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A moda é cíclica. A magreza também. Desde 2020, a volta das tendências do final dos anos 1990 e do início dos anos 2000 tem marcado as passarelas e o consumo de roupas e acessórios pelo mundo. Mas o estilo Y2K (anos 2000), marcado por peças como calças de cintura baixa e baby tees, não foi a única coisa a retornar: a cultura da magreza, assim como as peças de vestuário, também se reinventou e tem se propagado nos dias atuais.
A estética Heroin Chic foi um padrão intensamente presente no cenário da moda nas décadas de 1990 e 2000. Popularizada por modelos como Kate Moss, disseminava a imagem de corpos extremamente magros, com uma aparência doentia, semelhante aos efeitos relacionados ao uso de drogas como a heroína. Apesar da decadência dessa tendência, vestígios deste estilo têm retornado com a estética Y2K, sendo repaginados com o advento das redes sociais e a ascensão das canetas emagrecedoras.


Moda dos anos 2000. (Foto: Freepik) / Kate Moss em campanha para marca Calvin Klein em 1993. (Foto: Mario Sorrenti)
Dados recentes reforçam esse movimento. Um relatório sobre inclusão de tamanhos na passarela da temporada primavera/verão 2025, publicado pela Vogue Business em outubro deste ano, revelou que apenas 0,9% dos looks, entre 198 desfiles e apresentações das semanas de moda de Milão, Nova Iorque e Londres, eram plus size (tamanhos 48+ no Brasil).
No artigo “Tamanho Zero, epidemia da magreza”, publicado na revista dObra[s], as especialistas Carla Cristina Gárcia e Vanessa Rozan atribuem esse fenômeno à volta do conservadorismo, evidenciado pelos movimentos de extrema direita na política mundial desde 2014. “Os discursos e debates em torno do corpo da mulher e do lugar da mulher na sociedade voltam à tona. […] O tamanho do corpo das mulheres e a magreza extrema estão na mira da moda e das redes sociais. O corpo deve ser dócil, permeável e frágil”, escrevem as autoras.
No entanto, a magreza como tendência não é um movimento que se restringe às passarelas.
O papel das redes
As redes sociais atuam como importantes vetores de disseminação do padrão de magreza. “Eu tive que dar um tempo das redes sociais, principalmente do TikTok”, disse Ana, de 14 anos. “Eu nunca tive problemas com o meu corpo, mas, de uns tempos para cá, percebi que estava me comparando muito com as pessoas na internet, e isso não estava fazendo bem para mim”, acrescentou.
A adolescente relatou que desenvolveu inseguranças: “Passei a ter raiva do que via no espelho”, ressaltou.
A plataforma TikTok concentra mais de 1,59 bilhão de usuários pelo mundo, sendo 91,7 milhões deles no Brasil, segundo dados do DataReport de janeiro de 2025. A rede reúne majoritariamente um público jovem, com faixa etária média entre 25 e 35 anos, ainda de acordo com a pesquisa.
Em junho deste ano, a rede social baniu a hashtag #skinnytok de sua barra de pesquisas. Segundo a Aliança Nacional de Distúrbios Alimentares dos Estados Unidos (National Alliance for Eating Disorders), essa hashtag possuía mais de meio milhão de publicações, como receitas de baixas calorias, vídeos sobre rotinas alimentares e tutoriais de treinos físicos que idolatravam a perda de peso e promoviam o desenvolvimento de hábitos alimentares potencialmente nocivos à saúde.
No Brasil, o meme“magras magras magras” domina o TikTok. Mais de 22 mil publicações utilizam esse áudio em vídeos que celebram a magreza em tom cômico. “Depois de 10 horas de trabalho sem parar para comer”, “eu e minha amiga depois de combinar de adoecer para perder 10 kg” e “indo buscar o balde porque não posso aparecer gorda no verão” são algumas das frases presentes nos vídeos que utilizam o meme como lema.
Para a psicóloga Márcia Helena Santos, docente da PUC Goiás, a centralidade das referências externas na construção da autoimagem é um fator de risco. Segundo ela, “basear-se constantemente nas expectativas sociais para perceber a si mesmo e eleger um padrão ou modelo a ser seguido torna o indivíduo mais vulnerável ao desenvolvimento de distúrbios de imagem”.
Além disso, a especialista também destaca que as redes sociais impactam consideravelmente a percepção corporal de jovens e adultos: “Há uma busca pela constituição da identidade, e essa identidade é fortemente marcada pelas expectativas sociais. Assim, querer corresponder a essas expectativas é entendido por adolescentes e jovens como uma forma de validação. Dessa maneira, buscar alinhar-se aos padrões estéticos passa a ser associado à aprovação social e à constituição identitária”.
O ‘boom‘ das canetas emagrecedoras

No contexto atual de valorização da magreza extrema, as canetas emagrecedoras se popularizaram. 58% dos brasileiros conhecem esse tipo de medicamento, conforme divulgado em um levantamento do publicado pelo Instituto Ipsos em outubro. Além disso, dados do Google Trends mostram que a busca pelo nome de canetas emagrecedoras na ferramenta de pesquisas da empresa registrou uma alta de 80% em agosto.
Apresentadas como solução rápida para perda de peso, elas têm se destacado como artifícios para adequação aos padrões estéticos em alta. Porém, especialistas se preocupam com o uso indiscriminado e não recomendado do tratamento.
Tendo em vista esse cenário, a ANVISA tornou obrigatória a retenção de receita para compra do medicamento em abril deste ano. Apesar disso, de acordo com a endocrinologista Claúdia Chang, há uma procura cada vez maior pelas canetas por indivíduos que não teriam indicação de uso. Segundo a especialista, “do ponto de vista baseado em evidências, essas canetas emagrecedoras são indicadas quando há doença, não apenas desejo estético. Temos efeitos colaterais decorrentes do uso da medicação com os quais precisamos ter cautela. Por isso a indicação para o uso adequado é fundamental”, disse.
A médica alerta ainda para os possíveis efeitos adversos do uso irrestrito, sobretudo no sistema gastrointestinal, como náuseas, vômitos e piora de quadros de gastrite e esofagite (inflamação do estômago e do esôfago). A utilização também pode aumentar o risco de formação de cálculos na vesícula biliar, podendo levar à pancreatite em decorrência da migração desses cálculos.
O fim da era de positividade corporal
O movimento Body Positive foi uma onda de positividade corporal, presente na moda principalmente na década de 2010. Durante esse período, a diversidade de corpos era celebrada em campanhas que promoviam a inclusão e representatividade. Com o ressurgimento da magreza como objetivo estético, essa variedade foi cada vez mais esvaziada pela volta dos antigos padrões.

Laura Resende trabalha com moda há 21 anos. A profissional já passou por marcas como Farm, OhBoy! e Carmen Steffens, além de atuar também no setor têxtil. Atualmente, ela trabalha com treinamento de vendas. Em entrevista para o Lab Notícias, Laura expõs suas experiências e concepções em torno da moda. Para ela, a diversidade corporal discutida na moda nos últimos anos foi uma narrativa diluída pelo mercado:
“Na minha percepção e na prática, ela nunca foi totalmente incorporada à moda. Foi tratada como tendência, e não como uma mudança cultural e estrutural dentro da moda, especialmente nas grandes marcas. Quando deixou de ser novidade, perdeu força”, apontou.
“Percebi que várias marcas usaram a inclusão como estratégia de marketing, para gerar mídia. Mas, na prática, o padrão de produção, a modelagem e o shape continuaram os mesmos. Ainda vemos chamadas para modelo de prova com padrões de corpos magros. A gente percebe isso quando a inclusão aparece apenas em campanhas pontuais. Ou seja, são ações pensadas para marketing, e não algo incorporado de fato como cultura interna ou como essência da marca”, acrescentou.
Para quem não se rende às pressões estéticas, ser autêntico é como uma forma de protesto
Laura Resende também destaca que mesmo estilistas e marcas independentes tendem a propagar o ideal de magreza vigente. “Isso acontece por aceitação e reconhecimento no mercado. Ainda é um tabu romper essa barreira do corpo. Por mais que as marcas façam campanhas falando sobre inclusão e que todo mundo pode usar suas peças, eu acho que isso ainda acontece de forma muito pontual”, afirmou.
Assim, a questão que persiste é: como resistir a essa tendência imposta por grandes conglomerados da moda?
“Criando as próprias narrativas, sabe? Escolhendo trabalhar com corpos reais, com consistência, com um tom de voz que se comunique com essas pessoas de forma verdadeira, não pensando apenas na venda ou só no mercado. É sobre construir uma comunidade com essas pessoas. Porque, quando a gente fala em resistir ao que o mercado impõe, a gente está falando de coerência, de consistência e de resiliência. Deixa de ser uma adesão pontual e passa a ser uma postura constante. Então, quando eu escolho ter uma marca realmente fora dos padrões, eu preciso sustentar tudo isso que eu falei”, é o que responde Laura.
