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Jesse David é graduado em Ciências pela Middle Tennessee State University, e atualmente segue a carreira de músico. Com 35 anos, David é natural de Nova Iorque e hoje reside em Nashville, Tennessee. Ao longo de sua trajetória como cidadão e acadêmico, desenvolveu uma visão aguçada sobre a sociedade americana, observando de perto os impactos de decisões políticas e econômicas na vida cotidiana.

Nesta entrevista, ele compartilha sua perspectiva sobre acontecimentos geopolíticos recentes e aspectos econômicos atuais, oferecendo uma análise da realidade dos Estados Unidos sob uma ótica civil interna.

LG: Como você avalia o impacto da inflação recente e das políticas do Federal Reserve na vida cotidiana, considerando o papel histórico do dólar americano como moeda de reserva global?

JD: Eu acho que tudo isso é uma prova de que você não pode simplesmente destruir nações, imprimir dinheiro sem lastro e esperar estabilizar uma economia depois. O dólar ainda é a moeda de reserva global, mas esse status não é garantido para sempre. Ele só se mantém porque ainda há alguma confiança — mas essa confiança depende de instituições sólidas, de políticas fiscais consistentes e de uma economia que pareça estável.
Quando essa confiança começa a vacilar, o impacto se sente imediatamente: o preço do alimento sobe, o aluguel sobe, a gasolina sobe. A inflação recente mostrou isso com clareza. Não é apenas uma questão técnica sobre o que o Fed faz ou deixa de fazer. Trata-se de como o sistema afeta a vida das pessoas. E imprimir dinheiro indefinidamente, com base apenas em medidas como flexibilização quantitativa [quantitative easing], pode até funcionar a curto prazo, mas a longo prazo corrói o poder de compra e aumenta a desigualdade. É necessário ter uma moeda lastreada por algo mais substancial — não estou falando literalmente em ouro, mas em fundamentos econômicos reais. A política monetária não pode ignorar isso para sempre.

LG: Você acredita que o atual sistema político americano ainda reflete os valores fundadores da república?

JD: Honestamente? Não. Os valores fundadores eram centrados em ideias como “não à tributação sem representação”, uma desconfiança em relação ao envolvimento em conflitos externos, e um foco em governo limitado. Hoje, temos um governo envolvido em múltiplas guerras no exterior, com impostos muito acima do que causou a Revolução Americana. [A referência aqui é ao imposto sobre o chá, de 3%].
Desde a criação do imposto de renda, em 1913, a estrutura fiscal mudou completamente, e eu duvido muito que os Pais Fundadores teriam aprovado isso. Eles queriam preservar os direitos individuais e limitar o poder do Estado federal. E agora temos uma máquina governamental que atua como polícia do mundo, enquanto retira grandes parcelas da renda do cidadão comum.

Além disso, o modelo de representação mudou. Antes, havia um representante para cada 13 mil pessoas. Hoje, é um para cada 700 mil. Estados como a Califórnia têm 60 milhões de habitantes, mas só um governador. Isso é praticamente o tamanho de um país inteiro sendo gerido como um estado. O sistema foi desenhado para algo menor e mais descentralizado. O crescimento populacional sem mudanças na representação criou um desequilíbrio enorme.

LG: A polarização política aumentou bastante. Você acredita que isso ainda é compatível com os princípios da república americana?

JD: Não. A república americana foi criada com a intenção de ser um modelo de governo representativo, estável e não intervencionista. Mas agora temos uma política que gira em torno de conflitos constantes — internos e externos — e uma população dividida entre extremos ideológicos.
Os pais fundadores, como John Adams, por exemplo, recusaram-se a apoiar guerras que não estivessem de acordo com os interesses americanos, mesmo que isso significasse contrariar aliados. Hoje, temos o oposto: uma política externa agressiva e uma política interna profundamente polarizada.

LG: Como você interpreta a posição dos EUA na guerra entre Rússia e Ucrânia, especialmente considerando o histórico de alianças e intervenções durante a Guerra Fria?

JD: A posição americana é, no mínimo, contraditória. Veja o exemplo da Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962. Os EUA disseram à União Soviética: tirem seus mísseis de Cuba porque estão muito perto de nós. Agora, a Rússia diz algo semelhante: tirem seus mísseis da Ucrânia, porque estão ao lado da nossa fronteira. O contexto mudou, os países mudaram, mas o princípio estratégico continua o mesmo. A questão é que os EUA violaram tratados com a Rússia e a Rússia também violou acordos. Então não dá para fingir que há um lado “limpo” nessa história.

Com base no histórico recente — como o que aconteceu no Afeganistão, com o aumento da produção de ópio após a intervenção americana, ou o que aconteceu no Iraque, com o saque de artefatos históricos e o colapso do governo local — fico cético quanto à eficácia das intervenções americanas. Muitas vezes, os danos são maiores do que os benefícios, tanto para o país intervencionado quanto para os próprios americanos.

LG: Como você vê o papel dos EUA em um mundo multipolar emergente, particularmente em relação à aliança BRICS e ao declínio percebido da influência americana em regiões tradicionalmente aliadas, como o Oriente Médio?

JD: O “declínio” da influência americana talvez seja mais uma redistribuição de poder do que uma perda absoluta. Muitos países estão negociando para garantir suas próprias vantagens, incluindo parcerias alternativas, como os BRICS, que buscam maior peso global. A guerra entre Rússia e Ucrânia é um bom termômetro para avaliar a força dessas alianças: se os EUA se envolverem demais, podem acabar reforçando o bloco; se permanecerem moderados, podem controlar o avanço desses grupos. No Oriente Médio, a Arábia Saudita demonstra autonomia crescente, especialmente com o príncipe Mohammed bin Salman negociando livremente com todos, incluindo a China. Isso significa que o monopólio americano está sendo questionado. A questão central é se os EUA conseguirão assegurar acesso a recursos estratégicos, como petróleo e minerais críticos, sem depender das mesmas dinâmicas de antes.

LG: Como você vê as atuais políticas de fronteira, considerando o histórico dos EUA como uma nação de imigrantes?

JD: Historicamente, as pessoas vinham para cá buscando se integrar à cultura americana. Havia esse esforço de assimilação. Nos últimos 30 anos, percebo mais pessoas tentando manter sua identidade cultural original, o que não é ruim por si só, mas muda a dinâmica. Também há casos de refugiados realocados para locais nos EUA onde não queriam estar, o que é problemático. Durante o governo Obama, houve mais deportações do que nos primeiros cinco anos de Trump, mas a cobertura da mídia foi diferente. A forma como cada governo lida com a imigração — e como isso é mostrado ao público — tem muito peso. No geral, existem regras e leis para entrar em qualquer país. Aplicar essas regras não é, por si só, injusto. A questão é como elas são aplicadas, e com que grau de humanidade.

LG: E como você vê a presença de imigrantes no país?

JD: Eu acho que é caso a caso. Eu não diria que todos os imigrantes são exatamente iguais. Você tem algumas pessoas que estão aqui com vistos específicos, e você tem algumas pessoas que estão genuinamente tentando uma vida melhor, e foram enganadas por outras em pensar que são capazes de viver da mesma forma que todos os outros. Então eu acho que alguns imigrantes são enganados, e acho que outros imigrantes… Estão fazendo tudo o que podem para se assimilar à vida americana e depois há indivíduos que veem isso como um meio para um fim e realmente desejam estar de volta ao seu país, então é multifacetado.

LG: Considerando a violência armada e o debate sobre a Segunda Emenda, qual é sua visão sobre a cultura americana de armas?

JD: Muita gente não tem a menor ideia de como funciona uma arma, de como manuseá-la com segurança. Assim como se aprende a dirigir, as pessoas deveriam aprender sobre armamento com responsabilidade. Em países como a Suíça, por exemplo, há treinamento obrigatório. Nos EUA, falta esse tipo de educação. E quando você mistura desinformação, radicalização online e isolamento social, o cenário fica perigoso. Precisamos de uma conversa mais madura sobre o que significa o direito de portar armas em uma sociedade moderna.

LG: Percebo que muitos americanos demonstram mais rejeição à China do que à Rússia atualmente, o que é historicamente interessante, considerando a história de rivalidade com os soviéticos.

JD: É porque a China joga sujo — e quando digo “injusto”, é no sentido de regras assimétricas. Eles chegaram onde estão em parte graças a líderes americanos que venderam segredos comerciais e militares. O comércio com a China, iniciado por Nixon para isolar a Rússia, foi um erro estratégico. Deu à China acesso a nossa tecnologia e aos nossos mercados, enquanto mantinham um sistema fechado e autoritário.

Além disso, é impossível competir com um país que usa mão de obra infantil, enquanto aqui temos sindicatos e leis trabalhistas. O mesmo vale para o uso de imigrantes ilegais por empresários nos EUA, o que deturpa o mercado. Não é uma concorrência justa. E ao contrário da narrativa oficial, a Rússia — apesar de sua história — foi nossa aliada na Segunda Guerra Mundial. O susto com o comunismo serviu mais para justificar espionagem e mudanças de regime do que para proteger valores democráticos.

LG: Como os americanos veem as constantes intervenções dos EUA no exterior, como as que ocorreram no Oriente Médio e agora na Venezuela?

JD: Acho que muitos se sentem enganados. O governo diz que a causa é justa e que será algo rápido, mas nunca é. Veja o Afeganistão: invadimos o país para caçar um agente treinado pela própria CIA, Osama bin Laden. Derrubamos o governo e acabamos promovendo a produção de ópio, que alimentou a crise de opioides nos EUA.

E depois que saímos, a produção caiu 90%. Isso mostra o quanto a presença americana alimentava aquela indústria. Antes de qualquer nova intervenção, o governo deveria prestar contas pelo que fez em conflitos anteriores. O mesmo vale para o Vietnã, cuja entrada foi baseada em um ataque falsificado. O padrão é sempre o mesmo: interesses especiais disfarçados de missão humanitária.

LG: Sobre o Afeganistão e o ópio. Depois das tropas dos Estados Unidos saírem do Afeganistão, a produção de ópio diminuiu em 90%.

JD: Sim. Por isso, acho que o governo americano precisa ser responsabilizado antes de iniciar novas intervenções. Por exemplo, na Guerra do Vietnã, a informação que agora foi desclassificada é essencialmente que a América falsificou seu próprio ataque para justificar o envolvimento no conflito do Vietnã. Então, acho terrível que vidas de americanos e vietnamitas tenham sofrido porque… de interesses americanos que não estavam servindo ao povo, mas a empreiteiros muito específicos, essencialmente, pessoas que não são as que deveriam ser servidas.

LG: Mesmo com a inflação, alimentos caros e aumento no custo de vida, por que muitos americanos continuam apoiando o governo?

JD: Porque foram traumatizados para aceitar a inação. O 11 de setembro gerou pânico que justificou o Patriot Act e a vigilância em massa. As pessoas foram condicionadas a pensar que tudo o que o governo fazia era por segurança. Quando percebem que foram enganadas, já passaram 10 ou 15 anos. E esse ciclo de traição gera apatia.

As pessoas se sentem impotentes, desrepresentadas. Não acreditam mais que protestar vai mudar algo — especialmente quando o FBI se infiltra em manifestações e bloqueia ações coletivas. A única saída aparente é o voto, mas até isso parece sequestrado por interesses especiais. O sistema foi desenhado para dificultar qualquer mudança real.

LG: Como você avalia o papel da mídia nesse cenário?

JD: A mídia americana não é neutra. Durante as guerras no Afeganistão e no Iraque, apoiou cegamente a intervenção. O acesso privilegiado a fontes governamentais é condicionado à obediência. Os jornalistas viraram relações públicas do sistema. Não importa quem esteja no poder — a mídia prioriza manter seu lugar na mesa em vez de questionar.

LG: Por que você acha que a percepção de ameaça terrorista ainda está tão presente?

JD: Porque ela justifica o crescimento do estado policial. A polícia americana, nos últimos 30 anos, foi militarizada — tanques, metralhadoras, drones. Tudo em nome da segurança contra “ameaças invisíveis”. Mas quando olhamos para o tráfico humano, por exemplo, ele continua acontecendo com toda essa estrutura de vigilância. Isso nos faz pensar: será que as agências estão combatendo o problema ou fazendo parte dele?

Com orçamentos bilionários, essas instituições falham repetidamente em proteger o público. O resultado é que a população se cansa. A prioridade vira garantir uma aposentadoria tranquila, e não mais lutar contra o sistema.

LG: Como os americanos estão lidando com tarifas como as impostas pelo governo Trump, como a de 50% sobre produtos brasileiros?

JD: Todos estão pagando mais — e não apenas por produtos importados. Quando você impõe tarifas tão altas, como essas sobre o aço e o alumínio brasileiro, o custo dos insumos industriais também sobe aqui dentro. Isso encarece a produção nacional, afeta toda a cadeia e acaba sendo repassado ao consumidor. Resultado: o preço final de quase tudo aumenta. Além disso, a economia encolheu. O crescimento está estagnado, há menos investimento privado, e as empresas pensam duas vezes antes de contratar. Há mais gente procurando trabalho do que vagas disponíveis, e quando há emprego, os salários não acompanham o custo de vida.

A inflação generalizada — em alimentos, energia, moradia — torna quase impossível fazer planos de longo prazo, seja para pequenas empresas ou famílias. Fica difícil investir, difícil contratar, difícil crescer. A verdade é que, se nada mudar, as pessoas vão exigir novas lideranças. E não por ideologia, mas por sobrevivência. Porque o modelo atual, que favorece grandes corporações e governos centralizados, simplesmente não está funcionando para o cidadão comum.

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