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Em 24 de outubro de 1933, Pedro Ludovico Teixeira lançou a pedra fundamental da nova capital. Impulsionada pela Marcha para o Oeste, Goiânia veio com a ideia do novo: uma capital moderna e revolucionária. Projetada pelo arquiteto Attílio Corrêa Lima, com uma arquitetura moderna inspirada no estilo Art Déco, nasceu a cidade que conhecemos hoje.

Um dos bairros pioneiros da capital é o Centro, envolto por edifícios públicos com valor histórico não só para a cidade, mas para o Brasil. Projetado para ser uma área urbana de uso misto, o Centro conta com teatros, comércio, bares e moradia.

Foto: Reprodução

Entretanto, mesmo com o seu valor histórico, o Setor Central passa por um abandono tanto do governo como da população. Em uma relação dos quinze bairros mais populosos do município, por Censo Demográfico feito pela Prefeitura de Goiânia, vemos que ele ocupava a quarta posição, com 26.782 habitantes, em 1991. Nos anos 2000, ele cai para a sexta posição, com 24.415, e em 2010 ele se mantém na sexta colocação, com 24.204. Porém, no Anuário Estatístico publicado pela Prefeitura de Goiânia em 2025, vemos que o Centro caiu para a 10ª posição em 2022, com 18.609 habitantes.

Para entender esse processo de esvaziamento, suas consequências e implicações, entrevistamos cinco fontes: entre elas, a presidenta do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), Simone Buiate, a professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Maria Ester Souza, o empresário e sócio do Liberté (bar localizado na Rua 8), Heitor Vilela, além da porta-voz da Companhia de Urbanização de Goiânia (COMURG), Hacksa Oliveira, e a também empresária e sócia do Biras (bar localizado na Rua do Lazer),Brenda Paulino Melo.

O que provoca esse esvaziamento?

Esse esvaziamento de centros urbanos é natural e acontece frequentemente em grandes cidades. Segundo Simone Buiate, entre os principais motivos disso estão a falta de moradias adequadas, a insegurança, a deterioração da infraestrutura e a transferência de empresas e comércios para outras áreas. Ela comenta:

“Mas soma-se a isso outras hipóteses. Por exemplo, a gente tem um centro pioneiro, e aí, voltando aqui para Goiânia, a gente vê um desgaste natural da própria administração pública, que não é natural, mas uma negligência. Os olhos vendados enquanto à conservação daquele centro. A gente vê hoje o centro muito degradado, muito sujo, abandonado, um centro sem o cuidado da administração pública. E a gente sabe que, quando temos essa negligência, isso acaba trazendo uma imagem de uma região que não é muito segura, não é agradável para a população residir. E aí eu acho que tem um grande processo que nós mesmos fizemos, a própria administração pública fez, que eu acho que impulsionou esse processo de esvaziamento do centro, que foi a mudança do centro administrativo.”

A professora Maria Ester de Souza acrescenta:

“Então, quando as instituições financeiras são as responsáveis por gerar muitas atividades no entorno delas e elas se deslocam, a cidade se desloca junto. As atividades, o comércio, a prestação de serviço e até um pequeno ambulante vão onde o dinheiro está. Então, houve um momento, em muitas das capitais, em que as instituições financeiras precisaram se adaptar a novos espaços, fazer edifícios novos. Quando chegou o cabeamento de internet, por exemplo, um edifício muito antigo não conseguia se adaptar. Você tinha que destruir ele inteiro para poder abrir uma tubulação. Então, você vai e constrói um novo em outra região.”

Outro problema é o alto valor das moradias no centro. Heitor Vilela relata:

“Eu acho que o centro hoje são apartamentos antigos que demandam muita manutenção e têm um custo muito alto, porque está gentrificado. Hoje, uma quitinete no centro é o mesmo preço de um apartamento de dois quartos em outro bairro da cidade, mais afastado. Então, eu acredito que o centro é caro e não entrega a qualidade e os benefícios que outros bairros entregam. Antes, o centro atraía moradia e trabalho da mesma forma, porque abriam-se empresas aqui, mais empresas do que só bares ou grandes lojas de departamento. Tinha escritórios, tinha muita coisa. Mas o aluguel, a especulação imobiliária, fez com que encarecesse muito vir morar ou abrir um negócio no centro.”

Por mais que seja difícil abrir um negócio no centro hoje, o seu uso imobiliário é majoritariamente para o comércio. Simone Buiate relembra:

“O centro de Goiânia era o mais adensado, o que tinha mais gente morando. Ele foi perdendo grande parte dessa população. Então, ele precisa se tornar, de novo, um centro atrativo para as pessoas morarem, porque esse deslocamento de pessoas acaba gerando uma concentração muito grande de comércios e serviços. Essa concentração sempre resulta numa atividade que fica restrita àqueles horários das 8h às 18h. Depois desse horário, você tem um abandono completo, porque as pessoas se deslocam para as suas residências. Então, é preciso ter esse uso misto. Hoje, a gente tem um desequilíbrio entre esse…”

Tentativas de revitalização

Devido a esses fatores, muitas tentativas de diferentes governos buscaram revitalizar o centro de Goiânia. Dentre elas, temos o Projeto 21, elaborado em 1998, e mais recentemente o Projeto Centraliza Goiânia. Entretanto, todos possuem falhas e acertos, e nenhum foi totalmente implementado.

“Todo programa que vem para trazer alguma coisa para o centro, teoricamente, é bom. E os primeiros, tem esse Cara Limpa, tem um da década de 2000, tem um dos anos 90, todos são excelentes. Onde está a limitação que faz com que ele não dê certo? Ele é um programa feito num gabinete, por uma pessoa especialista. Esses programas não conversam com as pessoas. Eles simplesmente têm uma ideia para o centro e tentam executar.”

Maria Ester Souza

Existiram muitas tentativas de retomada do centro, para que o bairro volte a ser um lugar atrativo para a população. A Rua do Lazer, nos anos 80, era a rua mais boêmia da cidade. O centro era lugar de lazer; não existia shopping na cidade. As pessoas vinham ao centro comprar roupas, passear pelos monumentos históricos, frequentar o teatro e, principalmente, morar, pois no centro tudo era mais próximo e de fácil acesso. Entretanto, as pessoas ouvidas pelo Lab Notícias relatam um abandono por parte do poder público, que investiu em outras pontas da cidade e esqueceu de preservar a essência da nossa capital.

“Não existia shopping center na cidade. A galera vinha na Galeria Póvoa para comprar calçado na Casa do Lazer, na Carmen Steffen… Enfim, tudo se voltava para cá. Então, eu acho que essa descentralização das cidades dificulta mesmo a promulgação do centro. E hoje a gente não vê esse apoio da prefeitura.”

Brenda Paulino Melo

“Eu acho que eles falharam pelo fato de isso não ser pauta. Isso não era importante para o gestor. Vamos pegar um prefeito de 20 anos atrás, era o Iris; 30 anos atrás, era o Iris também; 10 anos atrás, o Iris também. Nunca, para ele, isso foi um projeto. Isso nunca foi interessante. Então, nunca vai para frente. Se tivessem pegado uma equipe e falado: ‘Vamos executar agora’, teria sido executado. Assim, talvez tivéssemos uma cultura de fachada limpa e tudo mais. Mas não é exatamente o que interessa fazer.”

Maria Ester Souza

Centraliza

O Projeto Centraliza busca a requalificação urbana do Setor Central. Uma das suas medidas são abonos fiscais a quem reformasse ou adquirisse moradia no setor. Porém, o projeto ainda tramita na Câmara Municipal de Goiânia.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) fez alguns apontamentos sobre o programa.

“Tinha alguns artigos que nos preocupavam. Primeiro, um incentivo muito grande para a demolição. Então, lotes que fossem convertidos, por exemplo, em áreas de estacionamento, teriam isenção fiscal de 15 anos de IPTU. Quem fosse morar nessas casas ou nesses edifícios, etc., não teria a mesma isenção fiscal, o que seria um incentivo muito grande para a demolição de edifícios, principalmente casas. E sabemos que, quando pensamos que algum empreendedor vai olhar para o centro novamente, estou dizendo empreendedor incorporador, ele vai querer construir o máximo de habitações por metro quadrado para conseguir ter uma viabilidade econômica. Então, essas casas deixam de existir e se tornam, possivelmente, grandes estacionamentos.”

Simone Buiate

O CAU-GO também aborda questões de adensamento desordenado, acessibilidade, além da retirada de fiações aéreas e transformações paisagísticas, e o pedido de projetos para o Parque Mutirama e Bosque dos Buritis. Outro problema desses benefícios fiscais é que podem beneficiar mais grandes corporações do que os empreendedores que já estão no centro há muito tempo. Além disso, a burocracia para conseguir esses benefícios deve ser reduzida.

“Beneficia mais grandes investidores. O meu espaço aqui tem 200 metros quadrados; um shopping, uma galeria, uma grande loja, pagam muito mais IPTU. Mas é claro, toda ajuda é bem-vinda. Só que, realmente, é o que vai ajudar que novos investidores venham ocupar o centro, principalmente na parte da noite? Acredito que não, mas ajuda. O Centraliza foi fatiado, ele foi desmembrado, e várias partes dele nunca chegaram a ser efetivadas. Inclusive, eu acredito que a do IPTU é uma delas. Então, assim, eu já estou aqui no centro desde 2018, e nunca deixei de pagar IPTU. É reformei tudo.”

Heitor Vilela

Brenda complementa:

“Estamos em 2025 e, até agora, nunca recebemos esse tipo de benefício. Então, é uma complicação. A burocracia é uma grande complicação também. Acreditamos que a redução dessa burocracia para conseguir esse tipo de incentivo seria incrível. Hoje, a gente encontra dificuldades, inclusive com a legalização dos bares que já existem. Um fica jogando para o outro, e isso eu falo em relação aos órgãos fiscais. Vamos na Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), a AMMA joga para a Secretaria Municipal de Eficiência, que joga para outra, e a gente não consegue a legalidade de fato.”

Brenda Paulino Melo

Outro problema, tanto do Centraliza como de outros projetos de revitalização do centro, é a falta de participação da população. Os especialistas ouvidos pela reportagem apontam a importância de ouvir os moradores da região para saber que tipo de comércio eles necessitam, se a infraestrutura da cidade atende às suas necessidades, pois qualquer pessoa que vive em um bairro precisa de uma UPA, de escolas, CMEI, lotérica, além de atividades de lazer. O centro conta com algumas dessas necessidades; outras existem, mas são precárias ou sem o devido investimento.

No Anuário Estatístico divulgado recentemente pela Prefeitura de Goiânia, é disponibilizado um mapa interativo da cidade. Nele, conseguimos identificar a quantidade de equipamentos de educação (escolas, CMEI, etc.) e assistência social (CRAS, CREAS, etc.) de um bairro. Vemos no mapa que não existe escola( representada pela casa amarela) no centro, apenas nos arredores.

“Uma política de ocupação do centro tem que partir da habitação, do estímulo à habitação, e depois do atendimento a essa população. Se você mora num lugar, o que você quer que tenha nesse lugar? Uma padaria, um açougue. Você quer que tenha um posto de atendimento público, uma escola. Praticamente não tem escola no centro mais. Então, isso traria realmente vitalidade.”

Maria Ester Souza

Não é sobre colocar a Vapt Vupt nos bairros, isso tem que ter, tem que ter essa acessibilidade. Mas é sobre retomar os daqui também. As loterias, não se vê loteria mais no centro, isso é um absurdo.

Brenda Paulino Melo

“E outro ponto é que faltou a população participar do processo, a população que mora no centro. As pessoas falam assim: ‘Ah, mas quase não tem gente’. Ainda tem gente morando no centro, e tem muita gente, só precisa de mais gente. Mas a população do centro não foi ouvida para saber o que eles queriam, o que eles achavam que poderia melhorar a condição de vida deles. E, às vezes, você pensa que vai colocar um centro gastronômico, mas não é isso que a população precisa. Ela precisa, às vezes, de uma outra atividade, precisa de um serviço público. Então, é necessário conhecer essa realidade do território. E isso não só para o projeto Centraliza. Goiânia tem um histórico grande de não escutar propriamente a população para a construção dos seus projetos.”

Simone Buiate

Patrimônio Histórico

Outro aspecto importante, quando falamos de revitalização, é o patrimônio histórico e arquitetônico presente no centro da cidade. Goiânia tem um total de 22 edifícios tombados, como o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, o Lyceu, o Coreto e a Torre do Relógio. São de extrema importância para a história goianiense é necessário preservá-los e valorizá-los.

Dentre as vinte e duas, catorze se localizam no Setor Central, então é impossível pensar em tornar o centro atrativo e não considerar esse patrimônio.

Lista dos 22 bens tombados (Art Déco)

  • Palácio das Esmeraldas
  • Centro Cultural Marieta Telles Machado (antiga Secretaria Geral)
  • Palácio/Procuradoria (antigo Fórum e Tribunal de Justiça)
  • Tribunal Regional Eleitoral
  • Delegacia Fiscal (atual sede IPHAN‑GO)
  • Chefatura de Polícia e Cadeia Pública (antiga)
  • Museu Pedro Ludovico (Residência de Pedro Ludovico Teixeira)
  • Museu Zoroastro Artiaga (antigo Departamento Estadual de Informação)
  • Teatro Goiânia
  • Coreto da Praça Cívica
  • Obeliscos e Fontes Luminosas da Praça Cívica
  • Torre do Relógio (Av. Goiás)
  • Estação Ferroviária de Goiânia
  • Grande Hotel (Av. Goiás)
  • Goiânia Palace Hotel (Av. Anhanguera)
  • Colégio Estadual Lyceu de Goiânia
  • Mercado Central (Rua 3)
  • Antiga Escola Técnica Federal de Goiás (atual Instituto Federal de Goiás – campus)
  • Antiga Faculdade de Direito / Casa-Tipo Rua 20
  • Grupo Escolar Modelo
  • Igreja do Sagrado Coração de Maria
  • Mureta e Trampolim do Lago das Rosas

Foto: Adelano Lázaro
Fonte: Prefeitura Municipal
Foto:Angela Macário
Foto: Secult-GO
Foto: Leticia Coqueiro

“Eu acho que o centro tem um potencial cultural muito grande. Se a gente parar para pensar, temos, para além dos edifícios tombados, um acervo arquitetônico de grande importância que, se não for reconhecido pela população, e isso é importante, ele precisa ser reconhecido pela população como um acervo que fez parte da construção histórica do centro. Não apenas esperar o tombamento. A gente pode reconhecer esses edifícios como parte integrante dessa história e transformar isso num roteiro cultural, num roteiro histórico.”

Simone Buiate


“Ninguém nunca quis derrubar os monumentos que são a Torre do Relógio, o Coreto e o Teatro Goiânia. Ninguém nunca quis derrubar isso. Isso é Art Déco. Então, o Grande Hotel é mais modernista do que Art Déco. E o que era muito modernista, muito interessante, tudo foi demolido, como casas. E tem algumas casas modernistas em pé ainda, na Praça Cívica, à custa de alguém que não quer que ela seja derrubada.”

Maria Ester de Souza

“Tem um atrativo histórico, arquitetônico, inclusive turístico. Todo centro da capital é um local turístico, no Brasil inteiro. Por que Goiânia não é? Porque o centro ainda não teve, porque a cidade de Goiânia não notou o potencial turístico. E turismo envolve grana.”

Heitor Vilela

Reocupação do centro

O centro, em especial a Rua 8 e a Rua do Lazer, protagonizaram uma reocupação no setor. Esses bares são o ponto de encontro da população goianiense, principalmente após eventos culturais. O centro tem a sua utilização máxima entre as 08h e as 18h, pois é quando os comércios estão abertos; as pessoas estão ou comprando, ou trabalhando, ou em uma atividade cultural, seja no Teatro Goiânia ou em outros locais. Mas, após esse horário, é comum o centro esvaziar não porque não há moradores; na verdade, há, e muitos, mas porque o comércio noturno era escasso e não tão frequentado.

Fonte: Acervo Pessoal Heitor Vilela

Com a diversidade de estilos de bares, musical e, principalmente, do público, esse ponto se tornou atrativo a toda Goiânia e começou a receber visibilidade nas redes sociais, através de vídeos postados em plataformas como o Instagram e o TikTok. Isso traz visibilidade também ao centro e faz os comerciantes irem atrás de melhorias para o bairro.

Fonte: Acervo Pessoal Heitor Vilela
Foto: Alex Malheiros

O ambiente noturno era extremamente complicado, porque havia focos de concentração de pessoas nos teatros ou nas casas noturnas, mas o centro era vazio à noite, o que gerava uma questão de segurança uma insegurança para quem frequentava esses teatros e essas casas, porque não havia um movimento circular, apenas em pontos focais.

Heitor Vilela

O fluxo de clientes do Liberté é feito pelas pessoas que vêm consumir esse movimento. Não só da Liberté, como, eu acredito, da maioria esmagadora dos outros bares da Rua do Lazer e da Rua Oito. Porque o que acontece? Aqui se formou, naturalmente, de uma forma muito espontânea e simples, um espaço de acolhimento mais à esquerda, onde você pode existir da forma que é. Então, vêm pessoas travestis, vem a comunidade negra, vem a comunidade gay, vem skatista, vem gótico, vem todo mundo. E você pode se manifestar e curtir a presença na rua, o local de encontro, sem se preocupar em sofrer algum tipo de violência por ser quem você é.

Heitor Vilela

Quando o Bira chegou, não tinha nada nesse local. Era um local extremamente marginalizado, que era tomado por tráfico de drogas; havia muitas pessoas em situação de rua, muitos usuários de entorpecentes, não tinha iluminação. A iluminação veio por conta dos bares e, logo em seguida, depois de muito ofício, muito encher o saco da prefeitura, eles vieram arrumando os postes que não estavam arrumados. Então, a gente teve essas problemáticas. Hoje, não hoje a gente já encontra famílias vindo, principalmente na parte alta da Rua do Lazer. A Rua 8 ainda encontra algumas pessoas mais underground, a galera mais jovem. Aqui a gente encontra mais família mesmo. Vê pessoas underground, pessoas da juventude, vê também. Mas aqui a gente encontra senhores de idade, uma galera de 60 anos que vem curtir um chopinho; a gente encontra pais de famílias mais antigas, com filhos que já têm até outros filhos, ou seja, os seus netos vêm assistir também.

Brenda Paulino Melo

Mesmo com o alto fluxo de pessoas nesses locais, eles ainda enfrentam problemas como falta de iluminação, segurança, limpeza adequada após os eventos, além da presença de muitas pessoas em situação de rua. Algumas iniciativas foram tomadas pela prefeitura, juntamente com a COMURG.

“A Comurg vem desenvolvendo um trabalho de conservação na parte da limpeza, da urbanização e do paisagismo. Algumas intervenções de obras de infraestrutura, principalmente em pontos como a Rua do Lazer, Avenida Goiás… Nós estamos intensificando a varrição na região central, com equipes no período diurno e noturno. Essa varrição não acontecia em dois turnos; agora ela está intensificada, com um número de equipes maior, para atender tanto na parte diurna quanto na noturna. Esse é um ponto que a gente melhorou. Outro fator é a questão da manutenção das lixeiras e dos bancos. As lixeiras públicas, para pequenos resíduos, nós também recentemente instalamos novas na Avenida Goiás, na Rua 8, Tocantins, Anhanguera. Então, a gente tem feito esse trabalho de manutenção e conservação das lixeiras. Os bancos da Avenida Goiás recentemente passaram por revitalização. A Rua do Lazer, em específico, recentemente nós também fizemos manutenções naqueles postes meio retrô, de energia e luz, de lâmpada. A iluminação no centro é feita pela SEINFRA, mas, na Rua do Lazer, a gente tem um cuidado especial com aqueles pontos de Art Déco.”

Hacksa Oliveira

Eu, como empreendedora, espero que isso se preserve durante um bom tempo. Infelizmente, eu preciso que fique bem claro: não foi feito por iniciativa da prefeitura. Fomos nós, enquanto empreendedores, que fomos com o ofício e pedimos: “Por favor, COMURG, dá para arrumar os postes? Dá para manter a limpeza? Limpa Gyn, vamos recolher o lixo certinho, vamos colocar os contêineres para colocarmos o lixo.” Não foi nada da prefeitura. Então, assim, a gente acredita que, com o apoio da mídia, principalmente, o apoio da população e com muita força de vontade por nós que estamos aqui, de ficar lá enchendo o saco, isso pode continuar.

Brenda Paulino Melo

A gente provocou uma movimentação e essa revitalização, não gosto muito dessa palavra, acredito que é uma reocupação do centro da cidade, que tudo quanto é político, nos últimos dez anos, prometeu fazer. Então, poucos comerciantes fizeram isso de forma orgânica. A gente veio aqui e fez. Então, o mínimo que esperamos é um apoio da Prefeitura e do Estado para garantir a segurança. Todo lugar que tem seis, oito mil pessoas numa noite precisa de policiamento, precisa de caçamba de lixo, precisa de uma limpeza em horário especial, igual é feito nas feiras, igual à Feira da Lua. Então, a gente precisa que a Prefeitura , que já está dando apoio para nós, isso é importante frisar, que a gente foi abraçado recentemente pela Prefeitura, mas a gente precisa de mais. A gente precisa de uma atenção para esse espaço que vem sendo hoje o maior ponto de encontro da juventude goiana e a rua mais boêmia da cidade.

Heitor Vilela

Impactos

Essas iniciativas são vistas de diferentes formas por especialistas. Alguns acreditam que são temporárias, pois trazem a população para o centro, mas não para morar, apenas para lazer — e não é isso que uma revitalização significa. É preciso, sim, ter esses espaços, mas a revitalização deve partir da habitação.

Outros acreditam que são medidas que ajudam a população a visitar o centro e ver que ele é seguro, que tem gente morando e indo para práticas de lazer e cultura, e isso transforma como vemos o centro.

“Eu acho que ela é extremamente importante. Primeiro, porque ela leva a gente para lá; segundo, porque ela traz uma ideia de que o centro pode ser um lugar muito bem utilizado. Primeiro, porque ele é rico, rico porque tem uma diversidade de uso, tem uma diversidade cultural, então tem uma série de coisas e desmistifica um pouco aquela ideia de que é uma região que está abandonada, de que é uma região que não serve para nada.”

Simone Buiate

“São fenômenos temporários e superficiais, porque você não tem ali uma ocupação legítima do morador, vamos dizer assim, o morador que desce todo dia às 5 da manhã e vai passear pelas ruas, vai andar nas praças e vai comprar numa lojinha. Não, não é isso. O que você tem é venda de cerveja. O cinema praticamente quase fechou por causa disso, por causa da falta de controle, da gestão, de ir e fazer uma fiscalização, fazer uma limpeza pós-ocupação. Então, é temporário, na minha visão. Virem mais pessoas para tomar cerveja é uma coisa. Virem mais pessoas para viver no centro é o que faz o centro ter vitalidade.”

Maria Ester de Souza

Todos esses fatores precisam ser abordados e desbravados para que realmente aconteça uma revitalização no centro. A Prefeitura tem que fazer um projeto que dialogue com as pessoas que vivem no centro, com os comerciantes, com quem vai para atividades culturais. Além de preservar os edifícios históricos, é necessário avançar, mas podemos também preservar e melhorar o que temos. Para isso, a Prefeitura de Goiânia, juntamente com a população, precisa olhar para o centro e querer retomar o que ele já foi um dia.

É importante conhecer o patrimônio histórico presente no centro, suas atividades de cultura e lazer, a população que habita ali, e, para isso, é vital um reconhecimento do centro como parte da história dos goianienses, tanto pela população quanto pelo poder público.

É uma região do território que carrega toda a nossa história da construção, não só da nova capital do estado de Goiás, mas tem uma história política, uma história social, tem uma importância por trás da materialização do desenho que o Attilio fez. A gente corre um risco muito grande de cometer os mesmos erros: de revitalizar o centro e esse centro não dar certo, de cometer os erros de outros centros que foram revitalizados e não chegaram no que se esperava, ou de ter uma especulação imobiliária, que a gente já tem e isso piorar. Então, se não reconhecermos essa história, não dá valor a essa história, passamos a ser um povo sem memória, e um povo sem memória está muito propício a cometer erros.

Simone Buiate

Tem que ser feita uma educação patrimonial na gestão, não na população. Porque a população usa os espaços. Se ela usa, desgasta. À medida que a gente senta nesse banco, que caminhamos, que há o carro passando, o transporte público passando, nesse momento há um desgaste natural. Toma sol, toma chuva. Então, o fato de estar lá e de existir não é responsabilidade, por exemplo, somente da população que não gosta, que picha. Não. É a gestão que tinha que ter educação patrimonial, que tinha que entender o que é um acervo Art Déco e modernista e ela mesma preservá-lo.

Maria ester de Souza

“Vem conhecer, vem mais cedo, vem numa quarta, na quinta. Aí, se você curtir, vem na sexta e no sábado, que é o dia que bomba. E, assim, conheça a história do centro, procure saber quem está aqui, olha a programação do Teatro Goiânia, vê o que está rolando no SESC. Sabe, a Vila Cultural Cora Coralina tem exposição que muda a cada dois meses, tem sarau, tem discotecagem, tem show, tem forró, tem o Mercado 74, tem comida boa, tem comida italiana, comida contemporânea, sempre tem de tudo. Tem antiquário, tem skate, se você tem medo, procure saber o que acontece. Alguma coisa vai te atrair. Tem coisa de dia, tem coisa da noite, tem coisa de madrugada, dá para você vir em vários locais, em vários períodos do dia. E, assim, o centro não é mais violento que qualquer outra parte da cidade, não. Aqui tem todos os problemas urbanos que outros bairros, inclusive os bairros nobres. Se você não curte só sertanejo, vem aqui, pode trazer seu filho, tem lugar para ele também.”

Heitor Vilela

 

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