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Casos de intoxicação reacendem debate sobre fiscalização, consumo e responsabilidade industrial. Entrevista destaca diferença entre etanol e metanol, processos produtivos e educação do consumidor.
A crescente preocupação com casos de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas adulteradas reacendeu o debate sobre a segurança alimentar, a fiscalização da produção e a responsabilidade dos produtores. Episódios recentes de contaminação levaram órgãos públicos e consumidores a discutirem os limites legais e os perigos do consumo de produtos sem procedência.
O Lab Notícias ouviu algumas pessoas envolvidas com o tema. O primeiro entrevistado foi o professor Cláudio Fernandes. Engenheiro de alimentos que atua como docente na UFG, o professor tem grande experiencia em tecnologia de alimentos e atuação em processos industriais na fabricação de bebidas destiladas. Ele explicou, de forma detalhada, como ocorre a formação do metanol, qual a diferença entre ele e o etanol e qual o papel dos profissionais da área no controle da qualidade das bebidas produzidas no país.
A entrevista conta também com a visão de uma gerente de um supermercado da grande Goiânia e do publico que frequenta os bares e restaurantes da capital.
Logo no início, o professor Cláudio destacou que o interesse da entrevista era relevante para a área de alimentos, especialmente porque o tema do metanol está diretamente ligado à fiscalização, à segurança e ao consumo humano. Segundo ele, é importante diferenciar o etanol, utilizado de forma natural e segura em bebidas alcoólicas, do metanol, que é uma substância tóxica e perigosa quando fora dos limites legais.
“O metanol não é metabolizado da forma como a gente espera. O etanol, que estamos tratando aqui nas bebidas, é um etanol alimentício, produzido de maneira controlada. Apesar de parecer estranho, ele tem um grau alimentício. Desde que seja consumido em quantidades que o corpo consiga metabolizar, ele não oferece perigo. Esse etanol vem de um processo fermentativo muito bem controlado e rígido, em que micro-organismos consomem açúcares fermentescíveis como a sacarose, no caso da cachaça e produzem o etanol de forma segura.”
O professor explicou que a produção de bebidas destiladas, como a cachaça, envolve uma série de cuidados, desde o preparo do caldo de cana até a fermentação. Segundo ele, o processo exige condições ideais, tanto para os micro-organismos quanto para o resultado final.
“Nós colocamos o caldo de cana em uma condição ideal, corrigimos alguns fatores para que o micro-organismo consiga trabalhar melhor. Ele vai consumir especificamente o açúcar e produzir várias substâncias, principalmente o etanol. Depois disso, o produto passa por etapas de destilação, padronização, envelhecimento, análises e engarrafamento. Todo o processo é acompanhado de perto e segue normas rígidas.”
No entanto, Cláudio alerta que o metanol também pode surgir naturalmente em pequenas quantidades dentro do processo fermentativo e, por isso, é monitorado por lei.
“O metanol sempre esteve presente em pequenas quantidades, porque é um subproduto natural da fermentação. Mas existe legislação do Ministério da Agricultura que limita sua concentração a 20 mg por 100 ml de etanol produzido. Quando está dentro desse limite, o corpo metaboliza sem prejuízos. O problema é quando há fraude: em alguns casos recentes, bebidas adulteradas apresentaram 40% de metanol em um litro. É uma quantidade altíssima e incompatível com qualquer processo natural.”
O professor enfatiza que essas ocorrências não são falhas da indústria regular, mas sim fraudes intencionais.

Foto: Governo de São Paulo/Divulgação.
“O que temos hoje é adulteração. É uma fraude. Não se trata de erro de processo. O metanol adicionado não vem do processo fermentativo, mas de manipulações criminosas. A legislação é clara e as indústrias registradas são rigidamente fiscalizadas. Portanto, quando se vê casos de intoxicação, trata-se de bebida falsificada.”
Cláudio também explicou, com didatismo, a diferença entre a metabolização do etanol e do metanol pelo corpo humano:
“O corpo humano metaboliza o etanol de forma eficiente, dentro de limites. Quando se consome em excesso, surgem problemas hepáticos, neurológicos e psicológicos. O metanol, porém, é diferente: ele é altamente tóxico mesmo em pequenas doses, podendo causar cegueira, convulsões e morte. O que acontece nos casos de fraude é que o produto chega ao consumidor com doses elevadíssimas de metanol, sem qualquer controle.”
O papel da Engenharia de Alimentos no controle do processo industrial
Durante a entrevista, o professor Cláudio ressaltou o papel central da Engenharia de Alimentos na prevenção de contaminações e adulterações, descrevendo de forma minuciosa as etapas do controle de qualidade desde o campo até o envase da bebida.
“Quando pensamos em um processo natural e bem organizado, existem controles de qualidade muito rígidos. Nas bebidas fermentadas e destiladas onde o metanol pode aparecer realizamos análises constantes. As indústrias registradas são fiscalizadas pelo Ministério da Agricultura, que exige parâmetros técnicos e tributos devidamente controlados. Em algumas destilarias, inclusive, há lacres na saída do destilado, que registram o volume e garantem rastreabilidade.”
Segundo o professor, o engenheiro de alimentos trabalha em todas as fases da produção. Desde o cultivo da matéria-prima, ele interage com o agrônomo e define parâmetros de colheita, aplicação de defensivos e adubação, garantindo que nada prejudique o trabalho dos microrganismos durante a fermentação.
“O controle começa no campo. O engenheiro conversa com o agrônomo sobre defensivos agrícolas, períodos de descanso da lavoura e limpeza do material colhido. A cana, por exemplo, deve vir sem folhas verdes, terra, pedras e insetos. Qualquer resíduo pode interferir no processo e afetar o desempenho do micro-organismo que vai produzir o etanol.”
“Depois de colhida, a matéria-prima passa por moendas e processos de decantação e filtragem, para eliminar impurezas. Todo o ambiente deve estar limpo e bem iluminado. O engenheiro acompanha cada etapa: formula o caldo, controla o teor de açúcar, regula a fermentação e analisa os compostos formados. Se o produto apresentar metanol fora do padrão, ele é reprocessado muitas vezes destilado novamente antes de ser liberado para o consumo.”
O professor destacou ainda que a responsabilidade ética do profissional é parte essencial da segurança alimentar:
“Quando o engenheiro detecta qualquer irregularidade, ele tem o dever de agir. É um compromisso com o consumidor e com a própria profissão. Existem métodos de correção, como a bi destilação, mas nunca se deve permitir que uma bebida fora do padrão chegue ao mercado.”
Mercado, consumo e confiança do público
Apesar da preocupação nacional, a gerente Ana Paula, do Supermercado Leve, relatou que não houve impacto significativo nas vendas de bebidas. A gerente informou que o público buscou esclarecer dúvidas com os funcionários sobre a procedência dos produtos, mas manteve o comportamento de compra habitual.
Segundo o estabelecimento, houve aumento nas vendas de bebidas fermentadas, como cervejas, e também crescimento nas bebidas não alcoólicas, mas as vendas de destilados seguiram o padrão normal. O mercado reforçou que adquire seus produtos de fornecedores seguros, com visitas periódicas de representantes das indústrias, garantindo transparência no processo.
Enquanto isso, em outros estabelecimentos e bares, o cenário foi de maior cautela e exigência. O público passou a priorizar locais com certificações, laudos técnicos e notas fiscais expostas, em busca de segurança e confiança.

Foto: Reprodução/TV Globo
“ Eu como consumidor estou um pouco mais e exigente quanto à origem das bebidas”, relatam clientes. “Estou dando preferência por estabelecimentos com programas de qualidade e certificação. Muitos bares e restaurantes passaram a exibir laudos das bebidas para recuperar a confiança do cliente.”
Pesquisas apontam que parte da população optou pela abstinência fora de casa, enquanto outros migraram para bebidas consideradas mais seguras, como vinhos e cervejas industrializadas. A exceção ficou por conta dos jovens de 18 a 34 anos, que se mostraram mais dispostos a continuar consumindo álcool socialmente, embora mais atentos à procedência das bebidas.
Educação e segurança do consumidor
Em sua fala final, o professor Cláudio destacou a importância da educação e da informação para o consumidor, alertando que não existem métodos caseiros confiáveis para detectar o metanol.
“Infelizmente, o consumidor não tem como perceber a presença de metanol a olho nu. Esses testes que circulam nas redes sociais, como o do pão ou da chama invisível, não são seguros. A identificação só pode ser feita por análise laboratorial com equipamentos específicos.”
O professor também comentou que há pesquisas em andamento para criar métodos rápidos de identificação, como canudos e tampas inteligentes, e até QR Codes de rastreabilidade nas garrafas. Esses recursos, segundo ele, poderão ajudar o consumidor a verificar a origem e o lote das bebidas diretamente no ponto de venda.
“O que se discute hoje é a implantação de um QR Code que contenha as informações de fabricação, registro no Ministério da Agricultura e nome do responsável técnico. Isso permitiria ao consumidor conferir se a bebida é segura. Já temos tecnologia para aplicar isso, o que falta é tornar obrigatório.”
O professor concluiu com uma reflexão sobre a importância da confiança e da responsabilidade coletiva:
“A melhor ferramenta de segurança é a informação. O consumidor precisa saber o que está bebendo, de onde vem e quem produz. Assim, conseguimos proteger a saúde pública e valorizar quem trabalha corretamente na indústria de alimentos.”
