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Faça chuva ou sol, aos sábados, a feira de orgânicos do Mercado da 74 está montada às cinco e meia da manhã, em Goiânia. Entre bancas de legumes, verduras, grãos e alimentos processados artesanalmente, produtores e consumidores trocam informações, sementes e histórias que atravessam o campo e a cidade.
Criada em 1999, a Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Orgânica em Goiás (ADAO-GO) reúne atualmente 33 produtores e 11 consumidores interessados em fortalecer o comércio justo e garantir o acesso a alimentos saudáveis.
Frequentadora da feira, Maria das Graças, de 72 anos, conta que passou a comprar alimentos orgânicos por orientação médica, após ser diagnosticada com degeneração macular. “O médico me pediu para comer tudo o mais natural possível”, relata. Desde então, ela reconhece mudanças. “Meu tratamento é basicamente à base de vitaminas, e no alimento orgânico elas são preservadas”, afirma.
A escolha pelo consumo de alimentos orgânicos está relacionada à forma de cultivo, que dispensa o uso de fertilizantes sintéticos, herbicidas e agrotóxicos. Segundo o Dossiê Abrasco – Um Alerta sobre os Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, publicado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) em 2015, a exposição contínua a resíduos químicos presentes nos alimentos está associada a distúrbios hormonais, neurológicos e reprodutivos, mesmo em níveis considerados baixos. Estudos da área de saúde coletiva apontam que esse tipo de exposição configura um problema de saúde pública no Brasil.
Em outra fonte, o último Relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2023, divulgou que 26% das amostras analisadas — de um total de 36 alimentos — apresentaram resíduos de agrotóxicos acima dos limites considerados seguros para a saúde.

Históricos
O modelo agrícola hoje conhecido como convencional teve início no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando a indústria química direcionou sua capacidade produtiva para o desenvolvimento de fertilizantes sintéticos e pesticidas. Compostos inicialmente criados para fins bélicos, como os organofosforados — utilizados como gases nervosos — passaram a ser adaptados para uso agrícola, sobretudo como inseticidas. E a capacidade instalada para produzir nitrogênio sintético e nitratos destinados a explosivos, foi convertida em fábricas de fertilizantes.
No Brasil, esse modelo foi difundido a partir da década de 1950, com a implementação do Programa de Cooperação Técnica e Financeira Ponto IV, articulado pelos Estados Unidos. A proposta, associada à chamada Revolução Verde, prometia aumento da produtividade agrícola e combate à fome. O que se observa, no entanto, é um cenário atual marcado por concentração fundiária, dependência de insumos químicos por parte dos produtores, contaminação do solo e da água, além de desigualdades no acesso aos alimentos.

Dois produtores associados contaram à reportagem trajetórias que ilustram a persistência desse cenário: ambos vieram da produção convencional, aprendida na universidade. Um deles é Brener Palhares, agricultor de 35 anos e agrônomo formado pela UFG. Ele relata que, durante toda a graduação, nunca ouviu falar em produção orgânica — para ele, só existia o modelo convencional. Ao se formar, passou a trabalhar em uma empresa de venda de fertilizantes químicos e agrotóxicos.
O outro é Paulo Marçal, de 66 anos, ex-professor da Escola de Agronomia da mesma universidade. Ele desenvolvia pesquisas voltadas ao cultivo convencional do tomate quando foi convidado por duas alunas a coordenar um projeto de iniciação científica de produção de tomates orgânicos.
Para Brener, o contato com uma lavoura orgânica mudou completamente sua visão sobre o campo. “Me disseram que era soja orgânica. Eu nem sabia que isso existia, não conheci na faculdade. Fui atrás de entender melhor e descobri uma área de 10 mil hectares orgânicos. Aí pensei: caramba, por que isso não chegou até mim antes?”, relembra.
A partir desse encontro, Brener passou por um processo de reaprendizado. “Comecei a frequentar feiras, buscar informação, ainda trabalhando no sistema convencional. Eu queria ser consultor, não apenas vendedor. Percebi que estava enganando o produtor”, Segundo ele, muitos agricultores perdiam suas terras ao tentar pagar por adubos químicos, enquanto a produção orgânica se mostrava mais barata e viável.
No caso de Paulo, uma pequena área experimental de sua propriedade familiar, em Hidrolândia, deu lugar, com o tempo, à produção orgânica em toda a área. Conhecido na associação e entre os clientes como um guardião das sementes crioulas, ele conta que a troca é constante: “Não tem um sábado que não apareça uma semente nova por aqui. Sempre tem alguém trazendo sementes de algum lugar pra mim”.
As sementes crioulas são selecionadas, produzidas e conservadas ao longo de gerações por agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais. Adaptadas ao ambiente local, elas tendem a ser mais resistentes a doenças e pragas e representam uma forma de autonomia produtiva, já que o agricultor não precisa comprá-las. “A intenção é tornar a propriedade o mais autônoma e biodiversa possível”, pontua Paulo.
Do solo, o alimento
Em contraponto à agricultura química, a agricultura orgânica se consolida no mesmo período histórico ao defender práticas baseadas na integração entre solo, plantas e ambiente. O manejo prioriza a fertilidade natural do solo, com intervenções pontuais e o uso de adubos orgânicos compostáveis. Um solo nutrido de forma equilibrada favorece o desenvolvimento das raízes, que contribuem para a aeração do terreno e para a infiltração da água — processo associado à manutenção dos recursos hídricos. Nesse contexto, plantas bem nutridas tendem a apresentar maior resistência a doenças. A presença de outros organismos no ambiente agrícola também integra esse sistema: pragas e predadores coexistem, e a diversidade de espécies vegetais contribui para o equilíbrio ecológico do cultivo.
Para a agrônoma e cientista Ana Maria Primavesi, referência internacional no tema, a saúde do solo é a base da vida. “O segredo da vida é o solo, porque do solo dependem as plantas, a água, o clima e nossa vida. Tudo está interligado. Não existe ser humano sadio se o solo não for sadio e as plantas nutridas”, afirmou. Austríaca naturalizada brasileira, Primavesi dedicou sua trajetória à defesa do manejo ecológico do solo e é autora de obras fundamentais sobre o tema, como Manejo Ecológico do Solo.
Regulamentada pela Lei dos Orgânicos (Lei nº 10.831/2003), a agricultura orgânica no Brasil estabelece critérios para a certificação das propriedades, que pode ocorrer por auditoria ou por meio dos sistemas participativos de garantia. A certificação assegura ao consumidor que os alimentos são produzidos, não apenas sem o uso de insumos químicos sintéticos e agrotóxicos, mas também em áreas onde o solo e a água atendem a padrões ambientais específicos. Atualmente, todos os produtores associados à ADAO-GO possuem certificação por auditoria, concedida pelo IBD/QIMA (Instituto Biodinâmico).

Mercado justo
Para além da qualidade do alimento, o professor Paulo Marçal conta como a Associação busca manter os preços dos alimentos, independente das variações do mercado. “Produzir bem e oferecer por um preço que seja acessível para a maioria das pessoas. Esquecer a lei da oferta e da procura. Se a gente entra nela, a gente perde a confiança dos clientes. Não tem nada melhor do que ter preço estável.” Ele completa dizendo que o tomate, por exemplo, está há dois anos com o mesmo preço na feira.
PNAE e PAA
Flávia Elias Gomes de Deus, de 51 anos, é agrônoma formada pela UFG e agricultora. Por iniciativa própria, decidiu migrar para a produção orgânica. Com o apoio da família, passou a cultivar alimentos na propriedade rural onde o pai produzia leite. Além da venda na feira, ela integra a cooperativa de mulheres Floryá, em Bela Vista de Goiás.
O grupo participa de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que destinam alimentos da agricultura familiar para escolas públicas e para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Flávia conta que essa política pública dá segurança para o produtor ao direcionar o escoamento de parte da sua produção, ao mesmo tempo em que em que crianças e famílias são beneficiadas com alimentos de qualidade.










Eu acho muito massa ter uma amiga jornalista !! Ela é top!!