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Que a cidade de Goiânia não consegue absorver a água da chuva não é surpresa para quem vive na cidade, mas nem todos percebem que a situação além de não melhorar, parece estar piorando. Essa problemática está presente e afeta todos os habitantes, sem exceção, da cidade de Goiânia, das classes mais altas até as mais baixas todos são atormentados, seja pelo trânsito travado, pelas inundações, quedas de energia ou pelos postes, árvores e casas que caem.
Principalmente de outubro até abril, época de chuvas no Estado de Goiás, o cotidiano do goianiense fica mais complicado. O guarda-chuva se torna um item indispensável, o tênis e a calça que você escolhe para sair de casa estão fadados a voltarem encharcados, o horário de ir para seu compromisso tem que ser adiantado porque senão, você irá se atrasar e entre outras consequências.

Como o problema surgiu
Essa questão tem início desde a fundação da capital, em 1933. Goiânia é uma cidade planejada, mas apenas para 50.000 habitantes. A cidade passou por um rápido crescimento populacional, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, muito impulsionada pela construção de Brasília. Desde esse momento as complicações começaram a aparecer. Atualmente existem mais de 1,4 milhão de cidadãos e esse é um fator fundamental a ser levado em conta na hora de analisar como Goiânia chegou a essa condição.
Além disso, houveram obras que vieram em decorrência desse crescimento populacional e que contribuíram para o agravamento da situação, como a construção da marginal botafogo. Ela foi criada para facilitar o fluxo dos moradores que precisavam atravessar a cidade, e para isso foi necessário canalizar o córrego botafogo, porém a construção foi feita ignorando aspectos ambientais, o que acabou ocasionando no grande problema que é recorrentemente visto em dias de chuva na capital, carros ilhados, pessoas sendo levadas pela água, trânsito parado e muito mais.
Por fim, as administrações municipais também contribuíram muito com a situação dos dias atuais, pois elas não colocaram a infraestrutura da capital como prioridade e apenas buscaram soluções simples e rápidas para um problema que é complexo e demanda tempo.
Situação atual
O momento vigente é de uma cidade que sofre cada vez mais com as chuvas. De acordo com a Defesa Civil de Goiânia, os pontos de alagamento mais que dobraram nos últimos dez anos. Em 2015 haviam 57 pontos e neste ano chegaram a 135, sendo 10 deles críticos: Marginal Botafogo (Jardim Goiás e Centro), Vila Redenção, Parque Amazônia, Pedro Ludovico, Setor Sul, Parque Industrial João Braz, Residencial Goiânia Viva e no Finsocial (Rua VF-82 e VF-96).
Porém, segundo o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, Robledo Mendonça, isso não surpreende:
“O sistema de drenagem não acompanhou esse crescimento (da cidade), somado com as mudanças climáticas, que estão trazendo cada vez mais chuvas fortes e com mais frequência. Além disso, a capacidade da defesa civil de identificar pontos de alagamentos aumentou, diante disso, obviamente os registros aumentaram”

Não somente, de acordo com o Centro de Informações Meteorológica e Hidrológica do Estado de Goiás (Cimehgo) apenas na madrugada do dia 2 para o 3 de novembro desse ano, em algumas regiões de Goiânia, choveu 140 milímetros que é mais da metade do que está previsto o mês inteiro (220 a 240mm), fato esse que expõe como as mudanças climáticas são mais um fator agravante para essa conjuntura.
E as estatísticas negativas não param por aí: nos últimos 14 anos, 11 pessoas morreram em enxurradas na cidade de Goiânia, a última no dia 30 de setembro. Uma jovem que atravessava uma rua alagada pisou em um fio de energia elétrica e acabou eletrocutada. Além disso, em dias chuvosos é muito comum ocorrer quedas de energia elétrica, árvores e postes sendo derrubados, fatores que dificultam mais ainda a vida do cidadão.
Morador do setor Leste Universitário, Luis Antônio diz que as inundações são consequência da maneira como se a urbanização da cidade e a construção das casas se deram na capital:
“Atrapalha o dia a dia de todo mundo, porque o trânsito trava, as ruas alagam muito, Goiânia não foi projetada para esse tanto de gente. E a impermeabilização do solo é o maior causador disso, quase toda casa tem quintal cimentado, aí a água não penetra no solo e vai pra rua causando inundações e sem falar da limpeza urbana que não limpa direito os bueiros. O que mais nos afeta são os alagamentos.”

Perspectiva da prefeitura e análise da conjuntura
Para contrapor as estatísticas e trazer o outro lado da moeda, o Lab Notícias entrou em contato com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra), e ao serem questionados sobre sua atuação, enviaram uma nota em resposta e explicaram como eles vêm atuando (leia a nota na íntegra ao final do texto).
“A Seinfra tem em sua rotina de trabalho a limpeza e manutenção da rede de drenagem. Este ano, entre o dia 01/01/2025 e 02/11/25, a Seinfra fez a limpeza de 34.943 bocas de lobo; 201.525 metros de ramais; 1.554 poços de visita e 743 bueiros. Limpeza foi feita manualmente e com a utilização de caminhão hidro jato. Foram retiradas 3.990 toneladas de entulho da rede de drenagem.”
“Recentemente, a Seinfra recuperou um muro de arrimo na Marginal Botafogo e está em curso a correção de processo erosivo na Avenida Castelo Branco, no Setor Esplanada dos Anicuns, entre outros locais na cidade.”
Para além disso, a prefeitura também está agindo de outras formas como com a adição de cancelas em vias que costumeiramente alagam, adição de mais placas em pontos de alagamento, avisos de troca de rota no aplicativo de trajetos Waze em dias de chuva e instalação de pluviômetros que informam a Defesa Civil em caso de alagamentos, capazes de enviar um alerta diretamente nos celulares dos moradores de regiões de risco em dias de temporais.
Entretanto, essas medidas buscam mais remediar o problema do que preveni-lo, elas não atacam diretamente o problema principal que é a infraestrutura defasada da cidade e a super impermeabilização do solo, mas na verdade tenta dar formas dos cidadãos contornarem os locais de alagamento, que é algo necessário e importante a se fazer, principalmente a curto prazo, para diminuir as tragédias que vem acontecendo. Porém, se não for melhorada a infraestrutura da capital esses problemas nunca se cessarão por completo.
Nesse sentido, também é necessário que o prefeito, Sandro Mabel, desista de projetos que pioram a infraestrutura da cidade como no caso da grama sintética, projeto que obteve ampla rejeição e que tem o objetivo de trocar gramados naturais por grama sintética no centro de Goiânia, com o objetivo de reduzir custos e melhorar o visual. Contudo, isso favorece a impermeabilização do solo e agrava ainda mais os problemas pluviais da metrópole goiana.

Possíveis soluções e perspectiva pro futuro
Para o arquiteto e urbanista Danyel de Carvalho, há alternativas para solucionar essa questão na cidade de Goiânia:
“Falta pensar em mais áreas verdes, apesar de Goiânia ser uma das cidades que mais tem essas áreas no país, ainda falta muito. Elas são muito importantes para absorver o volume de água. Falta também a prefeitura fiscalizar mais em relação a cada casa ter a sua área verde de 15-20%, como manda a lei, porque na maioria das vezes, essa área só está no projeto e quando o cliente vai construir ele tira a área verde, e ninguém fiscaliza depois. A prefeitura poderia usar os parques, as praças, como áreas alagáveis. Fazer um projeto de cidade esponja mesmo, para absorver essa água pluvial, que é o que há de mais moderno. A gente tem que voltar para as coisas mais básicas, e mais naturais. A cidade tem que ser capaz de absorver isso, não jogar tudo para o rio. Porque o rio não vai ser capaz de absorver tudo, ainda mais os que estão canalizados.”
Por último, um fator que pode trazer esperança para o cidadão goiano é o Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU) que está sendo desenvolvido pela Prefeitura de Goiânia em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e que ao ser concluído irá planejar as soluções de drenagem para os próximos 30 anos, com foco em prevenir alagamentos e transbordamentos na cidade, e tem previsão de ficar pronto no início de 2026, quando será levado à Câmara Municipal.

Leia a nota completa da Prefeitura de Goiânia
Os principais problemas que surgem no período chuvoso são alagamentos, buracos no asfalto, entupimento da rede de drenagem e processos erosivos pontuais. Podem ocorrer em qualquer lugar da cidade, mas em locais próximos aos cursos d’água a probabilidade de alagamentos é maior. Alguns bairros estão dentro da cota de alagamento dos principais mananciais da cidade.
O número de buracos no asfalto aumenta no período chuvoso com o desgaste do asfalto provocado pelas águas, mas um programa de revitalização do asfalto de diversos bairros da capital levou mais qualidade ao pavimento e menor ocorrência de fissuras e buracos nas ruas. São mais comuns em bairros onde o asfalto é mais antigo.
O entupimento da rede de drenagem (bocas de lobo, poços de visita, ramais e bueiros) é causado, principalmente, pelo descarte incorreto do lixo. A Seinfra tem em sua rotina de trabalho a limpeza e manutenção da rede de drenagem. Este ano, entre o dia 01/01/2025 e 02/11/25, a Seinfra fez a limpeza de 34.943 bocas de lobo; 201.525 metros de ramais; 1.554 poços de visita e 743 bueiros. Limpeza foi feita manualmente e com a utilização de caminhão hidro jato. Foram retiradas 3.990 toneladas de entulho da rede de drenagem.
Eventualmente, pela força da água das chuvas, é detectado algum processo erosivo na cidade. Recentemente, a Seinfra recuperou um muro de arrimo na Marginal Botafogo e está em curso a correção de processo erosivo na Avenida Castelo Branco, no Setor Esplanada dos Anicuns, entre outros locais na cidade.
Está em desenvolvimento pela Prefeitura de Goiânia e Universidade Federal de Goiás (UFG) o Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU), que ao ser concluído definirá diretrizes estratégicas de médio e longo prazo para reduzir riscos de alagamento e promover o manejo sustentável das águas pluviais no município
Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) – Prefeitura de Goiânia
