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A Guiné Bissau é um país localizado na África Ocidental, colonizada pelo regime colonial português, a sua independência se deu em 24 de setembro de 1973. Posteriormente foi reconhecida por Portugal no dia 10 de outubro de 1974. A conquista da independência foi um processo árduo, conduzido pelo Partido Africano Para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), durante onze anos de luta armada contra o colonialismo salazarista. Após a independência, apesar de receber grandemente apoio dos países alinhados à antiga União das Repúblicas Socialista Soviética (URSS) a Guiné-Bissau firmou sua posição neutra durante a guerra fria que assolava o mundo, sobretudo entre as décadas de oitenta e noventa.
Nos primeiros anos da independência, a Guiné-Bissau passou a adotar em suas instituições o monopartidarismo, como parte de um modelo político importado do socialismo cuja configuração centraliza-se no Estado. O PAIGC, como partido que conduziu o processo da luta de libertação e braço direito do recém-formado Estado, se autoproclama de partido único a exercer direitos em seu mais variável sentido, fechando as possibilidades de criação de partidos de oposição. Vale lembrar que à época, o mundo vivia à sombra de uma hegemonia bipolar leste-oeste, capitaneada, por um lado, pela (URSS) e do outro, pelos Estados Unidos da América (EUA).
Ao todo, a Guiné-Bissau já sofreu seis tentativas de golpes militares, sendo quatro deles bem sucedido. A intervenção militar na arena política tem aumentado em um crescimento ascentuado, acompanhado pela violência física e sensura dos órgãos de comunicação e da liberdade de expressão. Estes e demais outros flagelos têm constituido a realidade recente da Guiné-Bissau, principalmente, quando se refere ao atual regime liderado pelo atual presidente da república.
A crise política na Guiné-Bissau voltou ao centro do debate internacional após o episódio ocorrido em 26 de novembro, classificado oficialmente como uma tentativa de golpe de estado. No entanto, comunidades Guineenses na diáspora contestam essa versão e denunciam o que chamam de uma “encenação política”, organizada para reforçar o poder do atual governo e enfraquecer as instituições democráticas do país.
No dia 26 de novembro, o governo da Guiné-bissau anunciou ter frustrado uma tentativa de golpe de estado um dia antes para divulgação dos resultados previsora das eleições presidenciais, a informação foi divulgada rapidamente por canais oficiais, acompanhada de medidas de segurança, prisões dos líderes da oposição como Domingos Simões Pereira, Otavio Lopes e os demais.
Além disso, setores da sociedade civil e parte significativa da população passaram a questionar a veracidade do episódio, levantando suspeitas sobre interesses políticos do ex -presidente Umaro Sissoco Embaló por trás da narrativa oficial.
Cam-naté Augusto Bissinde, especialista em ciências políticas pela Universidade Federal de Goiás, aponta essa encenação de golpe registrado no dia 26 de novembro como mais uma manifestação de problemas estruturais históricos do país. Segundo ele, a instabilidade política guineense está diretamente ligada à baixa institucionalização do Estado, um processo que se arrasta desde a independência.“A Guiné Bissau se caracteriza por um estado com instituições frágeis, desde a independência nunca houve um projeto consistente de fortalecimento institucional, e essa fragilidade acabou sendo aprofundada ao longo dos anos”, explica.
Bissende destaca que a guerra civil de 1998, conhecida como Sete de junho, agravou ainda mais esse cenário, enfraquecendo estruturas estatais que já eram vulneráveis e ampliando o espaço para disputas de poder fora dos canais democráticos formais. Outro ponto relevante da análise do especialista é o papel das forças armadas na política nacional.
Para o cientista político, os militares continuam atuando como um ator político estrutural, diferentemente de democracias consolidadas, onde estão subordinados ao poder civil. Ressalta ainda que o discurso de “tentativa de golpe” muitas vezes cumpre uma função estratégica, sendo utilizado para legitimar medidas repressivas e neutralizar adversários políticos.
” Essa narrativa permite justificar ações como do dia 26 de novembro em nome da defesa da ordem constitucional, quando na prática está inserida em disputas de poder entre diferentes grupos civis e militares”, conclui Cam-naté Bissinde.
O ativista político guineense Sumaila Djaló alegou que o golpe de estado pode ser lido como uma “encenação montada em benefício do próprio sistema sissoquista”. Segundo ele, a oposição não pode se limitar à constatação de que golpistas detém as armas.
Para Djaló, é necessário ir além da simples mobilização popular. “Temos que ser capazes de encontrar mecanismos de enfrentamento que superem a violência usada contra o povo e contra a constituição, a isso à história chama de “violência revolucionária”, afirmou.
O ativista também reconhece que essa posição pode parecer utopia para lideranças políticas que, segundo ele, insistem em combater “um ditador sanguinário com apelos ao bom senso”. No entanto argumenta que a própria história da humanidade demonstra que mudanças profundas raramente ocorreram sem confronto direto com regimes autoritário, porque não basta o povo permanecer mobilizado contra o que chama de“golpismo sissoquista”, mas é essencial que lideranças políticas com legitimidade popular assumam a direção desse movimento, tornando-o mais consequente e capaz de viabilizar a posse de Fernando Dias da Costa eleito pelas atas apuradas .
“Este é o momento de agirmos por nós mesmos. Caso contrário, mais uma vez haverá quem chore, frustrado, com a decepção em relação à Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e a outras instâncias internacionais que pouco ou nada fazem diante da nossa desgraça”, concluiu o ativista.
Manifestação em Goiás alerta para crise institucional
A comunidade guineenses residente em goiás Realizou no dia 13 de Dezembro de 2025, uma marcha de protesto para denunciar o que considera uma encenação de golpe de Estado na Guiné-Bissau. O ato reuniu imigrantes, estudantes e lideranças comunitárias que expressaram preocupação com a instabilidade política no país e seus impactos sobre as instituições democráticas, com cartazes, palavras de ordem e faixas cobrando transparência na divulgação dos resultados eleitorais das eleições presidenciais e restabelecimento da constituição da república.
Segundo organizador Tercio Tete do canal educar mente e Jurista, a mobilização buscou chamar atenção da sociedade brasileira e da comunidade internacional para uma encenação do sistema “Sissoquista”, apelido dado pela população da Guiné-Bissau, ao ex-presidente Umaro Sissoco Embalo, com o objetivo de permanecer no poder sem representar o povo guineense.
Nesse sentido, o especialista em ciências políticas Cam-naté Bissinde ainda questiona: “ Uma pergunta fundamental para uma parcela da população acredita que a suposta tentativa de golpe tenha sido uma encenação do próprio presidente e de onde vem essa desconfiança?”
Cam-naté explica que depois da tomada de posse do Umaro Sissoco Embaló em 2020, a população observa uma sequência de denúncias sobre tentativas de golpe no aparelho do estado, com tentativas de depor o mandato, essas denúncias envolvem tanto pessoas civis quanto militares, o que levanta dúvidas sobre a veracidade das acusações.
Bissinde ainda acrescenta que a sequência de denúncias sobre uma suposta tentativa de golpe, sem uma explicação convincente , gera dúvidas. “ como civis políticos poderiam executar um golpe de estado de um presidente armado, com segurança militarizada no palácio da república”, conclui.
Umas das participantes na marcha, Haimilton Raimundo da Silva, membro da Comunidade Guineense em Goiânia, apelou o respeito pela normalidade constitucional na Guiné-bissau o que não é visto desde que o Umaro Sissoco Embaló tomou poder começou surgir invenções não fundamentada sobre supostos golpes de estado. “faltava um dia para divulgação dos resultados eleitorais o atual regime anunciou golpe de estado nas vesperas da devulgação, no entanto considero isso falso e os militares assumiram o poder, num país democratico quem manda deve ser escolha do povo”, conclui Haimilton da Silva.
As Nações Unidas expressaram profunda preocupação com os acontecimentos na Guiné-Bissau. O secretário-geral condenou com veemência o golpe de Estado cometido por elementos das forças armadas e qualquer tentativa de violar a ordem constitucional, e em nota emitida pelo seu porta-voz, em Nova Iorque, António Guterres ressalta que “qualquer desrespeito à vontade do povo, que votou pacificamente nas eleições gerais de 23 de novembro, é uma violação inaceitável dos princípios democráticos”.
Para ele, “é essencial que as autoridades militares respeitem as normas e padrões internacionais sobre os princípios fundamentais, inclusive garantindo a libertação imediata e incondicional de todos os indivíduos detidos arbitrariamente.”
Volker Turk disse estar profundamente alarmado com os relatos de violações dos direitos humanos na Guiné-Bissau após a ação, incluindo “prisões e detenções arbitrárias de funcionários do governo e líderes da oposição, bem como ameaças e intimidação contra veículos de comunicação e jornalistas.”
Mamadu Kagame Bubacar Baldé Jurista em direito pela Universidade de Lisboa e pesquisador em Direitos Humanos, levantou a questão da instabilidade poltica que esse novo governo liderado pelos militares vai causar na Guiné-Bissau. Segundo Kagame Baldé, o novo governo liderado pelos mitares tende a agravar a situação social e econômica do país, afirma que que o bloqueio institucional e financeira deve se intessificar, dificultando o acesso da Guiné-Bissau ao mercado financeira internacional.
“Esse cenário pode resultar no aumento de impostos como forma de arrecadação de receitas, o que tende a provocar inflação e elevação do custo de vida”, alerta. Baldé relembra ainda a tentativa de golpe de estado de 12 de abril de 2012, que teve impactos diretos no aumento dos preços dos produtos de primeira necessidade e gerou forte descontamento social.
Apesar disso, segundo o pesquisador, no momento a população guineense ainda não demostra preocupação central com a inflação, em razão da atual crise poltica” Não entendo por que o General Horta N`tan assumiu o poder neste contexto de golpe”, essa decisão pode isolar politicamente e economicamente a Guiné-Bissau, afirma.
Kagame Baldé demostra precupação de que o país corre risco de entrar em um impasse politico prologado, o proprio ministério público não tem atuando de forma efetiva na defesa da liberdade de expressão e, ao contrário,tem perseguido adversários politicos do ex-presidente Umaro Sissoco Embaló, as deixando de priorizar o enfrentamento ás violações de direitos humanos na Guiné-Bissau.


Subscrevo.
O mais caricato é que os políticos da Guiné-Bissau, não sabem respeitar a vontade do povo e essas instabilidades políticas podem evidenciar a fragilidade democrática. Esta reportagem reforça a urgência de um compromisso efetivo com o diálogo, o respeito a constituição e o fortalecimento do Estado de direito, como caminhos fundamentais para a consolidação da democracia e o desenvolvimento sustentável do país.
Sempre em frente, parabéns!✊🏿👏🏿😘
A Guiné-Bissau é um país da África Ocidental com uma história profundamente ligada a Portugal, marcada pela colonização e pela luta pela independência, alcançada em 1973 e reconhecida em 1974. É uma nação rica em diversidade cultural e étnica, com tradições fortes, música e dança muito presentes no quotidiano, como o gumbé. Apesar do grande potencial humano e natural incluindo o arquipélago dos Bijagós o país enfrenta desafios significativos ao nível da estabilidade política, do desenvolvimento económico e das infra-estruturas. Ainda assim, o povo guineense destaca-se pela resiliência, hospitalidade e pela preservação da língua portuguesa como língua oficial, convivendo com o crioulo e várias línguas nacionais.