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De acordo com a Agência Brasil, um estudo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2014/2015 apontou que 50% dos jovens entre 15 e 17 anos praticaram algum tipo de atividade física no período de 365 dias. É de conhecimento geral que o esporte contribui diretamente para o bem-estar físico e, principalmente, para a saúde mental. Porém, quando o assunto são jovens atletas de futebol, a prática esportiva ganha outra camada: a rotina intensa de treinos e jogos, aliada às cobranças internas e externas – de pais, torcida e dos próprios clubes – pode gerar grande impacto emocional.

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A fase entre os 13 e 20 anos é marcada por transformações profundas, e para quem vive o esporte de alto rendimento, isso se intensifica. Além da ansiedade natural antes das competições e da necessidade de desenvolver habilidades constantes, esses jovens ainda enfrentam pressões que podem afetar sua saúde mental.

Foto: publicação no site do Goiás Esporte Clube (Goiás vence Palmeiras e garante classificação no Brasileirão Sub-20 – publicação 15 de agosto de 2024)

Diante desse cenário, esta reportagem buscou investigar como está a saúde mental dos jovens atletas em Goiânia. Para isso, foram entrevistados dois psicólogos esportivos renomados. A base do Atlético-GO abriu as portas para uma entrevista exclusiva em sua sede, onde foram ouvidos o gerente das categorias de base, um membro da comissão técnica, a psicóloga, uma pedagoga e um atleta do sub 20.

Além disso, a assessoria de imprensa do Goiás Esporte Clube disponibilizou uma nota oficial sobre o tema, contribuindo para ampliar a compreensão sobre como os clubes têm tratado a saúde mental de seus atletas em formação.

O que dizem os Psicólogos Esportivos

Para compreender com mais profundidade as questões emocionais que permeiam o ambiente esportivo, especialmente entre jovens atletas, a reportagem entrevistou dois profissionais da área da psicologia esportiva. O primeiro é Leonardo Levi, 27 anos, psicólogo clínico formado pela PUC Goiás, com especialização em Psicologia do Futebol e do Esporte. Atualmente, ele também cursa pós-graduação em Neurociência do Desenvolvimento Humano.

O segundo entrevistado é Matheus Vasconcelos, natural de Manaus e residente em Maceió, onde atua como psicólogo esportivo no CRB de Alagoas. Especialista na área, ele ocupa o cargo de vice-presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP) e é fundador da Rede Nauru, uma organização que reúne psicólogos esportivos de diferentes regiões do Brasil.

Por que os psicólogos escolheram a área esportiva

A reportagem interrogou os psicólogos respeito do por que escolher a psicologia esportiva. Leonardo Levi conta que sua trajetória no esporte começou ainda na infância, movido pelo desejo – comum a muitos jovens brasileiros – de se tornar jogador de futebol. Ele contou que chegou a atuar nas categorias de base do Vila Nova, em Goiás, do Bahia, em Salvador, e também jogou por dois anos em Portugal. Embora não tenha se profissionalizado, permaneceu no meio esportivo até cerca dos 22 anos, quando decidiu abandonar a carreira de atleta. Foi nesse momento que percebeu que muitos dos fatores que o afastaram dos gramados estavam ligados ao pilar psicológico.

Quando voltou ao Brasil, decidiu que queria continuar trabalhando com o esporte, e chegou a considerar as áreas como educação física, fisioterapia ou até a carreira de treinador. No entanto, optou pela psicologia – especificamente pela psicologia do esporte – por acreditar que poderia ajudar jovens atletas a não desistirem do futebol por questões emocionais, como ele próprio vivenciou. Assim, ingressou no curso de Psicologia em 2020 já com o objetivo claro de atuar na área esportiva. Segundo ele, sua motivação principal sempre foi usar sua experiência como ex-atleta para desenvolver o aspecto mental de outros jovens e impedir que fatores psicológicos os afastem de seus sonhos.

Matheus Vasconcelos contou que sua motivação para atuar na psicologia do esporte surgiu de uma relação de longa data com o ambiente esportivo. Ele explicou que toda a sua infância e adolescência foram vividas dentro do futsal, modalidade com a qual sempre teve grande proximidade. Já na vida universitária, enquanto cursava Psicologia, chegou a ser atleta de mountain bike, conciliando a prática com os estudos. Por isso, ele afirma que sua trajetória pessoal sempre foi marcada pelo esporte em diferentes formas.

Durante a graduação, ao descobrir a existência da especialidade em psicologia do esporte, decidiu-se aprofundar na área e buscar formação específica para atuar nesse contexto. Suas primeiras pesquisas acadêmicas foram realizadas no futsal, mas, com o tempo, ampliou seu campo de estudo para o futebol. Segundo ele, essa transição ocorreu de maneira natural, tanto pela familiaridade com os ambientes esportivos quanto pela similaridade cultural entre as modalidades, o que facilitou sua inserção no universo do futebol.

A pressão no cotidiano dos jovens atletas

Leonardo Levi explicou que a pressão surge de todos os lados porque, dentro da lógica dos clubes, jovens atletas muitas vezes são vistos como “mercadorias” que precisam performar para futuramente gerar lucro. Isso já cria uma forte cobrança por desempenho. Além disso, muitos desses meninos carregam expectativas familiares muito grandes: em um país desigual, a família vê no atleta talentoso a chance de uma mudança financeira. Essas pressões externas acabam sendo internalizadas, e o jovem passa a sentir que precisa dar certo para não decepcionar o clube nem a família. Leonardo destaca que muitos desses atletas, do ponto de vista biológico e cognitivo, ainda não têm maturidade para lidar com tanta pressão, e por isso precisam desenvolver ferramentas psicológicas desde cedo para suportar o que vivem no dia a dia.

Matheus Vasconcelos, por sua vez, afirmou que o principal fator de pressão cotidiana é o medo do fracasso. Para ele, a possibilidade de dedicar anos da vida ao futebol e, ainda assim, não alcançar o resultado esperado, torna-se um peso enorme. Esse medo intensifica todas as expectativas – do clube, da família e do próprio atleta – e faz com que qualquer fase ruim seja vivida de forma catastrófica. Matheus reforça que reduzir essa pressão passa pela criação de um ambiente de segurança psicológica: clubes e famílias precisam ser educados e preparados para entender as dificuldades desse processo, oferecendo suporte que faça o jovem se sentir protegido e não ameaçado.

Sobre a pressão por resultados, Leonardo afirma que, analisando pela neurociência, cobrar performance muito cedo não é saudável. Ele defende que o foco deve ser o desenvolvimento, e não o desempenho imediato. Ou seja, primeiro é preciso amadurecer aspectos técnicos, táticos, físicos e psicológicos, para que a performance seja consequência natural desse processo. Para transformar pressão em motivação, Leonardo explica que os atletas devem receber ferramentas psicológicas baseadas em evidências – como técnicas de respiração, concentração, visualização guiada e replay mental – que ajudam a mudar a ótica da cobrança para um processo contínuo de evolução.

Matheus complementa dizendo que um ambiente saudável é possível, desde que exista preparação e segurança tanto por parte do clube quanto da família. Segundo ele, quando o atleta se desenvolve em um contexto onde não há pânico diante de falhas ou resultados negativos, mas sim acolhimento e gerenciamento emocional, a pressão deixa de ser destrutiva e passa a ser administrável. Esse suporte, afirma o psicólogo, é fundamental para que o jovem consiga lidar com as expectativas e com o medo de que “as coisas não deem certo”.

Estudos e o futebol

Os psicólogos destacam que o vínculo entre esporte e educação não é apenas uma escolha pessoal, mas uma exigência formal: leis e federações cobram boletins e comprometimento escolar para que clubes mantenham seus certificados e possam formar atletas. Matheus reforça que, por isso, famílias e jogadores precisam compreender que estudar faz parte do processo formativo no Brasil. Ele acrescenta que habilidades aprendidas na escola dialogam diretamente com o esporte, e que os jovens devem entender essa relação desde cedo.

A legislação do esporte, que engloba a antiga Lei Pelé, é bem clara sobre a obrigatoriedade de que clubes e instituições formadoras realizem o acompanhamento pedagógico. Eles devem garantir o acesso à escola para crianças e adolescentes que estão no esporte e sob tutela da instituição.

Matheus Vasconcelos

Leonardo complementa afirmando que conciliar escola e calendário esportivo é um desafio real, marcado por viagens e jogos, o que muitas vezes leva o jovem a achar que só precisa “saber jogar bola”. Para ele, é fundamental mostrar que a educação fortalece o atleta também dentro do campo: melhora a comunicação, a leitura de jogo, a interpretação de orientações e até a forma de dar entrevistas. Ambos defendem que o estudo não é um problema paralelo ao futebol, mas um elemento indispensável para desenvolver atletas mais completos e preparados.

O papel dos clubes na saúde mental dos atletas

Para criar um ambiente realmente saudável na formação esportiva, Matheus destaca a importância de uma educação para carreira, capaz de orientar o jovem sobre metas, objetivos e o funcionamento do mercado do futebol. Para ele, quando o atleta compreende o contexto em que está inserido, desenvolve consciência e passa a lidar melhor com as demandas do esporte.

Leonardo complementa que um ambiente saudável começa por boas estruturas físicas: dormitórios adequados, espaços de estudo, áreas de foco e lazer. Segundo ele, isso garante conforto e condições mínimas para que o atleta se desenvolva. Em seguida, defende a presença de uma equipe multidisciplinar – psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, profissionais de educação física e médicos – sempre acessível aos jovens.

Outro ponto enfatizado por Leonardo é a mudança de uma lógica de “resultado imediato” para uma lógica de desenvolvimento, considerando pilares físicos, técnicos, táticos e psicológicos. Ele afirma que a performance surge naturalmente quando o foco está no crescimento gradual do atleta. Projetos de metas e recompensas, desde que saudáveis, também ajudam a criar autonomia sem gerar cobranças excessivas.

Sobre ampliar o suporte emocional, Leonardo reforça novamente a importância da estrutura física, da rede de apoio e do diálogo constante entre clube, família e atleta. Para ele, manter o jovem bem acompanhado, com feedbacks claros e incentivo à educação e à saúde mental, fortalece o ambiente psicológico e social.

Matheus acrescenta que o papel da psicologia não deve ficar isolado em uma sala. O psicólogo precisa estar no cotidiano, circulando entre os atletas, presente no campo, no refeitório e nos espaços de convivência. Só assim se constrói confiança e se possibilita oferecer palestras, atendimentos, monitoramentos e conversas que façam sentido dentro da rotina real do atleta.

Quando se trata da transição da base para o profissional, os dois reforçam a necessidade de preparar o jovem com habilidades emocionais e sociais. Matheus destaca desafios como saudade da família, insegurança, pressão externa e gestão financeira, exigindo competências específicas para cada fase da carreira. Leonardo conclui que essa transição é menos traumática quando o atleta foi desenvolvido ao longo dos anos em todos os pilares; assim, chega ao profissional mais preparado para lidar com erros, cobranças e com a intensidade do novo ambiente.

Relação com as famílias

Os psicólogos foram questionados sobre os recentes episódios de comportamentos agressivos de pais em competições das categorias de base. Ambos destacaram que essas atitudes afetam diretamente a saúde emocional dos jovens atletas. Matheus explica que a agressividade dos responsáveis cria um ambiente que impede a expressão saudável das emoções: o atleta passa a acreditar que não pode demonstrar o que sente, se fecha e evita comunicar suas dificuldades, o que pode comprometer seu desenvolvimento psicológico.

Leonardo complementa afirmando que pais e responsáveis são as principais referências dos atletas. Ao presenciarem comportamentos agressivos, crianças e adolescentes – ainda sem maturidade para compreender o contexto – podem interpretar essas ações como modelo ou vivenciá-las como experiências traumáticas. Para além do impacto emocional, o psicólogo destaca que xingamentos e conflitos fora de campo prejudicam o foco durante o jogo, interferindo no rendimento e no desenvolvimento esportivo.

Sobre quais estratégias os clubes podem adotar para orientar as famílias e ensiná-las a contribuir para o desenvolvimento emocional dos jovens atletas, os psicólogos destacam caminhos complementares. Para Matheus, o principal ponto é criar aproximação entre clubes e responsáveis. Ele explica que muitas instituições já realizam ações nesse sentido, como semanas de integração em que os pais visitam o ambiente de treinamento, conhecem o alojamento e mantêm contato com profissionais como assistentes sociais, pedagogos e psicólogos. Para o especialista, essa aproximação fortalece o vínculo, faz com que as famílias se sintam acolhidas e compreendam como a instituição funciona, o que abre espaço para uma participação mais consciente no processo formativo dos atletas.

Leonardo acrescenta que, além da aproximação, é fundamental que os clubes mantenham um acompanhamento constante com pais e responsáveis, oferecendo feedback e estabelecendo regras claras de conduta. Ele ressalta que determinados comportamentos não podem ser aceitos e, caso ocorram, precisam gerar consequências. Para o psicólogo, essa combinação entre “lei e ordem”, psicoeducação e promoção de boas práticas ajuda a orientar as famílias sobre como agir de maneira saudável no esporte, contribuindo para o desenvolvimento emocional dos jovens.

Mas fazer um trabalho em conjunto com o departamento de psicologia para mostrar quais são as boas práticas, entregar feedback, trazer essa ótica não da cobrança por performance, mas sim cobrança por desenvolvimento do atleta

Leonardo Levi

Psicologia é uma ciência cada vez mais necessária no esporte. Foto: André Durão

Entrevista com o Atlético-GO: um panorama completo

Gerente da base – Diego Latorre

Diego Latorre, ex-atleta profissional e atual gerente das categorias de base do Atlético-GO, explicou que o clube conta com um departamento de psicologia e com o apoio da estagiária Mariana. Segundo ele, ela desenvolve diversos estudos com os atletas, realizando processos individuais e em grupo para identificar pontos que precisam de aprimoramento ou maior atenção. Todo o trabalho é cuidadosamente analisado e posteriormente repassado aos jogadores, à comissão técnica e ao próprio gerente.

No momento da entrevista, o gerente das categorias de base informou que havia 28 atletas alojados na sede, número reduzido devido ao período de férias. Durante a temporada, porém, a estrutura comporta entre 40 e 42 jogadores. Ele explicou que muitos atletas vêm de outras cidades ou estados e passam a morar no alojamento, onde realizam cinco refeições diárias, estudam – alguns de forma online, outros presencialmente – e participam de atividades escolares.

O clube também garante momentos de lazer nos fins de semana. Na sede, os jovens têm acesso a uma sala equipada com televisão, jogos diversos e mesa de sinuca, tudo planejado para ajudar no equilíbrio entre a rotina intensa de treinos e o descanso necessário.

O gerente também ressaltou que a equipe da sede mantém uma relação muito próxima com os atletas:

E assim, a a maior, eu digo assim, é a proximidade que a gente tem aqui, porque eu participei de vários clubes. Era muito difícil você ter acesso até o diretor para ele sentar, para ele conversar, para ele falar para você: ‘olha, eu vejo que você pode melhorar aqui, pode melhorar assim’. Eu acredito que hoje aqui a gente é mais próximo deles, essa conexão que nos ajuda a minimizar um pouco essa essa cobrança.

O gerente também foi questionado sobre o caso ocorrido no estado de São Paulo, onde a Federação Paulista proibiu a presença dos pais nos jogos das categorias de base devido a episódios de mau comportamento. Sobre o assunto, ele respondeu:

Hoje, nas categorias de base, a gente não libera os pais assistir o treino. Primeiro porque os pais pressionam muito mais eles [os atletas] do que a gente. Segundo, porque a grande maioria dos pais se sentem treinadores, quando digo pais, digo pais, mães, responsáveis. Então, a gente lida com eles do lado de fora, inclusive a gente já teve problema com isso, por que eles não querem ficar lá fora do portão, para não acompanhar os treinos. É, nos jogos, eu já percebi muito isso, a gente mesmo já fez palestra sobre isso aqui [sobre a forma com que os pais expressão as suas emoções durante o jogo com palavras não consideradas corretas], já trouxe os pais aqui falando sobre isso, falando sobre a importância das palavras. Até os treinadores, nós temos palavras chaves: “ataca o espaço”, “vira a bola”, “mais agressividade”, “mais forte”. E alguns pais usam palavras que não são palavras chaves.

Sobre há quanto tempo o clube desenvolve esse trabalho com os atletas, o gerente afirmou que, desde sua chegada à base do Atlético Goianiense, há cerca de seis meses, a equipe já possuía um projeto inicial de acompanhamento. Com o tempo, esse projeto foi ampliado. Além da psicóloga, o clube também conta com uma assistente social e uma pedagoga para auxiliar no desenvolvimento dos jogadores em formação.

Ele também explicou como funciona a rotina dos atletas dentro do clube. Sobre isso, destacou:

Todos os dias eles têm atividades. Agora, como estamos em fase de preparação para uma copa, existem treinos em dois períodos. Duas vezes na semana eles treinam em dois períodos. Os atletas que estudam presencial participam apenas de um, sem interferir no outro. Já os que estudam online estudam à noite, então conseguem treinar nos dois períodos. Tem semana que são dois dias de treino em dois períodos, outras semanas apenas um.

Tem também um treino na academia. Às vezes selecionamos oito ou dez atletas para um trabalho específico à tarde. Por exemplo: percebo que o Pedrinho precisa de força, então ele faz um treino separado na academia. A rotina principal começa às 8h. O aluno sai daqui às 7h30 ou 8h, dependendo do dia. Eles acordam por volta das 7h, tomam café, pegam o uniforme e vão para o treino das 8h. O treino inicia entre 8h e 8h30 e vai até aproximadamente 10h30.

O retorno é entre 11h30 e meio-dia, quando vão almoçar. À tarde é livre, mas uma ou duas vezes na semana eles participam de dinâmicas. O pessoal da psicologia faz trabalhos em grupo, e eles também realizam algumas dinâmicas e testes pelo WhatsApp. Estamos sempre atualizando e fazendo esse acompanhamento.

Comissão Técnica

A reportagem também realizou uma breve entrevista com Tiago Brayner, membro da comissão técnica do Atlético-GO. Ele destacou os principais valores que o clube busca transmitir aos atletas e falou sobre a importância do desenvolvimento escolar, além da integração entre a comissão técnica, a psicóloga e os professores.

Nós acreditamos muito na formação do cidadão além do jogador. Na base, o treinador precisa ser mais do que técnico: precisa ser um formador social, alguém que transmita valores psicosociais como justiça, verdade e honestidade. Buscamos a formação integral do atleta, cuidando da parte técnica, física e social. Contamos com o trabalho da Bianca, nossa pedagoga, e da Mariana e da Ana, da psicologia. Procuramos transmitir diariamente valores como verdade, justiça, cooperação, lealdade e integridade, tanto nas atividades quanto nas conversas individuais, já que muitos atletas estão longe da família.

Sobre a integração entre a comissão técnica com os demais departamentos, Tiago comentou:

Nós contamos com o Diego Latorre e o Cláudio como lideranças. O Cláudio atua nas questões documentais e de logística, enquanto o Diego faz a gestão multidisciplinar. Realizamos reuniões mensais e quinzenais para discutir temas comuns da área, tanto do futebol quanto de cada departamento, incluindo psicologia e questões psicossociais com a Bianca. Nessas reuniões tratamos não apenas do coletivo, mas também do individual de cada atleta, porque são seres humanos e precisam de um acompanhamento personalizado. É nessas discussões que alinhamos situações importantes para a evolução de cada jogador.

O membro da comissão técnica do Atlético goianiense também comentou o caso ocorrido em São Paulo, mencionado anteriormente na reportagem. Tiago, que é paulista, afirmou que o assunto foi bastante discutidos em grupos de treinadores e entre colegas da área. Sobre o tema, ele destaca:

Existe uma pressão muito grande exercida por nós, treinadores, e pelo próprio jogador em si. Por isso, não vejo com bons olhos quando os pais acabam gerando ainda mais pressão sobre crianças, adolescentes e jovens. Isso é extremamente prejudicial, porque tira a leveza e a alegria do jogo. No sub-11 e sub-13, o futebol deveria ser um processo de iniciação, mas a competição tem se tornado excessiva, muitas vezes por parte dos pais, que transferem seus sonhos para os filhos e enxergam o esporte como uma chance de mudança financeira. Quando uma criança de 11 ou 13 anos já carrega esse fardo, ela pode se frustrar muito diante de uma derrota ou de um resultado negativo. Por isso, no Atlético, contamos com a psicóloga e a assistente social, para ajudar a aliviar essa pressão que vem de nós, deles mesmos e dos pais, e assim formar atletas mais preparados psicologicamente.

Estagiária de psicologia do Atlético-GO

Para compreender melhor as dinâmicas e os processos de cuidados com o bem-estar mental dos jovens atletas, a reportagem solicitou uma entrevista com o departamento de psicologia do clube. A conversa foi realizada com a estagiária de psicologia Mariana, que respondeu às perguntas de forma detalhada e objetiva.

Mariana explicou que o clube atende os atletas do sub-13 ao sub-20 tanto de forma individual quanto coletiva. As sessões, geralmente com duração de 50 minutos, envolvem conversas, dinâmicas e atividades que ajudam a trabalhar questões como autoconfiança, resiliência e aspectos cognitivos dos jogadores.

Além disso, são realizadas palestras e dinâmicas em grupo com temas relacionados ao cotidiano dos próprios atletas. A psicóloga contou que a última dinâmica realizada até o momento da entrevista havia sido com a equipe sub-17, uma atividade voltada para “treinamento definitivo”, com o objetivo de observar como cada atleta lida com tomada de decisão e atenção dentro de campo.

Mariana explicou que é realizada uma anamnese com todos os atletas assim que chegam à base. A partir dessas informações, a equipe passa a conhecer o histórico do jogador e identifica se ele precisará de um acompanhamento contínuo ou se há questões específicas a serem trabalhadas, como ansiedade, raiva ou autoconfiança. Segundo ela, alguns atletas realmente necessitam de um acompanhamento regular, enquanto outros passam por intervenções pontuais, geralmente solicitadas pelo treinador após algum episódio ocorrido em jogo.

O que é Anamnese

“Anamnese” é um termo geral na área da saúde que se refere a uma entrevista detalhada entre um profissional de saúde e um paciente para coletar informações sobre o histórico médico, sintomas, hábitos de vida e queixas principais.

A anamnese na psicologia é uma entrevista inicial e estruturada que o psicólogo utiliza para coletar informações detalhadas sobre a história de vida do paciente, incluindo aspectos emocionais, sociais, familiares e comportamentais. O objetivo é entender a queixa, formar uma hipótese diagnóstica, estabelecer um vínculo terapêutico e planejar um tratamento personalizado. 

Ela também ressaltou que o clube ensina aos atletas que todas as emoções são válidas. Quando alguém se exalta durante uma partida, por exemplo, a equipe senta com o jogador para conversar, mostrando que sentir raiva é natural para qualquer ser humano. O trabalho, segundo Mariana, é ensinar a redirecionar esse sentimento para algo produtivo – como mais força, ativação ou motivação para o próximo jogo – em vez de transformá-lo em discussões, brigas ou xingamentos.

Mariana complementou dizendo que todos os atletas são orientados a compreender e expressar seus sentimentos, criando um ambiente em que se sentir e conversar sobre emoções é completamente aceitável. O objetivo é que, dentro de campo, cada jogador consiga transformar aquilo que sente em um impulso positivo que o fortaleça.

A psicóloga também comentou como o clube auxilia os atletas em formação a lidar com a pressão por resultados e com o medo de não alcançar o profissional. Sobre esse processo, ela afirma:

A gente faz essas questões tanto individuais quanto grupais. A gente trabalha com eles que o futebol, ele é um esporte que realmente tem muita pressão, mas é a maneira com que a gente vai lidar com as situações que vai dizer sobre a gente mesmo. Então, a gente entende que a pressão ela é boa, porque ela vai dar motivação, ela vai dar é ativação para o atleta, vai dar atenção para ele.

E o que a gente tenta fazer uma redução de danos com a tensão, que aí já é um sentimento mais negativo, porque aí vai colocar o atleta para baixo, a tensão vai fazer com que o atleta duvide de si mesmo. Com essa pressão a gente ensina os atletas a lidarem com ela, porque ela vai sempre existir. Então a gente faz testes de habilidades cognitivas, psicossociais, a gente ensina para eles a respiração consciente, porque eles vão ter consciência corporal, entendeu? Para estar vivendo o presente.

A reportagem também conversou com a psicóloga sobre a relação do clube com os pais dos atletas. Ela explicou que, desde o início da implantação do departamento de psicologia, foi realizada uma palestra apresentando a importância desse trabalho no esporte. Mariana ressaltou que não há um acompanhamento contínuo com os pais, mas que, eventualmente, o clube promove palestras sobre temas relevantes e envia orientações por meio de um grupo voltado às famílias.

Além disso, ela destacou sua visão sobre o papel dos pais no desenvolvimento emocional dos jovens atletas. Sobre isso, afirma:

Então assim, o papel dos pais é como um suporte emocional, por exemplo, para ajudar na motivação, para dar uma tranquilidade para aquele atleta, entendeu?

Tipo assim, tá tudo bem se você errar, tá tudo bem se você se sentir mal em algum momento, mas eu como família tô aqui do seu lado e eu vou te apoiar em qualquer decisão que você quiser tomar, em qualquer perspectiva que você tiver da sua vida, então, eu acredito que o papel da família é mais esse apoio emocional de falar que tá tudo bem, que eles estão ali pro que acontecer.

Pedagoga

A reportagem também entrevistou Aramita Rita Machado, pedagoga da base do Atlético-GO, que explicou de forma mais detalhada como funciona a rotina escolar dos atletas. Ela destacou a importância dos estudos tanto para a vida pessoal quanto para a vida profissional dos jogadores — inclusive dentro de campo. Segundo Aramita, toda a equipe do clube incentiva fortemente a continuidade escolar, reforçando a necessidade do “famoso plano B”.

Aramita também comentou qual é o principal papel de uma pedagoga dentro de uma base esportiva como a do Atlético Goianiense:

Bom, o meu papel maior aqui, além de incentivar eles, tem que acompanhar eles na escola, muita frequência, nota. Como né eles são de menores, a maioria precisa de estudar online. Então a gente dá entrada lá no conselho de educação para para os conselheiros julgar e ver se vão autorizar eles a estudar online. Depois que é autorizado, eu vou lá, faço a matrícula, porque quem faz essa matrícula torna-se responsável por ele, por aquele aluno, né, por aquele atleta.

Jogador do sub-20

A reportagem fez uma rápida entrevista com o jogador Luiz Guilherme, lateral esquerda do sub-20 do time goiano. O atleta explicou que sua rotina de treinos é bastante puxada, semelhante à de outras equipes, mas que já concluiu os estudos, o que facilita sua organização diária. Ele afirmou que considera tranquilo conciliar a vida pessoal com a rotina de treinos e jogos.

Quando questionado sobre o incentivo aos estudos, disse sentir que o clube realmente valoriza a continuidade da formação escolar dos atletas. Sobre sua maior preocupação dentro do futebol, relatou que o que mais o deixa ansioso é a incerteza sobre se todo o esforço feito hoje realmente valerá a pena no futuro. Ele também afirmou sentir bastante pressão por bons resultados e pela conquista de uma vaga no time profissional.

O atleta contou que saiu de casa muito cedo e, por isso, sua família lida bem com sua rotina esportiva. Ele é natural da Bahia, onde seus familiares ainda vivem, e destacou que recebe mais apoio do que cobrança tanto da família quanto do clube.

Ao comentar o episódio ocorrido em São Paulo, em que pais foram proibidos de assistir aos jogos por causa de xingamentos e ofensas, ele avaliou que esse tipo de decisão não é adequada. Para ele, a presença dos pais transmite confiança e pode melhorar o desempenho dos jogadores em campo. Acrescentou ainda que nunca presenciou casos de agressões verbais durante partidas.

Por fim, afirmou acreditar que o comportamento dos responsáveis pode, sim, influenciar o desempenho emocional dos atletas: enquanto alguns pais conseguem cobrar de forma positiva, outros podem atrapalhar bastante pela forma como se expressam.

Posição do Goiás Esporte Clube

Em nota oficial envia pelo assessoria de imprensa do time goiano, a Drª Ana Maria Soares, psicóloga das categorias de base do Goiás, afirma que o clube já esta a 2 anos desenvolvendo esse trabalho voltado ao cuidados mentais dos jovens atletas, sendo que na ultima semana o time contratou uma nova profissional para acompanhar a performance mental das categorias de base.

O clube conta com um trabalho de equipe multidisciplinar, serviço social (que atua diretamente com as famílias, com a acomodação e convivência comunitária de nossos atletas alojados no CT, e toda a questão de documentação do atleta alojado) conta também com a pedagogia (que cuida de toda a parte estundantil, matrícula, rematrícula e demais intervenções pedagógicas dos atletas alojados no CT) e a psicologia (responsável pelo cuidado socioemocional dos atletas e da performance mental no esporte, realizando intervenções individuais e atividades coletivas de cunho psicoeducativo, bem como atua na oferta da segurança psicológica dos atletas e comissões, com projetos voltados aos atletas lesionados, acolhimento familiar, cronograma de atividades voltadas para a formação psicológica do atleta)

O clube vem estruturando seu núcleo de desenvolvimento humano, com essas 3 áreas para uma formação integral dos nossos atletas, prezando sempre pela humanização e fortalecimento da identidade do Goiás na performance de nossos atletas.

O que é possível concluir através dessa investigação

A análise evidencia que os clubes demonstram crescente preocupação com o bem-estar mental dos atletas em formação, ainda que esse processo esteja em desenvolvimento. Observa-se também o forte comprometimento dos profissionais da psicologia, que se dedicam a acompanhar os jovens de forma integral – desde questões emocionais até desafios estruturais da carreira esportiva. Esses profissionais têm buscado orientar, oferecer suporte contínuo e apresentar perspectivas mais saudáveis para o futuro dos atletas, contribuindo para um ambiente formativo que, embora ainda em construção, já mostra avanços importantes.

O futuro do esporte está nas mãos de quem está apenas começando: os jovens atletas. Diante disso, fica a reflexão: o que cada agente — clubes, famílias, imprensa e torcedores — tem feito para construir um ambiente esportivo mais saudável, mais humano e realmente seguro para quem sonha em seguir no futebol?

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