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O cigarro voltou a circular entre os jovens, e dessa vez disfarçado de “menos agressivo à saúde”. De acordo com dados recentes do Ministério da Saúde, houve um crescimento de 25% no número de fumantes no Brasil entre 2023 e 2024. Nas redes sociais e espaços urbanos, o tabagismo, antes associado ao passado, reaparece com o cigarro eletrônico e abre portas para novos significados de estética, identidade e pertencimento.
O aumento da onda do tabagismo preocupa especialistas da saúde. Mesmo com os avanços das políticas antitabagistas, como regulamentação de vendas, propagandas e até aparições públicas, os riscos continuam altos, isso porque os cigarros estão relacionados a doenças respiratórias e diversos tipos de câncer. O atrativo visual e o discurso de “autenticidade” cercam o hábito e tentam mascarar um problema de saúde pública que se reinventa entre a nova geração.
Existem muitos questionamentos a respeito do que explica essa nova onda. Seria ela uma busca estética? Um resgate de símbolo de rebeldia ou apenas um reflexo de comportamentos sociais? Alguns consideram que o cigarro nunca deixou de ter o seu charme e que agora só obteve uma amplificação pela cultura digital e nostalgia de décadas passadas. Certamente, o aumento de fumantes provém do alto índice de vícios que a nicotina e outras substâncias trazem, mas a questão da influência também tem sua parcela de culpa. E é exatamente nessa parte que entra um debate sobre a glamourização do tabagismo, que se mostra presente nas redes sociais e no cotidiano atual.
Antes mesmo do surgimento deste debate, o cigarro era intensamente promovido pela indústria e pela publicidade. O cigarro aparecia em diversos contextos, e, entre eles, com associação a sucesso, liberdade e até elegância. Mesmo após as restrições legais, uma herança simbólica segue seu fluxo, influenciando comportamentos e estilos. E é sobre essa dimensão do tabagismo que alguns publicitários explicam que as propagandas não vendiam apenas um produto, mas sim um estilo de vida.
A respeito de uma possível interferência das telas no aumento de fumantes, o professor de cinema Lisandro Nogueira contesta a visão de que as telas tenham glamourizado o cigarro. Segundo ele, o cinema apenas retratou uma sociedade em que o ato de fumar era parte do cotidiano, e não uma jogada de sedução. “O discurso sobre glamourização é, muitas vezes, moralista. O cinema mostrava as pessoas fumando porque elas realmente fumavam”, afirma. Para o professor, mais do que criar o imaginário, o cinema refletia hábitos já presentes na sociedade, e o possível glamour veio depois, com o que a sociedade construiu das imagens.
Entre o charme de antigas campanhas e um debate atual sobre saúde e imagem, o cigarro ocupa mais uma vez um espaço ambíguo: estilo para alguns e alerta de risco para outros. O estudante João Pedro demonstra a possibilidade de habitar em meio aos dois lados. Ele admite saber dos riscos, mas encara o cigarro como parte de sua rotina. “Costumo fumar quando estou estressado, mas, se eu estiver em uma roda e alguém me oferecer, não consigo recusar”, conta o jovem.
A fala do estudante revela a complexidade do novo pico de fumantes. Entre o cuidado e o descuido, o cigarro continua um símbolo. A nova geração, mesmo cercada por discursos sobre saúde e bem-estar, encontra no fumo uma forma contraditória de expressar liberdade.
O cigarro segue sendo espelho de uma sociedade que continua em busca de imagem, pertencimento e, por trás da fumaça, um sentido de identidade.
