Enquanto o mundo olha para a Amazônia, o Cerrado enfrenta risco de colapso ambiental. Desmatamento e altas temperaturas em Goiás reforçam a urgência de ações climáticas

Em novembro de 2025, Belém será palco da COP 30, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática. O Brasil, ao assumir o protagonismo do evento, terá uma oportunidade única para mostrar não apenas sua ambição climática, mas também como pretende integrar natureza, exploração consciente da terra e de seus recursos e a preservação de biomas em sua estratégia. 

E, nesse cenário, o Cerrado busca sair da linha de sombras da Amazônia para assumir um papel de destaque. Por sua relevância ecológica, tendências de risco e impacto local, especialmente no Centro-Oeste.

É importante ressaltar que não é uma questão de “competição” entre a importância dos biomas, e sim de lembrar que o Cerrado, assim como a Amazônia, também está em enorme risco de chegar em um ponto de degradação extremamente perigoso não apenas para quem vive nele, mas para o mundo. Isso porque a importância ecológica e ambiental do Cerrado não condiz com o papel que lhe foi dado, de esquecimento e pouca importância.

O bioma que ocupa 24% do território nacional, segundo estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, está no centro de debates urgentes: desmatamento persistente, degradação de solos, aumento de temperatura regional e pressões urbanas. Para Goiás e suas capitais, como Goiânia, essas transformações têm efeitos concretos sobre clima, água e qualidade de vida. Se no passado o Cerrado foi visto como “terra produtiva”, hoje ele exige ser tratado como infraestrutura natural do país.

A COP 30 é uma oportunidade: não como palco de discursos vazios, mas como momento de institucionalização de compromissos reais para todas as paisagens nacionais, e o Cerrado precisa ter vez e voz.

Cerrado e Amazônia

A Amazônia e o Cerrado são frequentemente mencionados juntos nos debates sobre meio ambiente e clima, e com razão. Muitas vezes, são mencionados em discussões sobre extensão do quanto estão sendo degradados. Mas há distinções entre eles importantes e que valem a pena conhecer.

A Amazônia possui imensa biomassa aérea, um dos maiores estoques de carbono do planeta, além de regular as chuvas em escala continental e global. 

O Cerrado, embora menor e com vegetação menos densa, possui uma parte significativa de seu carbono subterrâneo (raízes e solo), o que evidencia que a liberação de carbono por sua degradação pode estar subestimada

Em termos de uso da terra, o Cerrado vem sendo altamente convertido para agricultura e pecuária, o que torna as pressões muito intensas e exige intervenções urgentes.

Quando o equilíbrio entre uso de recursos e preservação é rompido (por desmatamento, queimadas, expansão agrícola intensiva) vêm consequências regionais (seca, erosão, escassez de água) e impactos globais (emissões, retroalimentação climática).

Quando os debates climáticos focam apenas na Amazônia (ainda mais pelo interesse internacional de exploração deste bioma mais especificamente), corre-se o risco de deixar de lado parte da equação: o que ocorre no Cerrado reverbera nos fluxos de água, na produção agrícola e nas cidades do Centro-Oeste, itens que impactam o Brasil como um todo.

Na lógica da COP 30, em que uso da terra, natureza e agricultura estão no centro da mesa, garantir que o Cerrado tenha visibilidade não é apenas simbólico, também é estratégico.

Conexão com a Agenda 2030 da ONU e os debates da COP 30

A Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) traz os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que fornecem o quadro para integrar clima, natureza, sociedade e economia.

  • ODS 6 (água potável e saneamento): a conservação do Cerrado ajuda a proteger bacias hidrográficas e garantir recursos hídricos.
  • ODS 13 (ação contra a mudança global do clima): mitigar as emissões e favorecer a adaptação é parte da missão do Cerrado, por meio de seu estoque de carbono e vegetação.
  • ODS 15 (vida terrestre): proteger ecossistemas terrestres e combater a desertificação significa diretamente atuar no bioma Cerrado.
  • ODS 2 (fome-zero e agricultura sustentável): o Cerrado abriga grande parte da produção agrícola brasileira, o que exige um modelo de uso da terra mais sustentável.

Na COP 30, portanto, não se tratam apenas de metas climáticas, mas de conectar essas metas às realidades dos biomas e ao uso da terra. Se o Brasil aproveitar essa oportunidade, poderá apresentar uma agenda em que conservação, produção e adaptação caminhem juntas, e o Cerrado pode ser a ponte.

O Relatório Luz, documento colaborativo da sociedade civil que monitora o progresso do Brasil em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), traz percepções importantes. Em sua 8ª edição, lançada em 2024, o relatório aponta que, embora o país apresenta avanços em alguns indicadores, muitos ODS ambientais continuam com resultados preocupantes. Inclusive no que se refere à conservação da natureza e aos impactos sobre biomas. 

Especificamente, o Relatório Luz 2024 demonstra que enquanto a Amazônia registrou uma queda de 62,2% no desmatamento em determinado período, o Cerrado teve um aumento de 67,7% nesse mesmo comparativo, o que evidencia uma ameaça crescente e desigual para o bioma.

Esse tipo de dado reforça uma advertência central: o Cerrado não pode permanecer como coadjuvante nos relatórios ambientais do país. É preciso monitoramento, políticas específicas e visibilidade nas negociações climáticas.

O que se espera da COP 30 e o que o Brasil pode apresentar

Na conferência, os diversos países deverão revisar e, potencialmente, elevar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), reforçar o financiamento climático (incluindo para natureza) e integrar o uso da terra e os sistemas alimentares ao pacto climático.

Para o Brasil, o desafio é mostrar não apenas compromisso, mas ação. Demonstrando que todos seus biomas, e em especial o Cerrado, estão no plano.
Algumas das propostas mais relevantes incluem:

  • Criação ou fortalecimento de mercados de carbono que envolvam produção agrícola e floresta.
  • Programas de restauração de áreas degradadas no Cerrado, com foco em pastagens, agricultura sustentável e conservação.
  • Transparência no monitoramento de uso da terra, restauração e desmatamento, incluindo mecanismos que envolvam estados como Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.
  • Financiamento internacional dirigido a biomas menos evidentes como o Cerrado, e não apenas à Amazônia.

Por que o Cerrado também deve ganhar destaque na COP?

Mesmo com recentes quedas nos alertas, o Cerrado segue sob intensa pressão. Registrando no último ciclo cerca de 5.555 km² sob alerta de desmatamento entre agosto de 2024 e julho de 2025, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

A conservação do Cerrado tem impacto direto na vida urbana e rural de estados como Goiás: desde as chuvas, passando pela água, até o clima das cidades.

Há oportunidade de unir produção e conservação: o Cerrado pode servir como exemplo de agricultura sustentável em bioma de savana tropical, algo que a COP 30 busca promover.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou, no Dia Mundial do Meio Ambiente de 2024 que, apesar de alguns avanços no monitoramento e na redução do ritmo de desmatamento, o Cerrado ainda enfrenta desafios graves relacionados à devastação legal e ilegal. 

“Ainda é cedo para dizer que isso é uma inflexão duradoura e constante na curva de desmatamento, porque no Cerrado uma boa parte do desmatamento conta com licença, outra parte, quase 50%, é ilegal. Ibama e estados podem agir muito severamente em relação ao ilegal”, afirmou Marina, ao apresentar dados de desaceleração no desmatamento no cerrado.

Colocar o Cerrado no centro reforça a narrativa global de que a crise ambiental não é apenas sobre florestas densas, mas sobre sistemas naturais variados que juntos sustentam vida, clima e economia.

Desmatamento e perda histórica

O monitoramento do bioma Cerrado mostra que o desafio é persistente. No período entre agosto de 2024 e julho de 2025, houve uma queda de aproximadamente 20,8% nos alertas de desmatamento, segundo o INPE, passando de aproximadamente 7.014 km² para  cerca de 5.555 km².

De acordo com o monitor de queimadas do Cimehgo, referente ao período de 6 a 12 de outubro de 2025, o número total de focos de incêndio em Goiás já supera em 76% o registrado em todo o mês de outubro do ano anterior. As regiões Leste, Norte e Oeste foram as que mais preocupam, com aumentos expressivos de 223%, 269% e 7%, respectivamente, em relação a 2024. Por outro lado, o levantamento mostra redução significativa nas regiões Centro, Sudoeste e Sul, com quedas de 95%, 76% e 69%, o que indica comportamentos distintos dentro do estado. Os dados, baseados em informações de satélite do INPE, reforçam a importância do monitoramento contínuo e da adoção de medidas preventivas locais.

Além do aumento dos focos, o relatório aponta que a estiagem prolongada tem agravado o cenário, com até 18 dias consecutivos sem chuva em algumas regiões, o que eleva o risco de queimadas e compromete a qualidade do ar. Segundo André Amorim, gerente do Cimehgo, o monitoramento regional de dias sem precipitação foi implantado em 2025 justamente para apoiar ações preventivas, proteger recursos hídricos e mitigar os riscos de incêndio. O órgão alerta que a maioria das queimadas ainda é de origem humana e que é necessária consciência ambiental para conter o avanço do fogo no campo e nas cidades.

Mas esse alívio momentâneo não suaviza a gravidade: estudos de monitoramento histórico mostram que, na escala de décadas, o Cerrado perdeu vastas extensões. Um relatório técnico do Ministério do Meio Ambiente, que acompanha dados até 2008, indica que o bioma sofreu remoção de 85.074,87 km² entre 2002 e 2008, cerca de 4,17% de seu território nesse intervalo.

Cimentando essa intensidade, investigações recentes da Global Witness revelam que cadeias agropecuárias, especialmente no segmento da carne bovina, têm papel importante na pressão sobre o Cerrado. Em estados como Mato Grosso, o desmatamento ligado ao pecuarismo foi identificado por meio de rastreamento de gado e uso de dados públicos de propriedades.

Ou seja: embora o alerta do INPE mostre queda recente, as pressões estruturais permanecem altíssimas, e normalmente invisíveis nas manchetes.

Aquecimento e urbanização em Goiás

A este cenário ambiental se soma o fator climático nos estados do Centro-Oeste. Em Goiás, por exemplo, uma análise baseada em dados do INMET apontou que, nos últimos 30 anos, a temperatura média estadual subiu cerca de 1,5 °C.

Esse aumento coloca Goiás entre os estados com maior elevação térmica do Brasil, ao lado de Pará e Mato Grosso, de acordo com o estudo. O meteorologista associado à UFG alertou que a combinação de degradação do Cerrado, aquecimento global e alterações no regime de chuvas pode agravar o calor, com ondas extremas mais frequentes.

No âmbito urbano, Goiânia sofre as consequências dessa dinâmica. A capital já registra um padrão climático típico de regiões de cerrado: estação chuvosa, que costuma ir de outubro a abril, e a estação seca, que geralmente vai de de maio a setembro. Em períodos secos, a umidade relativa do ar pode cair para níveis críticos (abaixo de 20%) e, em casos extremos, ficar próxima a 10%.

Quanto ao monitoramento climático local, o  Centro de Informações Hidrológicas, Meteorológicas e Geológicas de Goiás (Cimehgo) disponibiliza dados, mapas e boletins de monitoramento, cobrindo previsões, mapas satelitais, monitoramento de secas e de queimadas. 

Atualmente, em Goiás, temperaturas de até 38 °C e umidade relativa muito baixa têm sido documentadas. Segundo comunicado recente do Cimehgo, algumas regiões do estado poderiam registrar rajadas de vento e chuvas isoladas, em cenário típico de clima tropical severo.

A promessa de “redução de desmatamento” precisa se converter em metas claras, com financiamento e monitoramento. O uso da terra deve ser tratado como componente climático. Não apenas em discursos, mas em políticas que alcancem estados como Goiás. 

E cidades como Goiânia precisam adaptar-se à mudança de clima e proteger vegetação remanescente, reduzindo o impacto urbano da degradação. Além disso, mostra-se necessário um planejamento que proteja a população de eventos climáticos extremos, como tempestades, que comumente deixam para trás estragos e vítimas de um governo que não prevê a segurança da própria população, mesmo com especialistas e previsões alertando perigo iminente. 

O que o Brasil pode (e precisa) apresentar

Para que a COP 30 se torne um marco e não apenas mais um encontro, o Brasil deve trazer à mesa o Cerrado de forma concreta: com propostas robustas e com mecanismos de verificação. Algumas destas incluem iniciativas que demonstram ser necessárias:

  • Programas de restauração de pastagens degradadas, com técnicas que reconciliem produção e regeneração.
  • Fortalecimento de programas de monitoramento contínuo, com transparência de dados e ações de fiscalização territorial.
  • Recursos e financiamento climático direcionado para intervenções em biomas menos visíveis, como o Cerrado.
  • Planos estaduais e municipais efetivos (Goiás, estados do Centro-Oeste) de adaptação, proteção de remanescentes e redução de pressão urbana sobre paisagens naturais.

A conexão entre o Cerrado e o evento COP 30, portanto, é muito concreta. A vegetação, os rios, as chuvas, os campos agrícolas e as cidades partilham de um mesmo bioma: o Cerrado. E o modo como esse bioma for tratado no evento global pode determinar se esta será apenas mais uma conferência ou um ponto de virada.

As atenções estarão voltadas para Belém em novembro. Mas o impacto de decisões vindas de lá vai chegar e já chega aos estados do Centro-Oeste. E se medidas efetivas forem adotadas, o Brasil poderá sair da conferência não apenas com promessas, mas com compromisso real e visível de que o Cerrado tem papel central, e que o futuro climático e ambiental do país passa por ele.

Por: Júlia Laiany de Lima Costa, Matheus Oliveira Castro, Michely Moura Loures e Pedro Paulo Lemes

Reportagem realizada para a disciplina de Comunicação para a Sustentabilidade, ministrada pela professora Lisbeth Oliveira, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás.

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