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Elaine Silva Barbosa atua como coordenadora do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (LAPIG), uma das principais referências no país quanto ao processamento, análise e distribuição de dados satelitários. Integra a equipe da iniciativa MapBiomas Brasil. Desenvolve pesquisas de ocupação e mudanças de cobertura e uso da terra e os impactos sócios ambientais no bioma Cerrado. Atua também na área de Geotecnologias aplicadas ao ensino.
A professora é vinculada ao Instituto de Estudos Socioambientais (IESA/UFG), tem graduação em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás, especialização em Geoprocessamento pela faculdade Estácio de Sá, mestrado e doutorado em Geografia pela UFG.
Professora, para você, quais são os principais fatores que têm levado ao aumento das queimadas no estado de Goiás nos últimos anos? E Até que ponto essas queimadas estão relacionadas a atividades humanas, como a agropecuária e a expansão urbana?
O aumento das queimadas no Estado decorre, em grande medida, de ações humanas relacionadas ao manejo agropecuário (limpeza e renovação de pastagens, abertura de áreas para cultivo). Temos também as queimadas criminosas, principalmente nas proximidades de rodovias. Ocorrem também associadas ao desmatamento, como forma de expansão da agropecuária. Esses fatores se somam a condições climáticas que intensificam o problema, como estiagens prolongadas, baixa umidade e eventos como o El Niño, que aumentam a severidade dos incêndios.
O governo do Estado de Goiás está priorizando o combate às queimadas? Ou a pauta ambiental continua em segundo plano?
O Governo do Estado tem desenvolvido ações de monitoramento e operações de combate. Porém, observa-se que a prioridade ainda recai sobre medidas de resposta imediata, enquanto políticas estruturantes de prevenção — como incentivos a práticas produtivas sem uso do fogo, restauração ambiental e fortalecimento da fiscalização contínua — ainda carecem de maior consolidação.
O que a sociedade goiana ainda não entendeu sobre o impacto das queimadas para o futuro do estado, principalmente em relação à crise hídrica? E podemos dizer que a população e o setor produtivo normalizaram as queimadas como “parte da rotina”?
Um dos pontos que ainda não está plenamente assimilado pela sociedade goiana diz respeito à conexão direta entre queimadas recorrentes, degradação ambiental e crise hídrica. A perda de vegetação nativa e os incêndios frequentes afetam a infiltração de água, a recarga de aquíferos e a manutenção de nascentes e rios, comprometendo o abastecimento humano, a produção agrícola e a geração de energia. Em parte do setor produtivo, o uso do fogo como prática de manejo ainda é tratado como rotina, o que contribui para a “normalização” desse processo, mesmo diante de seus riscos crescentes.
Como você, como especialista, avalia a eficácia das políticas públicas de prevenção e combate às queimadas em Goiás?
A eficácia das políticas públicas em Goiás pode ser considerada mista. Há avanços operacionais importantes — como monitoramento por satélite, mobilização de brigadas e ações emergenciais —, mas ainda são limitados os instrumentos voltados à prevenção estrutural, como planejamento territorial, programas de manejo sustentável e incentivos econômicos para alternativas ao uso do fogo. Sem essas medidas, as conquistas tendem a ser pontuais e pouco duradouras.
Falando de um ambiente acadêmico como a UFG, que tecnologias ou práticas inovadoras poderiam ser pensadas dentro da universidade para prevenir e monitorar queimadas com mais eficácia?
No ambiente acadêmico, a Universidade Federal de Goiás tem potencial para liderar ações inovadoras de monitoramento e prevenção. Entre as possibilidades estão: integração de dados de satélite, drones e estações meteorológicas para emissão de alertas precoces; uso de sensores e modelagem preditiva para identificar áreas de risco; desenvolvimento de plataformas de ciência cidadã para denúncia e acompanhamento comunitário; programas de capacitação e extensão que ofereçam aos produtores alternativas técnicas ao uso do fogo; Pesquisas aplicadas que mensuram os impactos das queimadas sobre a disponibilidade hídrica e propõem soluções para conservação de nascentes.
Muito disso já está sendo feito pelo Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado) que objetiva gerar estudos utilizando modelagem numérica e dados de satélite permitindo gerar com precisão e nível inéditos a previsão de tempo para toda a região Centro-Oeste (intervalos de 5 a 10 dias), cenários climáticos e modelos de produção agro climáticos, entre outros produtos.
