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Por décadas, as feiras livres de Goiânia têm sido espaços de encontro, cultura e sustento. Entre as bancas coloridas e os cheiros de frutas, verduras e comidas típicas, um grupo de mulheres se destaca pela presença marcante e pela força que sustenta esses espaços: as mulheres negras feirantes. Elas carregam nas mãos o peso do trabalho e, ao mesmo tempo, a potência da resistência e da tradição.
Atualmente, Goiânia conta com 122 feiras livres cadastradas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia (Sedetec). Em meio a esse cenário, é comum encontrar mulheres negras que comandam bancas de alimentos, roupas, temperos e artesanato. Muitas delas estão nas feiras há décadas, outras herdaram o ofício de suas mães e avós – uma herança que mistura história familiar, economia popular e ancestralidade.
Apesar de sua presença significativa, essas mulheres enfrentam desafios que vão além das longas jornadas de trabalho. A informalidade, a falta de políticas públicas específicas e as desigualdades raciais e de gênero ainda marcam o cotidiano de muitas delas. O reconhecimento do papel das mulheres negras nas feiras é, portanto, também um ato de valorização da economia popular e da cultura afro-brasileira. Quando perguntadas sobre os preconceitos que enfrentam diariamente, as respostas se assemelham à de Tatiana Gonçalves de Jesus, de 39 anos, que trabalha semanalmente em uma feira do bairro Itatiaia em Goiânia.
“Nossa, é difícil responder essa pergunta, porque assim, se a gente pensar um pouco, a dificuldade é grande, porque não é todo lugar que mulher negra tem espaço. Primeiro, o preconceito existe só dela ser mulher. E ser preta ainda? Nossa senhora! A pessoa já olha assim, já com aquele preconceito, muitas vezes com aquele olhar de que se a gente é limpinha. Questão de confiança também, porque algumas pessoas ficam com o pé atrás e pensam: todo preto é ladrão, não presta.”
Apesar do preconceito ser comum, Marileni Silveira, de 45 anos, explicou que na feira em que ela trabalha atualmente não houve nenhum tipo de problema envolvendo preconceito, situação diferente de feiras anteriores, nas quais alguns homens já a mandaram sair de lá.
“Nesta feira aqui não tive problema, mas em outra já mandaram a gente sair, dizendo que não era o nosso lugar. Geralmente, são mais homens brancos que fazem esse tipo de comentário.”
As feiras livres, mais do que pontos de comércio, são espaços de convivência e identidade. A atuação das mulheres negras nesses locais revela não apenas a busca por sustento, mas também a construção de um espaço de pertencimento. Elas transformam o ato de vender em uma forma de resistência — preservando tradições, receitas e saberes que atravessam gerações. Para Maria Eduarda, estudante de Direito da Universidade Federal de Goiás e grande frequentadora das feiras de Goiânia, a presença dessas mulheres é muito importante.
“Acho fundamental essa presença de mulheres negras nas feiras, porque demonstra uma forma de superação, dá muito orgulho ver essas mulheres empreendendo e ganhando seu espaço no comércio local de uma forma tão bonita e rica.”
Ao caminhar pelas feiras da capital, é possível perceber que essas trabalhadoras representam uma história viva de luta e superação. Cada banca é uma narrativa, cada produto vendido carrega um pouco da memória de quem, mesmo diante das dificuldades, segue ocupando e fortalecendo um espaço historicamente popular e diverso. Apresentam também uma grande empolgação ao tratarem do futuro das feiras. Suzane Araújo Silva, que é apicultora e trabalha em duas feiras orgânicas vendendo mel e produtos a base de cera de abelha, própolis e pólen, ressalta o espaço para o crescimento das feiras.
“Eu acredito que a feira tem muito pra crescer, a região está cheia de grandes artistas, grandes pessoas que têm muito a agregar. Talvez devesse ter mais pessoas da agricultura familiar, trazer mais alimentos orgânicos”.
Apesar da importância econômica e cultural das feiras livres para a cidade, muitas feirantes relatam a falta de apoio da prefeitura. A manutenção dos espaços, a infraestrutura precária e a ausência de políticas públicas específicas tornam o trabalho ainda mais desafiador. Segundo relatos, não há auxílio municipal para questões básicas, como limpeza adequada, segurança, banheiros ou cobertura para os dias de chuva. Como é o caso da Feira Universitária que acontece aos domingos, que não tem banheiros para a população e os feirantes.
Essa ausência de suporte público acaba recaindo diretamente sobre as trabalhadoras, que muitas vezes se organizam entre si para resolver problemas estruturais, reforçando o papel de solidariedade e união entre essas mulheres que sustentam as feiras de Goiânia.
Durante a apuração na Feira Hippie, considerada a maior feira livre de Goiânia e uma das maiores da América Latina, foi possível perceber outro aspecto marcante: o medo das trabalhadoras em se expor. Muitas mulheres negras que atuam no local preferiram não conceder entrevista, temendo represálias. Algumas relataram o receio de que, ao falar com a imprensa, suas cargas pudessem ser roubadas ou que os chefes descobrissem e as repreendessem.
Grande parte das mulheres negras que trabalham nas feiras livres de Goiânia chegaram a esse espaço por falta de oportunidades no mercado formal de trabalho. A ausência de políticas de inserção profissional e a dificuldade de acesso à educação e à qualificação técnica limitam as possibilidades de emprego com carteira assinada. Assim, as feiras acabam se tornando uma das poucas alternativas de renda disponíveis. Como afirma Marilene Silveira.
“Vim pra feira porque eu não conseguia trabalho por fora, por falta de qualificação, de curso e muito preconceito. Aí eu vim pras feiras, que também não é uma situação muito fácil”.
De acordo com dados do Blog do IBRE, no primeiro trimestre de 2022, quase metade das mulheres negras ocupadas estava em postos informais, uma taxa superior à média nacional e também à registrada entre homens e mulheres brancos. O levantamento mostra que essa realidade evidencia a desigualdade racial e de gênero, reforçando a presença significativa das mulheres negras em atividades informais, como o trabalho nas feiras livres.
Além disso, para muitas dessas trabalhadoras, a feira representa a principal — e muitas vezes a única — fonte de renda da família. É dali que sai o dinheiro para o sustento da casa, a alimentação dos filhos e as despesas do dia a dia. O trabalho nas feiras livres garante não apenas a sobrevivência, mas também um espaço de autonomia e independência financeira para mulheres, como ressalta Suzane Araújo.
“Quanto à importância da feira para nossa renda, se tornou uma grande oportunidade de entrada de dinheiro e de divulgação do nosso trabalho, e oportunidade de vendas nos outros dias. Se tornou uma oportunidade de crescer mesmo, de aumentar nossa renda familiar.”
Para Tatiane a feira representa seu “ganha pão”. Pois é com o dinheiro desse trabalho que ela consegue sustentar a casa, pagar as contas e realizar suas compras.
