias, as influências dos serviços de streaming na maneira como o cinema é consumido, e como a IA influencia a produção audiovisual.

Para começar, fale um pouco sobre as diferenças entre o cenário do cinema atual, quando comparado ao início da sua carreira profissional.
O cenário mudou completamente, e muito rapidamente. Na minha juventude, ver um filme era muito difícil, porque ainda era a época da película, e não tínhamos, igual hoje, todos os clássicos disponíveis nos streamings.
E nós tínhamos o ritual da sala de cinema, não existia esse cinema individualista que é o streaming. Isso mudou completamente, porque o ritual da sala de cinema exige uma concentração, exige um foco. Tem ali um mistério, uma mágica. No streaming não, é uma outra maneira de ver um filme, de ver uma série, de ver uma narrativa.
E isso tem a ver com o novo mundo, que é um mundo acelerado, um mundo em movimento, onde as narrativas são exageradas, narrativas que exigem outro tipo de concentração, feitas para acompanhar a nossa ansiedade contemporânea. A tecnologia mudou a nossa maneira de ter experiências com o cinema. A sala de cinema é uma das últimas experiências que diz: olhe.
Eu costumo dizer que se estivéssemos aqui ao final do século XIX, o nosso olhar seria mais lento, mais calmo, seria um olhar de contemplação. Hoje o nosso olhar é disperso, que é estimulado o tempo todo, o que muda a nossa maneira de ver as narrativas.
Ainda falando sobre os serviços de streaming, como esse olhar disperso e o acesso fácil aos streamings afetam a maneira na qual filmes são pensados e produzidos?
Afetam completamente. Hoje, por exemplo, o roteirista de um filme ou de uma série tem que pensar na montagem, que quem vai cortar o filme vai ter que cortar muito. Então ele vai fazer cenas muito mais aceleradas e mais rápidas. Funciona de maneira semelhante ao futebol de hoje: no treino de futebol atualmente o que predomina são os toques próximos e rápidos, porque não há mais espaço para contemplação.
Então, esse espectador hoje, é um espectador muito ansioso. Tanto que ele assiste em casa, um filme ou uma série, com o celular na mão, com a luz ligada… Ele é disperso, e na sala de cinema antigamente era exigido outro ritual.
Mudando de assunto, como a inteligência artificial afeta a produção cinematográfica nos dias atuais?
Não sei te responder, eu realmente não tenho um estudo sobre a IA na produção de filmes e séries. Mas eu penso que ela vai desempregar muitos roteiristas. Isso eu tenho certeza.
Por outro lado, ela também pode facilitar a construção de roteiros, pode facilitar a montagem, mas o que eu temo, a priori, é que ela pode desempregar muita gente na cadeia de produção audiovisual.
Sobre uma questão mais humana, esse ano houveram diversos protestos de atores de Hollywood contra o uso da IA, com o intuito de proteger os direitos autorais e de imagem. Dado os avanços técnicos da IA e sua rápida inserção na sociedade, quais são os novos dilemas relacionados à proteção de imagem na produção cinematográfica?
Isso é um grande problema. Não só no cinema, mas também na música, por exemplo. Se você ver a Luísa Sonza, por exemplo, que é uma cantora nova, ela faz uma música e quando você vê quem é o autor da música, são listadas sete pessoas mais ou menos. É uma maneira de proteger o direito autoral.
E agora com o cinema, isso vai ficar mais difícil. Pois quando é construída uma imagem na IA, quem é autor? Essa lógica vai mudar completamente a nossa ideia de autoria, e de direitos autorais, por consequência. Quem vai deter agora os direitos?
Então, por exemplo, se você é um diretor ou produtor, você é dono de um filme, e por consequência possui os direitos. Se você exibir esse filme, é necessário pagar um valor por esses direitos. Esse valor, a partir de um filme que é produzido pela inteligência artificial, gera o questionamento: quem é o autor disso? Quem vai poder reclamar os direitos autorais? É uma questão seríssima. As novas tecnologias estão arrebentando com a questão dos direitos autorais, isso é uma realidade.
Ainda tratando sobre as plataformas de streaming e algoritmos, qual a perspectiva do cinema independente em um mercado cada vez mais controlado por grandes estúdios e streamings?
É muito contraditório. Porque na minha geração, um filme independente era muito caro para ser produzido, era muito difícil. Hoje é muito barato, e qualquer um pode produzir um filme e colocar no YouTube. O problema agora não é quem vai produzir um filme, que era o problema anterior, o problema atual é: Quem vai ver esse filme? Porque a produção é tão grande, que é impossível acompanhar.
Trazendo o exemplo da música, hoje em dia são lançadas cerca de 40 mil músicas por mês no Spotify. Hoje são lançadas milhões de músicas por ano. Quem vai ouvir essas músicas? Ou quem vai ver esses filmes que estão sendo produzidos? Hoje é barato produzir, mas a pergunta é: Quem consegue acompanhar essa produção estratosférica?
Nesse cenário, como você enxerga o futuro do cinema nos próximos dez anos?
Em um mundo tão acelerado, tão rápido, fazer uma projeção para os próximos dez anos é impossível. A impressão que eu tenho, é que as coisas vão acelerar mais, e vamos nos tornar mais ansiosos. Os filmes estão com a montagem cada vez mais rápida, mas contraditoriamente, eu tenho exibido muitos clássicos e eu percebo que os jovens assistem duas horas de um filme clássico de boa. Então é muito contraditório.
A impressão que tenho, é que vamos ter um “cinema total”, para todo lado. Hoje eu vejo filmes no celular, muitas das vezes. Eu estou aguardando em algum lugar, como um consultório médico, e consigo ver filmes no celular, o que seria um absurdo de imaginar há um tempo atrás. Eu vejo filmes em várias telas, e isso vai só ampliar. Mas a pergunta é: Quem vai ter tempo para ver tanta coisa?
Eu mesmo estou exausto, eu tenho que ver filmes para dar aula, para o programa de rádio. Então eu tenho 120 filmes para ver na minha lista, mas é impossível. Então eu acho que daqui dez anos o mundo vai estar muito melhor. Mas muito pior também.
