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Mudanças culturais, curriculares e políticas de inclusão marcam a vida no campus

Correio Braziliense: “20 anos de cotas na UnB: avanços rumo à inclusão”. Opinião – (crédito: Caio Gomez)

A política de cotas alterou de forma estrutural o funcionamento das universidades públicas brasileiras. Mais do que ampliar o acesso, a presença crescente de estudantes cotistas transformou salas de aula, currículos, políticas institucionais e o próprio papel social do ensino superior. Ao longo de mais de uma década de vigência da Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012), que dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais, a diversidade deixou de ser exceção e passou a redefinir o cotidiano universitário, do perfil discente às agendas de pesquisa e das relações sociais no campus às disputas políticas em torno da permanência da política.

Em meio a embates recentes, como a tentativa de proibição das cotas raciais em Santa Catarina, dados oficiais, pesquisas acadêmicas e decisões judiciais reiteram que se trata de uma política com eficácia comprovada, impacto mensurável e efeitos que ultrapassam o ingresso, atingindo o modo como a universidade ensina, pesquisa e se relaciona com a sociedade.

Quem passou a ocupar a universidade

Antes da implementação da Lei de Cotas, o perfil predominante nas universidades públicas brasileiras era composto majoritariamente por estudantes brancos, oriundos de escolas privadas e pertencentes às camadas de maior renda. A reserva de vagas para egressos da escola pública, estudantes de baixa renda, negros, pardos e indígenas alterou de forma consistente essa composição.

Levantamentos feitos por acadêmicos da Universidade Federal do Pará indicam crescimento expressivo da presença de grupos historicamente excluídos do ensino superior, sem impacto negativo no desempenho acadêmico médio. Estudos comparativos mostram taxas semelhantes de conclusão de curso entre cotistas e não cotistas, além de desempenho equivalente em avaliações internas.

A diversidade, hoje, se expressa nos corredores, nos centros acadêmicos, nas salas de aula e nos espaços de representação estudantil, tornando o ambiente universitário mais próximo do perfil demográfico da população brasileira.

O que diz a Lei de Cotas

A sala de aula mudou: o conteúdo também

A presença ampliada de estudantes cotistas provocou mudanças perceptíveis na dinâmica das salas de aula.

Pesquisas citadas pela ANAPE indicam que departamentos foram pressionados a revisar bibliografias, incluir autores negros, indígenas e periféricos e tratar desigualdades raciais e sociais como temas estruturantes, não periféricos. Em algumas instituições, essas mudanças resultaram na criação de disciplinas obrigatórias sobre relações étnico-raciais, história da população negra e políticas públicas de inclusão.

A diversidade discente também impactou metodologias de ensino, ampliando debates, questionamentos e abordagens críticas, o que, segundo pesquisadores, contribui para a formação acadêmica mais plural e conectada à realidade social brasileira.

Permanência: O desafio além do acesso

Perguntada como políticas universitárias de inclusão em um cenário tão exclusivista impactam na acessibilidade e integração de estudantes indígenas e outros grupos minoritários, Eunice Pirkodi Tapuia, a primeira professora indígena da Universidade Federal de Goiás, disse:

“Essas políticas públicas que a universidade oferece, como as cotas, possibilitam que as minorias, como os indígenas, tenham o mínimo para que permaneçam na universidade. Demoramos muito para chegar na universidade e, agora que chegamos, precisamos de um amparo para que possamos fazer parte desse mundo que é tão diferente do nosso, com valores e ensinamentos diferentes. É só através da educação que podemos entender como esse mundo funciona. É muito difícil para nós que somos da comunidade lutarmos pelos nossos direitos com as ferramentas desse outro mundo. A universidade propicia que entendamos essa nova realidade e a política de cotas permite que esse caminho de entendimento e adaptação fique mais transitável.”

A ampliação do ingresso expôs desigualdades internas antes pouco visíveis. Muitos estudantes cotistas enfrentam insegurança alimentar, dificuldades para arcar com transporte e moradia, necessidade de conciliar trabalho e estudo e episódios de discriminação racial e social.

Como resposta, universidades públicas expandiram políticas de permanência, transformando-as em eixo central da política universitária. Restaurantes universitários, auxílios financeiros, programas de moradia estudantil, apoio pedagógico e atendimento psicológico passaram a ser tratados como condições estruturais para a democratização do ensino superior, não como ações assistenciais pontuais.

Pesquisas indicam que a existência dessas políticas está diretamente relacionada à redução da evasão entre estudantes de baixa renda e à melhoria do desempenho acadêmico.

O que são políticas de permanência

  • Auxílio permanência e bolsas
  • Moradia estudantil
  • Alimentação subsidiada
  • Apoio pedagógico e psicológico

Fraudes e bancas: o endurecimento do controle

O fortalecimento da política de cotas também exigiu mecanismos de controle. Diante de denúncias de fraudes, universidades passaram a adotar bancas de heteroidentificação para verificar a autodeclaração racial dos candidatos.

Especialistas apontam que, sem verificação, a política ficava vulnerável à apropriação indevida por candidatos que não se enquadram nas desigualdades que as cotas buscam enfrentar. As bancas, compostas por membros com diversidade racial e formação específica, passaram a ser entendidas como instrumento de proteção da política pública.

O embate político: Santa Catarina em disputa

Em dezembro, deputados estaduais de Santa Catarina aprovaram uma lei que proíbe cotas raciais nas universidades estaduais. A medida provocou reação imediata do governo federal, de entidades acadêmicas, movimentos sociais e especialistas em Direito Constitucional.

Segundo reiteradas decisões do STF, ações afirmativas são compatíveis com a Constituição por promoverem a igualdade material. Para pesquisadores, o episódio representa tentativa de retrocesso e politização de uma política cuja eficácia já foi amplamente documentada por estudos acadêmicos e avaliações institucionais.

Por que a lei de SC é contestada

  • STF já reconheceu constitucionalidade das cotas
  • Estados não podem contrariar princípios constitucionais

Uma universidade menos homogênea e mais real

Estudos reunidos por fundações, universidades e portais educacionais indicam que a política de cotas não reduziu a excelência acadêmica. Ao contrário, redefiniu o conceito de qualidade universitária ao incorporar diversidade, pluralidade e maior conexão com demandas sociais concretas.

A universidade que emerge desse processo é mais representativa do Brasil real e também mais atravessada por conflitos, disputas e revisões institucionais. Em um cenário de pressões políticas e tentativas de restrição, a presença de cotistas se consolidou como um dos principais vetores de transformação do ensino superior público brasileiro.

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