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Localizado em grande parte no centro-oeste brasileiro, o Cerrado é considerado a savana mais biodiversa do mundo. Com cerca de 320 mil espécies, integra 30% da vida que habita o país. Apesar de sua notável importância ecológica, o bioma sofre há décadas com a ação humana, especialmente com o avanço do desmatamento desde os anos 1970. 

É nesse cenário que se insere a trajetória de Maira Barberi, pesquisadora e professora da PUC-Goiás. Formada em Geologia em São Paulo, desde então ela trabalha com Paleoecologia, área que investiga as relações ecológicas entre organismos do passado e seus ambientes, tendo os fósseis como principais testemunhos da vida e dos climas de eras remotas. Ao mudar-se para Goiás, ainda nos anos 1970, a pesquisadora passou a dedicar sua carreira ao estudo do Cerrado.

Nesta entrevista, ela compartilha parte do que aprendeu em campo, e explica por que considera o bioma um dos patrimônios mais valiosos do Brasil.

Acervo pessoal Maira Barberi

Para entender a história do Cerrado, Maira parte da sua origem. Onde hoje é o bioma, era uma união de continentes. 

“A grande maioria das plantas do Cerrado são angiospermas, ou seja, plantas com flores. Esse grupo surgiu na história da Terra há cerca de 100, 120 milhões de anos, justamente no período em que a América estava se separando da África, do Gondwana. Essas plantas ancestrais foram evoluindo ao longo do tempo, até chegarmos à diversidade que temos hoje, tanto no Cerrado quanto em outros biomas. Elas foram se adaptando não só às mudanças de clima que ocorreram ao longo desses milhões de anos, mas também às transformações na posição dos continentes, conforme mudavam de latitude. E é importante destacar que não foi um surgimento único, como se todas as angiospermas tivessem aparecido de uma vez e permanecido iguais até hoje. Na verdade, as famílias foram surgindo gradualmente, uma evoluindo a partir da outra, até compor o conjunto diverso que conhecemos hoje.”

Sempre-Vivas. Acervo pessoal Maira Barberi

Ver o Cerrado

Brasília estava em seus anos iniciais quando Maira, ainda criança, veio ao centro-oeste a primeira vez. Mal sabia ela que, anos depois, a região seria sua casa e fonte de trabalho e dedicação.

“A primeira vez que eu vim, eu nem prestei atenção. Eu tinha uns 12 anos, e meu pai me trouxe para conhecer Brasília em 1968, por aí. Então, quando eu vim para Goiás, depois de formada, fui trabalhar no Serviço Geológico com mapeamento. Fiquei dois anos trabalhando na região de Alto Paraíso. Nem existia o Parque da Chapada dos Veadeiros ainda.”

A paleontóloga compartilha algumas fotografias do seu acervo pessoal em campo, e conta sobre o primeiro estranhamento, ao ver esse lugar diferente das florestas atlânticas.

“Era tudo muito diferente para mim, muito mesmo. No começo, eu estranhei bastante, porque eu vinha de São Paulo, cresci muito ligada à praia e à Mata Atlântica, a floresta era algo natural para mim. Então, quando cheguei aqui, a paisagem do Cerrado me causou um choque. Eu lembro nitidamente da primeira vez que fui para o campo. Era época de seca. Achei tudo muito estranho: o ambiente era empoeirado, seco, cinza. Para ser sincera, naquele momento nada me chamou a atenção”.

“Mas a gente passava muito tempo em campo: 20, 25 dias seguidos, e voltava à Goiânia para fazer relatório. E me lembro direitinho, quando voltei à campo em novembro, depois das primeiras chuvas… Foi uma transformação. De repente, tudo estava verde e florido, como se a vida tivesse brotado de uma vez. Aquilo me pareceu a coisa mais maravilhosa do mundo. Como tem uma resistência, uma resiliência, um poder de restauração, de transformação visual mesmo, por uma chuva?! Ver isso foi marcante. Foi quando percebi a força do Cerrado.”

Acervo pessoal Maira Barberi

Maira conta como essa resiliência do Cerrado está em cada parte do bioma. Da sua adaptação à períodos de extrema seca, um ipê florece no mês mais seco do ano e busca água no subsolo com sua raiz profunda:

“A planta consegue ficar seis meses sem chuva e ainda assim sobrevive. Outra adaptação importante é ao processo de lateralização do solo, que é quando se formam óxidos de ferro e de alumínio, deixando os solos extremamente ácidos. Grande parte do solo do Cerrado é assim. E mesmo assim as plantas se adaptaram a esse ambiente. Elas vivem em solos com alto teor de alumínio sem problema. É isso que faz com que uma parte muito significativa da sua vegetação seja endêmica – só exista aqui, por essas condições adaptativas muito específicas.”

Ela então acrescenta que o endemismo do Cerrado é tão singular, que é comum ele ocorrer em pontos locais do bioma. E isso tem uma consequência, onde essas espécies raras correm o risco de serem extintas por responsabilidade humana.

“O problema é que, se derrubamos uma área onde há uma espécie endêmica restrita, podemos perder essa planta para sempre. E isso acontece porque o mapa original do Cerrado praticamente não vale mais: do que existia originalmente, resta menos de 20%. Então, pensar em endemismos no Cerrado exige cuidado, porque eles podem ser locais, e não espalhados por toda a extensão do bioma.”

A marcha para o Oeste e o Cerrado como caminho das águas

A pesquisadora contextualiza o processo de pesquisa do bioma, onde desde o início, esteve marcado por interesses específicos:

“Quando o Cerrado começou a ser estudado, na década de 1970, era o auge da ditadura, e o olhar sobre o bioma foi muito diferente do que se tinha, por exemplo, com a Amazônia ou a Mata Atlântica. Na época, as faculdades de agronomia tinham convênios com universidades norte-americanas para desenvolver maquinário que permitisse o cultivo em terras planas e aprender técnicas para lidar com os solos ácidos e o clima de duas estações. Ou seja, estudava-se o Cerrado não para conhecê-lo em profundidade, mas para transformá-lo em áreas de monocultura.”

E num contraponto, Maira conta sobre o que o bioma tem a nos ensinar:                  

“O Cerrado tem uma conexão muito grande com outros biomas brasileiros. A gente encontra plantas que estão em várias regiões. O ipê, novamente, ocorre desde a Argentina até a Amazônia. Isso acontece porque o bioma tem uma vantagem enorme: a rede de drenagem é quase toda interconectada. Se você olhar um mapa do Brasil, vai perceber. As grandes bacias hidrográficas nascem no Cerrado. No Parque de Águas Emendadas (Distrito Federal), por exemplo, existe uma vereda em que, de um lado, brotam as nascentes do rio Maranhão, que vai para o Tocantins; e, do outro, as nascentes do rio São Bartolomeu, que corre para o sul e deságua na Bacia do Paraná. Essa interconexão das águas só existe porque é no Cerrado o berço dessas nascentes. E não para por aí. Ele também é fundamental para aquíferos, como o Aquífero Guarani, que abastece a maior parte das cidades do estado de São Paulo. Mesmo sendo um aquífero confinado, ele precisa de áreas de recarga: locais onde a rocha que armazena água fica exposta, permitindo a infiltração. E essas áreas de recarga estão nele. Ou seja, a saúde hídrica de várias regiões do Brasil depende diretamente de sua preservação.”

Do passado ao cenário atual: as mudanças climáticas que já ocorreram no Cerrado

“No meu trabalho com paleoclima, eu estudo como era o clima no passado a partir da vegetação, identificada pelo pólen preservado nos depósitos. E o que vemos é que o Cerrado já passou por oscilações naturais: houve épocas em que a região de Brasília, por exemplo, hoje ocupada por um cerrado aberto, já foi mata úmida, em períodos mais frios e chuvosos. E já foi também mais seca, quase um campo. A diferença é a velocidade com que acontecem as mudanças. Durante a última glaciação, por exemplo, a temperatura média da América do Sul era cerca de cinco graus mais baixa do que hoje. Levaram 12 mil anos, entre 18 mil e 4 mil anos atrás, para subir esses cinco graus. E as plantas migraram, se adaptaram, entraram novos elementos, outros saíram.” 

Mudanças climáticas sempre ocorreram na Terra. O problema, segundo a pesquisadora, está na rapidez com que parte da humanidade tem alterado o clima.

“Agora, desde a Revolução Industrial, em apenas 250 anos, nós já aumentamos dois graus. E é claro, um ecossistema não consegue acompanhar essa velocidade de mudança no clima. E aí é que fica o grande problema. E tem muitas variáveis. Não é só uma questão de ‘ah, tá aquecendo, vai virar deserto’. Você tira uma vegetação, vem outra, mas o solo vai ficar diferente, a circulação atmosférica vai ficar diferente. A quantidade de carbono que tá preso no solo vai ficar diferente. Tudo vai ficar diferente.”

E no cenário atual, o Cerrado como hotspot

“No Brasil a gente tem dois hotspots considerados mundialmente: a Mata Atlântica e o Cerrado. O hostpot é um bioma que tem mais de 70% dele degradado, e mais de 50% da vegetação endêmica. A Mata Atlântica, ela tá sendo derrubada desde que os portugueses chegaram, há 525 anos. E sobrou dela mais ou menos de 8 a 10%. O Cerrado começou a ser derrubado efetivamente na década de 1970. Isso faz 55 anos e tem menos de 20% da sua cobertura original. Olha a rapidez com que isso avançou! Um levou 500 anos, o outro 50 anos para perder tanto. E se você pega, por exemplo um mapa de áreas de preservação do Brasil, o Cerrado tem menos de 2% do que sobrou em áreas de preservação. E aí, quando você olha nas áreas o que é Cerrado hoje: é um pontinho aqui, um pontinho alí, outro pontinho ali. É muito triste. E o que existe, muitas vezes, não garante a proteção real. Um exemplo é o Parque Nacional das Emas, onde trabalhei há algum tempo. O parque é todo cercado por plantações de soja, e as nascentes dos rios do parque ficam fora da área protegida, justamente nas áreas agrícolas.”

A preservação e a vida no parque das Emas ficam difíceis, segundo Maira, quando o entorno não consegue interagir, se conectar à região preservada do bioma. E não só isso, mas também ser fonte de degradação:

“A qualidade da água dos rios do parque, como o Formoso ou o Jacuba, é afetada diretamente: adubos, inseticidas e a erosão do solo das plantações vizinhas acabam indo para os córregos do parque, principalmente durante a seca, quando o solo fica exposto. Você vê aquela nuvem de poeira que na verdade é o solo sendo levado embora, e indo para os córregos do parque, que é a zona rebaixada para onde corre a chuva do sedimento.”

Perguntada se, apesar do cenário desafiador, ainda seria possível recuperar áreas degradadas de Cerrado, a pesquisadora então responde: 

“A recuperação depende. Hoje, nós, geólogos, entendemos o planeta como um sistema. Isso significa que, quando você mexe em um ponto, mexe em todos – como numa rede de computador. Então, se você tira a vegetação do Cerrado de uma área e depois decide recuperar, não vai voltar a ser exatamente como era antes. Porque, ao retirar a vegetação, você já alterou a dinâmica da atmosfera, da chuva, do solo. Às vezes até o curso de um rio muda, pode se tornar mais meandrante [curvo], pode assorear. É possível plantar espécies do Cerrado em áreas degradadas, mas o resultado nunca será idêntico ao Cerrado original. Até porque muitas vezes nem sabemos exatamente qual era o conjunto completo da biodiversidade que existia ali. Eu acredito na recuperação, até porque precisamos acreditar, senão dá um desespero. Mas é importante entender que não se trata de um retorno linear à condição original.”

Acervo pessoal Maira Barberi

O que estamos perdendo

“Então, tem muitas variáveis que interferem. E tem também essa questão, infelizmente, dessa visão onde as coisas são tidas como separadas. Eu acho engraçado, por exemplo… a gente tem muitas comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas no Cerrado. E essas comunidades sempre viveram em áreas do bioma. Mas a população daqui de Goiânia e de Goiás não conhece isso. Pelo menos pra mim parece não conhecer. Não se conhece o que eles fazem, a riqueza da cultura. O que eles plantam, o que comiam, como comiam. Ano passado eu fui pra Amazônia e fiquei impressionada: todo mundo come o que é amazônico, o que é tradicional. Aqui, com exceção do pequi, praticamente ninguém come fruta do Cerrado. A gente importa kiwi da Nova Zelândia e não come bacuri, que é muito mais gostoso que kiwi; não come mangaba, que é parecida com kiwi também. Importa lá da Nova Zelândia e acha o máximo. E aqui a gente tem um zilhão de coisas boas pra comer, pra fazer. Tem baunilha do Cerrado, tem pimenta-do-reino de árvores do Cerrado… e a gente importa a preço de ouro essas coisas.”

Um outro olhar

“Se a gente tivesse outro olhar sobre o potencial, não precisaria derrubar pra viver, entende? Hoje, por exemplo, Goiás cria gado com menos de uma cabeça por hectare. Eu preciso derrubar um hectare inteiro de Cerrado pra colocar menos de um boi lá dentro? E existem outros meios de criar gado sem avançar sobre um centímetro do Cerrado, e produzindo muito mais carne. Mas a gente faz do jeito ‘mais fácil’: o maquinário passa fácil, a terra é plana, tem água na superfície ou no subsolo. Aprendeu-se a corrigir a acidez do solo, e parece que isso é a solução. Só que não é. Nós escolhemos o caminho errado. Devia existir um jeito de consórcio, de equilíbrio. Mas hoje estamos pendendo para o lado ruim. Para um desequilíbrio. E isso, claro, é a minha visão.”

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