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A cidade de Goiânia sofre frequentemente com a presença de fios soltos e amontoados, problema que tem se tornado uma crescente preocupação entre moradores e autoridades da cidade. Além da poluição visual causada por esses fios soltos, eles afetam diretamente a segurança pública da cidade, revelando a falta de manutenção preventiva.
Durante o mês de setembro, Goiás registrou três mortes causadas por choque elétrico de fios soltos em calçadas, nas cidades de Goiânia, Anápolis e Rio Verde. Os grandes temporais ocorridos ao final do mês foram grandes catalisadores desses trágicos acontecimentos, tendo causado a morte de Nathaly Rodrigues do Nascimento, jovem goiana de 17 anos, no dia 23 de setembro.
Segundo previsões passadas do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), eram previstas tempestades durante o dia 23 em toda a região Centro-Oeste, entretanto, essa condição não foi devidamente comunicada à população.

Problema rotineiro
A falta de manutenção preventiva na fiação elétrica causa uma forte insegurança na população, que se vê desamparada e teme possíveis acidentes, prejudicando a mobilidade de pedestres e motoristas. Esse incômodo com o emaranhado de fios soltos é relatado por Pedro Jubran, estudante da UFG que vive no setor Leste Universitário, e precisa caminhar diariamente na região.
“A situação da fiação aqui na minha rua é crítica, você vê fios soltos logo na saída do prédio, e você tem que desviar para passar. E uma quantidade exagerada de fios, acredito que muitos deles nem estejam em funcionamento, o que é muito feio esteticamente, e que geram muitos riscos para população que mora aqui no bairro.”
Além de falar da situação da fiação, o estudante também revela o medo diário de sofrer acidentes, que foi potencializado após as tragédias que ocorreram nos últimos meses.
“É inevitável não sentir um pouco de medo, porque você vê as notícias de quando chove, que ocorrem tragédias, como a daquela moça que foi atravessar a rua e morreu eletrocutada. É inevitável não sentir medo, vendo tudo isso.”
Para Pedro, as autoridades devem tomar ações para a manutenção dessa fiação, para tornar a cidade mais segura e esteticamente agradável, prevenindo novos acidentes e investindo em alternativas mais seguras:
“As autoridades tinham que mostrar pelo menos um desconforto com essa situação. Eu acho que eles deveriam, no mínimo, fazer a retirada desses fios que estão soltos. Seria um grande trabalho, mas é algo necessário a ser feito.”
A importância da infraestrutura
O problema dos fios soltos está relacionado diretamente à questão do planejamento urbano, enfatizando a falta de trabalho conjunto entre empresas concessionárias (empresas autorizadas pelo governo para prestar um serviço público) e o poder público.
Conforme a urbanista Dra. Evelyn Soares, doutora em Projeto e Planejamento Urbano e Regional pelo PPG-FAU/UnB e professora da PUC Goiás, a qualidade da infraestrutura é primordial para a qualidade de vida urbana, e é um direito constitucional do cidadão brasileiro, conforme os artigos 182 e 183 da Constituição Federal.
“A arquitetura privada é situada na cidade, que tem uma infraestrutura básica para atender as demandas da ocupação da população. A qualidade dessa infraestrutura é primordial para que a gente tenha qualidade de vida. E a Constituição Federal, em um dos artigos traz para nós que toda a população deve ter acesso a essa infraestrutura básica.”
Segundo Evelyn, também é de fundamental importância o planejamento urbano, que é a base inicial para uma boa infraestrutura. De acordo com a urbanista, a falta de planejamento atrasa a melhora da infraestrutura: “Ao invés de planejarmos ações para a resolução de problemas atuais e futuros, a impressão que temos é que a gente sempre está correndo atrás de tapar buracos de um planejamento mal feito ou não realizado anteriormente.” Além disso, Evelyn ressaltou a questão da energia elétrica, que em sua maioria não é devidamente planejada em conjunto com outros sistemas urbanos na cidade de Goiânia.
“Um exemplo é a infraestrutura de energia pública. O ideal é que essa infraestrutura seja planejada de forma subterrânea, ou em galerias, ou com uma infraestrutura que permita uma segurança e um acesso melhor a esse sistema. Então, a gente tem uma rede de esgoto, uma rede de água, uma rede de energia, a iluminação pública, o sistema viário… São sistemas específicos que demandam manutenções e projetos específicos, mas que estão interligados e sobrepostos naquele espaço.”
A urbanista reforça a importância do planejamento a longo prazo, para evitar novos problemas com a fiação e melhorar a qualidade de vida da população goiana, e para a adequação do espaço urbano, como alocar a fiação de forma subterrânea.
“Os nossos impostos, e outros instrumentos de política urbana nos permitem fazer projetos de adequação e colocar essa rede elétrica de forma subterrânea. Então o que que poderia ser feito é um projeto de revitalização urbana, de forma adequada à infraestrutura de energia e iluminação. Isso não precisa acontecer na cidade inteira de uma vez, mas pode ser projetado e planejado de forma que seja feito em prazos definidos, e pela própria prefeitura, pela própria gestão pública ou em operações consorciadas.”
Por fim, Evelyn cita exemplos de cidades que já adotaram a organização da fiação de maneira subterrânea, mostrando que com planejamento é tempo, essa organização é uma alternativa viável e segura, e cita construções privadas de Goiânia que já começaram a adotar esse sistema.
“A gente tem muitos exemplos fora do Brasil, cidades desenvolvidas, grandes nomes de infraestrutura urbana, Nova York, Londres, Paris. Mas eu, diante dessa questão, prefiro não ir tão longe. Eu prefiro falar aqui dos nossos investidores. Nós temos em Goiânia empreendedores que têm construído loteamentos que têm essa infraestrutura subterrânea. Então são espaços da cidade, às vezes já urbanizados, em que essa adequação é feita.”
Questões técnicas
A desorganização e riscos causados pelos emaranhados de fios soltos também sofre com questões técnicas, uma vez que existem diversas explicações erradas sobre a origem desses fios e a diferença entre as funções deles (telefonia, energia e internet), e quais desses dão choque elétrico ou não.
Conforme o professor Dr. Igor Kopcak, doutor em Engenharia Elétrica pela UNICAMP e professor da UFG, é possível diferenciar visualmente os fios: “Os cabos de telefonia e comunicação, de forma geral, são cabos que ficam na parte mais baixa do poste e são isolados com uma camada de isolante preto. Os da rede elétrica, são a maioria ainda de cabo nu de alumínio, e eles ficam instalados um pouco acima no poste”.
Entretanto, mesmo sendo possível a diferenciação, o professor reforça que é importante não entrar em contato com fios soltos, pois mesmo os fios sem tensão (internet e telefonia) podem causar problemas quando em contato com a rede elétrica.
“É muito importante que, mesmo tendo essa capacidade de diferenciar, as pessoas evitem contato com cabos rompidos, porque os cabos de internet e telefonia não têm tensão que poderia oferecer perigo, mas como eles estão no mesmo poste que tem a rede elétrica, e já que eles romperam eles estão com defeito, você não tem como garantir que eles não possam ter sido energizados pela rede elétrica.”
De acordo com Igor, em situações de chuva o risco de choque elétrico por fios soltos é potencializado, sendo um cenário de grande perigo à segurança de pedestres.
“É sempre importante manter distância, porque a corrente, vai tentar entrar para o solo, mas ela não entra diretamente no ponto onde o cabo caiu, ela se esparrama pela superfície. E aí, se você se aproximar, pode acontecer um fenômeno que é chamado de tensão de passo, em que, entre a corrente percorrer a superfície, ou percorrer o corpo da pessoa, pode ser um caminho mais fácil passar pelo corpo e a pessoa acabar tomando um choque por conta dessa característica inicial da corrente, que se esparrama pela superfície antes de entrar para o solo totalmente.”
Além disso, o professor também explicou alternativas mais seguras para a organização da rede elétrica nua (sem isolamento), como a rede compacta, que usa cabos protegidos, e evita o contato dos fios nus com o solo, e é uma alternativa mais barata quando comparada à rede elétrica subterrânea.
“Do ponto de vista estritamente técnico, a melhor solução é a rede subterrânea, seja energia elétrica, seja a de telecomunicações. Em ambos os casos, é a rede que é mais robusta e menos suscetível à intervenção humana. O problema dessa tecnologia é realmente o custo. Na minha avaliação, uma solução mais adequada à realidade brasileira seria converter a rede convencional de cabo nu, para a rede compacta, já que aí os custos são equiparáveis aos da rede convencional, só que já trariam segurança e qualidade no fornecimento muito superior do que a rede nu.”
No mais, Igor explica que as novas redes elétricas do país já têm sido construídas em rede compacta, melhorando a qualidade de vida de populações que moram nas áreas beneficiadas pela infraestrutura.
“E mesmo no Brasil, as redes novas que têm sido construídas, ou substituídas, já têm sido convertidas em rede compacta. Em todos os locais onde a rede compacta foi instalada, os indicadores de qualidade do fornecimento melhoram.”

Medidas públicas
Após as tragédias ocorridas em setembro deste ano, o debate público gerou diversas pressões para as autoridades públicas tomarem medidas que garantam a segurança e manutenção da rede elétrica de Goiânia.
Nesse cenário foi criada a Comissão Especial de Inquérito (CEI) dos Fios Soltos, apresentada pelo vereador Coronel Urzêda (PL), que busca criar uma solução compartilhada entre o poder público e as concessionárias para resolver o problema dos fios soltos na cidade de Goiânia.
Em entrevista, o vereador Coronel Urzêda explicou quais são os mecanismos que irão funcionar caso a CEI dos Fios Soltos seja instaurada, e afirmou que o problema dos fios soltos afeta a cidade também esteticamente, mas principalmente nos setores da saúde pública e segurança pública.
“Além da questão da poluição visual, que também é crime, ela tem a questão da saúde pública, porque essas pessoas que são afetadas vão para os postos de saúde pública, que já é um caos, e pode piorar mais. E fora a questão da segurança, são cadeirantes, são idosos, são crianças que estão à mercê desses fios soltos por aí, que podem tirar a vida, que podem mutilar, que podem atrapalhar, que podem machucar as pessoas.”
O vereador também adiciona que a motivação para a criação da CEI foram reclamações populares , que pagam impostos e se sentem descontentes com a situação da fiação de Goiânia, e também uma audiência pública que ocorreu no dia 7 de Julho deste ano.
“Através dos nossos impostos, a gente paga a saúde pública, paga a educação pública, paga a segurança pública, então houve reclamações. Nós fizemos uma audiência aqui no mês de julho dessa questão dos fios soltos, algumas empresas vieram, empresas inclusive nacionais, tanto de telefonia quanto de internet, mas a responsável mesmo não veio, a Equatorial. E ela é a responsável, porque caso você não saiba, ela aluga o espaço dela. O que é que acontece? As empresas vão mudando a sua tecnologia, para os cabos mais novos, com mais velocidade, etc, instalam novos cabos e não retiram os anteriores.”
O vereador soma a importância de trabalhar em conjunto com as empresas durante a execução da CEI dos Fios Soltos, ressaltando que o caráter da medida é investigativa, e contará com o apoio de diversos setores da sociedade.
“Nós vamos chamar a Equatorial, que é a dona detentora dos postes. Vamos chamar as grandes empresas de telefonia, de internet, ouvir também os outros órgãos envolvidos, igual a AR, que é a Agência de Regulação de Goiânia, a Secretaria de Eficiência, que faz a fiscalização, para ver o que a gente pode fazer.”
Além disso, Urzêda também destacou a necessidade de se ter um olhar às áreas mais necessitadas, como as periferias da Cidade.
“A periferia também merece isso, porque ela também vez ou outra está sendo vilipendiada no seu direito de ir e vir, nesses fios soltos podendo atrapalhar e ou machucar alguém. Então, nós vamos chamar a responsabilidade para a várias mãos convidar o Ministério Público para acompanhar, convidar a OAB para acompanhar, convidar o PROCON para acompanhar, com várias mãos a gente é capaz de trazer uma solução, e quem sabe Goiânia seja um exemplo no Brasil.”
Por fim, o vereador destaca a importância da participação popular para a efetividade da CEI, e destaca que poderão ser feitas denúncias, e a população tem acesso às audiências públicas: “Qualquer pessoa pode participar de forma presencial ou virtual, porque vai ser transmitido pelo YouTube aqui da TV Câmara Goiânia”.
Canais de denúncia
Para amenizar o problema dos fios soltos em Goiânia, atualmente a população pode denunciar esse problema ao canal de atendimento 156, especificando a situação dos fios soltos, anexando fotos e relatos.
É importante ressaltar que caso a empresa autuada — alvo de infração — não tomar as providências em 30 dias, ela novamente será autuada e o valor da multa será dobrado.
