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O que começou como um ponto de encontro entre amigos vizinhos no bairro Vera Cruz tornou-se, ao longo dos anos, um dos principais centros de expressão cultural da periferia de Goiânia. O Vera Cult nasceu do desejo de reunir pessoas e, hoje, representa os valores do bairro: criatividade, partilhas e pertencimento

Fundada pelos irmãos Rochelle Silva e Raphael Gustavo, o Vera Cult se consolidou, ao longo de mais de uma década, como um importante Ponto de Cultura no bairro Vera Cruz. O espaço reúne pessoas de todas as idades em torno de oficinas, cursos e oportunidades voltadas a diferentes manifestações artísticas: teatro, cinema, moda, rap (do inglês “rhythm and poetry”, ritmo e poesia) e hip hop (também do inglês, “hip” significa “estar ciente” e “hop” remete a “movimento”, unindo consciência e ação). Além das atividades formativas, o ponto de cultura também abriga uma gravadora, a Rua Mix Records, e uma biblioteca.
“Pra falar sobre como surgiu o Vera Cult, tem que falar o que veio antes” disse Raphael em saudação aos seus pais Rosa e Raimundo, em seguida contou do principal valor transmitido por eles: o sentido de comunidade.
“Meu pai participava da associação de moradores e desde cedo a gente foi aprendendo essa coisa de mobilizar pessoas. Eu tinha uns 12 anos quando comecei a organizar campeonato de golzinho, amigo secreto, festa junina… Sempre tivemos essa liberdade de fazer e de criar. Nossa casa vivia cheia: minha mãe preferia receber os amigos lá do que ver a gente longe. E foi assim que ela acabou transformando nossa casa no ponto de encontro da molecada. Foi nesse ambiente que crescemos, aprendendo o valor de reunir pessoas e de nos envolver com a vida comunitária.”
Toda essa trajetória inclui a produção de sete curtas, uma série, e há 10 anos realizam o Favera – Festival Audiovisual do Vera Cruz. Inicialmente, o festival tinha como proposta exibir filmes feitos pela própria comunidade, mas hoje também reúne batalhas de rima, shows, atividades esportivas e oficinas audiovisuais. No núcleo de produção audiovisual escolar, o coletivo ministra oficinas para alunos de escolas e CEMEIs (Centro Municipal de Educação Infantil) do bairro, onde, ao final, as crianças criam seus próprios filmes, que são exibidos na mostra escolar do festival. Sobre ter o acesso à cultura desde a primeira infância, Rochelle, disse que isso impacta diversos aspectos da vida, tanto das crianças quanto de seus pais e familiares.
Neguim da ZO, tem 23 anos, é rapper e trabalha na realização dos projetos do Vera Cult desde 2023, ele contou que acompanha e faz parte da cultura hip hop há 8 anos, e numa batalha conheceu o Favera:
"Através do festival, descobri a cultura dos filmes locais. Pelo Vera Cult, pude conhecer muito do cinema goiano e da cultura circense, o que abriu novos olhares para expressões artísticas que antes eu não enxergava, além de me apresentar muitas pessoas incríveis que trabalham nesses ramos. Posso dizer que a cultura me salvou.”

Início no audiovisual e do Favera
Durante sua formação em publicidade, Raphael cursou uma matéria de audiovisual onde deveria produzir um conteúdo sobre o conto O Vestido Azul (de Carlos Drummond de Andrade). Poderia ser só um vídeo dele lendo, mas ali surgiu seu primeiro curta: “Eu fiz o que eu sempre fazia: Chamei meus amigos. E resolvemos contar a história do ponto de vista de um personagem que não tinha voz na história.” Ele completou dizendo que ficou bem ruim, por outro lado, o professor o incentivou a continuar esse envolvimento, começando por inscrever o filme numa mostra universitária, a FestCine.
Frisando que não ficou dos melhores, Raphael contou que todo filme que se inscrevia na mostra era exibido. E ao entrar no site do evento durante o ano, descobriu a existência de um concurso de roteiros goianos, realizado pré-mostra. Ele então pesquisou as seleções anteriores, e o que eles costumavam aprovar: “uma pegada regional goiana”. Escreveu um roteiro, inscreveu-se e foi premiado, utilizando parte do valor recebido para comprar sua primeira câmera. E desde então, dos últimos quatro anos do concurso, ele e sua equipe foram premiados em três. “Continuávamos produzindo nossos próprios filmes, mas, com os editais, conseguimos aprimorar a qualidade dos trabalhos”, afirmou.
Chegou o momento em que eles se deram conta dos vários filmes feitos: “Com exceção do [Era uma vez um] Bandeirante, todos no Vera Cruz”. E de que essas obras ainda não haviam sido exibidas para as pessoas que participaram de suas produções. Foi então que surgiu a proposta de organizar uma mostra de cinema. Em 2014, enquanto participavam de um curso do Ministério da Cultura em parceria com o Senac-DF sobre Produção e Gestão Cultural, Rochelle e Raphael desenvolveram como projeto de conclusão: a Mostra de Cinema Favera, com o objetivo de promover a conexão de produções audiovisuais entre outras periferias brasileiras.
“No segundo ano a gente já inseriu oficinas formativas e o encontro de fazedores de cultura do Conjunto Vera Cruz e região. Nesse encontro, a ideia era debater nossa atuação e ampliação cultural. E a conclusão dele foi a de que era necessário formalizar um espaço físico - fundamental para abraçar esses projetos: surge a sementinha do Vera Cult.” contou Raphael.
Rememorando, ele completou que “na verdade, o Vera Cult como espaço, começou no fundo da casa de uma das pessoas que compunham o grupo, o Pedrinho. Moravam ele e a mãe. E no fundo da casa deles tinha uma área coberta. Do lado dessa área uma salinha, o estúdio musical dele, onde gravava beats e raps. E todas as nossas reuniões eram lá. Até gravamos cenas de uma série lá…Resgatando, o Vera Cult já era ali, só não tinha o nome de Vera Cult.”
Em 2017, o grupo foi contemplado por meio de um projeto do Fundo de Arte e Cultura de Goiás (FAC-Goiás), processo que possibilitou a formalização do Vera Cult como ponto de cultura. Na ocasião, alugaram a primeira casa para uso do coletivo, espaço que serviu de locação única do curta-metragem “Lily’s Hair”. Todos os cenários do filme foram montados nessa casa.
Assista o curta Lily’s Hair:
Sayid, 27, é MC e trabalha no Vera Cult como parte da organização das atividades culturais. Ele contou que conheceu o ponto de cultura em 2018, ao fazer uma oficina de interpretação para cinema. E que em seguida foi chamado para trabalhar como assistente de produção do Lily’s Hairs – seu primeiro trabalho no audiovisual. Em seguida foi monitor no Favera. Mas teve que passar um tempo longe: "Me formei no ensino médio, e depois fui trabalhar de carteira assinada. Fiquei 4 anos sumido. Até que em 2024 o Rapha me chamou de volta para trabalhar fixo, foi um ano que teve bastante coisa".
Sayid reconheceu que foi no Vera Cult onde seu grupo, RPM MC’s, teve maior visibilidade e mais oportunidades na música. E foi ali que ele aprendeu várias funções no audiovisual, sendo a da produção a que mais se identificou. E completou:
"Minha esposa hoje também integra o Vera Cult fazendo a distribuição de filmes. O filme, depois que ele está pronto, precisa ser distribuído em festivais de cinema por um período, para depois ser lançado publicamente. E o bacana disso é que começamos do zero e tivemos oportunidade de formação gratuita"
Os anos de pandemia foram desafiadores para o Ponto Cultural que tinha acabado de conseguir financiar a sede própria somando investimentos individuais de seus integrantes. Mas Raphael contou que conseguiram se reinventar fazendo projetos online e em um certo momento foram contemplados pela Aldir Blanc. “O financiamento público é muito importante” – relembrou.
Entenda o que é Aldir Blanc
A Lei Aldir Blanc se refere a duas leis principais: a Lei nº 14.017/2020 (Lei Aldir Blanc emergencial criada como medida emergencial durante a pandemia de COVID-19) e a Lei nº 14.399/2022, que institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), tornando-se permanente. Ambas visam apoiar o setor cultural brasileiro através do repasse de recursos federais para estados e municípios.
Rochelle acrescentou que na infância os irmãos não tiveram fácil acesso a experiências culturais, nem no bairro Vera Cruz nem no centro, devido à distância. “Esse acesso tornou-se mais evidente quando entrei na universidade, onde pude conhecer outros espaços e formas de cultura”, relatou. E destacou que atualmente, para seus filhos e para as crianças que participam do Vera Cult, o contato com a cultura acontece de forma espontânea. “A vida deles será diferente da nossa. Terão outras oportunidades, enxergarão o mundo de maneiras distintas e estão à frente da nossa geração.”
Nota: A Vera Cult Ponto de Cultura foi selecionada para o Prêmio Periferia Viva 2025, em uma edição que contou com mais de 2.500 inscrições de todo o Brasil. Nesta etapa do prêmio, as 150 iniciativas vencedoras do Eixo de Iniciativas Populares seguem para a votação popular. A votação já começou e qualquer pessoa pode votar em sua iniciativa favorita entre as premiadas. As 30 mais votadas receberão apoio institucional da Secretaria Nacional de Periferias. Para votar, acesse a Plataforma Nós Periféricos pelo link: https://interativo-mapadasperiferias.cidades.gov.br/login










