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Assuntos como diferença salarial e mau tratamento em comparação a colegas do sexo masculino em locais de trabalho já se tornaram parte da realidade de muitas trabalhadoras, e mesmo com grande esforço para que ocorra algum tipo de mudança, ainda há insistência em oferecer tratamento inadequado à funcionárias mulheres. Esse assédio moral enfrentado em locais de trabalho e as microagressões interpretadas como brincadeiras são usadas como formas de opressão de gênero, normalizadas e que afetam de maneira agressiva o psicológico de quem as sofre.

Machismo estrutural

Acaba se tornando comum lidar com “brincadeiras” inconvenientes, tratamento rude sem motivo aparente, agressividade disfarçada de estresse, mas até que ponto todas essas situações são somente questão de inconveniência e não um ato diário de misoginia camuflada?

A doutoranda em jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisadora sobre questões de gênero, Raphaela Ferro, comenta como a misoginia se estabelece até os dias de hoje em relações sociais;

“Seja em âmbito privado ou público, não são exatamente recentes ou apenas atuais. Elas compõem um sistema simbólico de poder presente na base da nossa sociedade, que é patriarcal em sua constituição. É como se houvesse uma vigilância constante sobre as mulheres, que estarão suscetíveis a algum tipo de punição social sempre que destoam do padrão de feminilidade exigido delas nessa sociedade. Por isso, muitas vezes há a naturalização de brincadeiras machistas, de violências verbais e até físicas de menor impacto”.

Com a normalização de comportamentos misóginos e a existência de uma sociedade estruturalmente machista, se torna importante fazer com que as vítimas dessas agressões estejam cientes do que estão passando.

O Tribunal Superior do Trabalho (TST), data algumas atitudes tidas como comuns e que são, na verdade, classificadas como microagressões: “Alguns exemplos de microagressões de gênero no trabalho envolvem interromper a fala de uma mulher, explicar coisas óbvias referentes à área de atuação e especialidade dela, não dar crédito às suas ideias, fazer piadas sobre o universo feminino por meio de estereótipos, perguntar recorrentemente sobre seus filhos, ou mesmo se elas querem ter filhos, tocar as colegas de trabalho de maneira que não fariam com seus colegas homens, usar apelidos como ‘minha querida’, ‘meu amor’, ‘linda’ ou ‘mocinha’, e fazer comentários sobre seus corpos ou sua aparência.”

No cotidiano

Em uma recente matéria publicada pelo portal de notícias G1, é relatado que a Justiça do Trabalho (TRT) determinou que um posto em Afogados, zona oeste de Recife, deixasse de obrigar suas funcionárias a usar cropped e legging como uniforme, pois a exigência viola a dignidade e segurança das trabalhadoras.

Disponível em: g1

 O caso foi relatado ao G1 por uma ex-funcionária do posto, que demonstrava desconforto com a situação. O caso acima trata-se não somente da falta de respeito com as funcionárias do local, mas também da objetificação do corpo feminino, aplicando uma determinada aparência e comportamento, no intuito de atrair mais clientes, de acordo com a fala da ex-funcionária.

No estudo feito pela acadêmica de psicologia do Centro Universitário de Pato Branco (UNIDEP), Paula Fernanda Savitras e pela docente de psicologia, Denise de Fátima Kurpel, é possível entender como acontece essa objetificação, ligada a misoginia;

“Muitos são os enredos intrínsecos à objetificação da mulher – onde o corpo se constrói como palco desse fenômeno, já que é a forma mais presente do ser se pronunciar no mundo, a partir das experiências e sensações. No entanto, a autonomia e a liberdade da mulher para com seu próprio corpo são constantemente ameaçadas por estruturas patriarcais e preconceituosas, que configuram a cultura em que a sociedade ocidental se construiu. A construção da sociedade tem como base a submissão das mulheres perante aos homens, ou seja, não dá para negar o fato do enraizamento dessas relações de poder até os dias atuais”, explicam.

As pesquisadoras também trazem em conjunto a ideia de como a misoginia se formou ao longo dos anos historicamente:

“A história, construiu uma visão patriarcal e racista perante aos corpos, e essa visão vem acompanhada de ataques, violência e submissão. Muitas vezes abordados de maneira implícita, como é feito com a sexualização do corpo feminino na mídia, ou, de maneira explicita, como os vários casos de estupro que acontecem diariamente.”

Consequências da misoginia

A misoginia que se tornou cotidiana pode ter um formato de brincadeira e ter aparência inofensiva, mas há diariamente diversos depoimentos de mulheres que passam por situações constrangedoras, sem um motivo aparente. 

Em relato anônimo, uma jovem estudante conta que ao conversar em um tom de voz mais alto com sua amiga no ônibus, ela acaba ouvindo um homem a mandar calar a boca. Sem saber como reagir, a estudante depõe como se sentiu no momento; 

“Ah, foi muito ruim, é claro. Porque estávamos falando alto, pois a gente estava em um transporte público, certo? E as pessoas sempre falam alto e tá tudo bem. Só que a gente ficou com vergonha, sem graça e não continuamos o papo. Só que no final a gente acabou rindo, mas mesmo assim é muito chato, porque o ônibus é barulhento, então você tem que acabar falando alto”.

Em consequência do frequente medo enfrentado por mulheres até em locais públicos, é possível notar como a misoginia é a origem de crimes de feminicídio. De acordo com dados do Anuário de Segurança Pública, em 2024, cerca de 1.492 mulheres foram assassinadas apenas por serem mulheres (maior número de casos registrados desde 2015), além das 3.870 tentativas de feminicídio no período (aumento de 19% em relação a 2023, última edição do levantamento).

Disponível em: Fórum Brasileiro de Segurança Pública

De acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT), mulheres negras são as principais vítimas de violência e assédio moral. No mesmo sentido, mulheres negras formam o grupo mais expressivo em taxas de feminicídio, fazendo 64% de acordo com o Instituto Patrícia Falcão.

Mais uma vez, Raphaela Ferro explica o motivo de tamanha repressão e violência de gênero;

“Assim como explica a autora Mariana Valente, em seu livro Misoginia na Internet, trata-se de um sistema que visa garantir a subordinação das mulheres por meio desse tipo de vigilância. Sempre que as mulheres agem em desacordo da ideia do que se espera de uma mulher no contexto patriarcal há represália: a piada que gera o constrangimento e silencia a profissional no ambiente de trabalho; a brincadeira que reduz a mulher à estética de seu corpo; o toque aparentemente sem intenção que limita o espaço e os percursos possíveis para as mulheres”

Em sequência, a jornalista cita;

“Mulheres pretas são estatisticamente as que, em geral, recebem menores salários e as que mais chefiam famílias financeiramente, por exemplo”.

Atitudes a serem tomadas

Em meio a situações de assédio moral, violência verbal e outros tipos de ataques misóginos, o MPT faz algumas recomendações de atitudes que devem ser tomadas para se defender, como por exemplo:

  • Reunir provas, como bilhetes, e-mails, mensagens em redes sociais e outros; 
  • Anotar, com detalhes, todas as práticas abusivas sofridas: dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do (a) agressor (a), colegas que testemunharam os fatos, conteúdo das conversas e o que mais achar necessário;
  • Dar visibilidade, procurando a ajuda dos(as) colegas, principalmente daqueles(as) que testemunharam o fato ou que são ou foram vítimas;
  • Denunciar aos órgãos de proteção e defesa dos direitos das mulheres ou dos(as) trabalhadores(as), inclusive o sindicato profissional, Ministério Público do Trabalho e DISQUE 100;
  • Comunicar aos superiores hierárquicos, bem como informar os canais internos da empresa, tais como ouvidoria, setor de recursos humanos, comitês de éticas ou outros meios idôneos disponíveis; 
  • Buscar apoio de familiares, amigos(as), colegas e, se necessário, assistência psicológica; 
  • Relatar o fato perante a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio) e o SEESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho).

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