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Piter Salvatore

Esta reportagem foi inteiramente apurada, redigida e editada por humanos. Também contém pequenos elementos interativos desenvolvido com auxílio de inteligência artificial, utilizada para gerar códigos e automações.

Pesquisa sobre doença pode abrir caminhos para tratamentos mais eficazes

Um estudo da UFG analisou o modus operandi de parasitas que afetam milhões de pessoas em vulnerabilidade socioeconômica, os microrganismos da espécie Leishmania braziliensis. Os resultados da investigação apontam que a doença pode manipular o sistema de defesa do corpo humano para se proliferar com mais facilidade.

A imagem mostra vrios parasitas Leishmania braziliensis sob um microscpio corados de roxo Eles exibem a forma alongada e flagelada de promastigotas Os parasitas esto agrupados com seus flagelos finos e ondulados visveis emaranhados ao redor deles contra um fundo claro quase branco
Protozoários da Leishmaniose spp
Imagem: Laboratório de Imunidade Natural – LIN/UFG

A pesquisa, intitulada “Papel da sinalização purinérgica na infecção por Leishmania braziliensis” foi conduzida pelo professor Wesley Lima de Paula, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (PPGBRPH), orientado pelo Dr. Rodrigo Saar Gomes, que já acompanha uma trajetória de estudos sobre o tema.

INFECÇÃO

Quando a doença começa a causar problemas, as células do corpo humano soltam um “grito de alerta”, que é uma molécula chamada de ATP (adenosina trifosfasto). Essa molécula é responsável principalmente pela parte energética do metabolismo das células.

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ATP

Adenosina Trifosfato: Molécula responsável por fornecer energia para as células do corpo.

Caso seja convertida exclusivamente em adenosina por enzimas específicas, a substância tem efeitos anti-inflamatórios que agem para combater a doença. Mas, para isso, ela precisa se ligar às células por meio de receptores, especialmente aqueles que os cientistas chamam de A2A e A2B. Esses receptores são como as “fechaduras” que permitem essas ligações entre as células e a molécula.

A imagem mostra a mo de uma pessoa com uma leso cutnea circular e avermelhada no dorso A leso tem bordas elevadas e um centro ulcerado com tecido granulado e crostas indicando inflamao e possvel infeco A pele ao redor da leso parece inchada e avermelhada A pessoa veste uma camisa listrada em tons claros
This Exemplo de lesão causada pela leishmaniose cutânea
Imagem: Centers for Disease Control and Prevention

INFECÇÃO

Por meio de testes em laboratório, Wesley descobriu que, na pele afetada das pessoas com a leishmaniose, havia uma quantidade maior de A2A. Só que, estranhamente, o receptor A2B estava menos presente. O grande problema é que, mesmo com mais receptores A2A, a inflamação nas células permanecia alta.

Para investigar o que acontecia, o professor realizou alguns testes em laboratório, infectando as células de defesa do corpo, chamadas de macrófagos, com uma amostra do parasita. A intenção do pesquisador era “fechar” o receptor A2A com um “bloqueador”, intitulado de ZM241385, a fim de entender se o parasita entrava com menos facilidade nas células ou se a confusão dentro delas diminuía. Sozinho, esse bloqueador não fez muita diferença.

Macrófagos “comendo” células fúngicas
Vídeo: Wikimedia Commons

CLÍMAX

Durante o experimento, o cientista percebeu que, quando o parasita infecta o hospedeiro, ele também incita as células a produzirem mais uma enzima chamada ADA (adenosima desaminase).

“Vimos que a ADA, que degrada a adenosina, estava aumentada e era fundamental para manter a célula de defesa ‘ligada’ e controlando o parasito”, detalha Wesley. Quando a ADA foi bloqueada nos experimentos, a infecção também piorou, a menos que o receptor A2A fosse inibido simultaneamente.

A imagem  uma ilustrao cientfica futurista com fortes influncias de arte abstrata representando a complexa interao molecular dentro de uma clula humana infectadaNo centro da composio h uma exploso vibrante e energtica em tons de laranja vermelho e amarelo que simboliza a molcula de ATP liberando energia A partir dessa exploso emergem formas mais fluidas e calmas em tons de azul e roxo que representam a adenosinaNa superfcie da clula que aparece como uma forma oval ou irregular em um tom esverdeado ou acinzentado destacam-se os receptores A2A representados como estruturas grandes e abertas quase como portais Prximos a eles h um nmero menor de receptores A2B que so mostrados parcialmente fechados ou com uma aparncia mais discretaO parasita Leishmania braziliensis  visvel como uma forma pequena mas com detalhes que sugerem sua presena distinta talvez em tons mais escuros ou contrastantes indicando sua intruso na clulaUma enzima a ADA  retratada em ao com elementos visuais que sugerem que ela est quebrando ou modificando a adenosina talvez atravs de linhas pontilhadas ou fragmentos visuaisA paleta de cores  vibrante e contrastante com uma mistura de tons quentes para energia e infeco e frios para calma e processos de converso O estilo geral remete a uma sensao de luta e desequilbrio utilizando formas geomtricas abstratas linhas dinmicas e texturas que transmitem a complexidade e o caos do ambiente celular sob ataque
Exemplo ilustrativo de como ocorre o processo de sinalização dentro da célula e a degradação da adenosina
Imagem: gerada por inteligência artificial

Sendo assim, para que a adenosina possa fazer seu trabalho, é necessário bloquear a enzima ADA com pentostatina, um fármaco específico, e o receptor A2A. Quando isso acontece, o parasita tem maior dificuldade em infectar as células.

Enzimas

São como pequenas “máquinas” biológicas que aceleram as reações químicas no nosso corpo, permitindo que processos essenciais para a vida aconteçam rapidamente.

A DOENÇA

A Leishmaniose é uma doença causada por protozoários do gênero Leishmania e que se manifesta de diversas formas. No Brasil, há sete espécies de leishmanias envolvidas na ocorrência dos casos. As mais importantes são: Leishmania (Leishmania) amazonensis, L. (Viannia) guyanensis e L.(V.) braziliensis. Seus transmissores principais são os mosquitos chamados pelos estudiosos de “flebotomíneos”, pertencentes à ordem Diptera, família Psychodidae, subfamília Phlebotominae, e gênero Lutzomyia, conhecidos popularmente, dependendo da localização geográfica, como mosquito-palha, tatuquira e birigui.

A imagem em close-up mostra um mosquito-palha fmea picando a pele O mosquito de cor clara e corpo pequeno tem asas translcidas e peludas Seu abdmen est distendido e avermelhado indicando que ele se alimentou de sangue Ele est posicionado sobre a pele que aparece como uma superfcie texturizada e levemente rosada
Mosquito-Palha Fêmea
Imagem: James Gathany

No ser humano, o período de incubação, tempo que os sintomas começam a aparecer desde a infecção, é de, em média, 2 a 3 meses, podendo apresentar períodos mais curtos, de 2 semanas, e mais longos, de 2 anos.

No Brasil, a leishmaniose mais comum é a do tipo cutânea (ou tegumentar), capaz de ocasionar lesões na pele. Os quadros mais graves incluem a leishmaniose mucosa e a visceral, que afetam mucosas e órgãos internos, como também o nariz, a boca e a garganta.

Esta última, causada pela espécie L. infantum, pode ser fatal dependendo da espécie do parasita e da resposta imunológica do hospedeiro. O foco da pesquisa, contudo, está nos dois primeiros tipos, devido ao maior acesso a pacientes para realização de exames e estudos laboratoriais.

PARTICULARIDADE

De acordo com os cientistas, o ser humano é um hospedeiro “acidental” do protozoário. A doença é classificada como uma “zoonose”, ou seja, atinge com maior predominância animais e outros mamíferos.

 A imagem  um infogrfico intitulado CICLO DA CONTAMINAO DA LEISHMANIOSE Leishmaniasis Contamination Cycle  No centro h uma representao de um corpo humano masculino mostrando rgos internos como o fgado e o intestino sugerindo a localizao da infeco  O ciclo comea no canto superior esquerdo com uma imagem de um mosquito-palha picando uma pessoa infectada indicada por uma mancha vermelha na pele representando a leso Uma seta azul aponta do mosquito para o corpo humano indicando a transmisso  Descendo no ciclo h uma ilustrao de um crculo de setas que representa a ingesto de parasitas pelo mosquito-palha que ento se multiplica dentro do mosquito Fora do crculo h uma imagem ampliada dos Parasitas Leishmania em formato alongado Uma seta azul aponta do mosquito infectado para a pele do humano indicando uma picada de mosquito-palha infectado  No lado esquerdo do infogrfico fora do corpo humano  mostrada uma representao de Ingesto de parasitas pelo mosquito e Infeco por parasitas no corpo humano  O ciclo se completa quando o mosquito-palha pica novamente uma pessoa perpetuando a transmisso
A leishmaniose é transmitida pela fêmea do Mosquito-Palha já infectada, que possivelmente se alimentou do sangue de um hospedeiro, como animais ou pessoas.
Infográfico: geração por inteligência artificial.

Vale ressaltar que os animais contaminados não podem infectar humanos, embora possam atrair o mosquito-palha. O inseto, por meio de seu comportamento hematófago, acaba por transmitir o protozoário para o organismo humano durante seu “repouso sanguíneo”, como explicado na imagem acima.

CONTEXTO POLÍTICO

Segundo Wesley, a patologia é “negligenciada”, pois “afeta uma parcela da população de forma sociopolítica”. Sendo uma patologia do chamado “sul global”, não existe vacina disponível para seres humanos e seus tratamentos atuais são agressivos e, muitas vezes, de difícil acesso para as populações mais vulneráveis.

NOTA:
A fabricação e a venda da Leish-Tec, única vacina contra a leishmaniose visceral canina foi suspensa pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 2023. Os motivos foram “desvios” de conformidade detectados em lotes do produto.

Além disso, de acordo com Rodrigo, há pouco interesse por parte da indústria farmacêutica em desenvolver medidas de prevenção e tratamento pelo fato de a enfermidade acontecer principalmente na zona rural.

“Essas doenças”, comenta Rodrigo, “não têm um grande aporte financeiro para estudo”. Apesar disso, no Brasil, a leishmaniose é considerada endêmica pelos pesquisadores. Chamando atenção para o papel da ciência básica nessa cadeia, o especialista afirma que:

“Muitas vezes, a gente não está necessariamente testando uma vacina ou tratamento, mas sim compreendendo mecanismos que vão ser usados, seja por nós mesmos ou por outros pesquisadores, para interferir nesses processos, em busca de melhorar a capacidade que temos de controlar essas infecções”.

ESTATÍSTICAS

De acordo com uma plataforma de dados do Ministério da Saúde, o Elastic, a leishmaniose tegumentar afeta mais de 300 mil pessoas no Brasil nos últimos 30 anos. A taxa de detecção supera os 60% e os estados com o maior número de casos por infecção são Pará, Bahia, Mato Grosso, Amazonas e Minas Gerais. A última atualização é de agosto de 2024.

O perfil demográfico dos infectados é majoritariamente masculino, o que registra um índice de 73,02% dos casos, totalizando 227.807 pessoas. Além disso, a patologia atinge principalmente as pessoas pardas, que contabilizam 196.445. A faixa etária com mais casos fica entre os 20 e 39 anos, ultrapassando 123 mil ocorrências.

Grfico intitulado MINISTRIO DA SADE - Leishmaniose Tegumentar apresenta dados sobre casos da doena no Brasil Destaca Casos Novos com 311968 registros Taxa de deteco de 6740 e Proporo de forma mucosa de 601 Abaixo h uma lista de TOTAL DE CASOS NOVOS POR UF INFECO incluindo estados como Amazonas Mato Grosso Mato Grosso do Sul So Paulo Paran Santa Catarina e Rio Grande do Sul seguido por menes a servios de mapa como Elastic Maps Service OpenMapTiles e OpenStreetMap contributors A imagem parece conter tambm um mapa ou elementos visuais no descritos textualmente O mapa ilustra a distribuio dos casos por estado com cores ou padres diferenciando regies de maior incidncia
A leishmaniose se manifesta com mais incidência nos estados da região norte, como Pará e Amazonas, e em estados do centro-leste, como Bahia e Minas Gerais.
Imagem: captura de tela do site Elastic

Os municípios com a maior taxa de infecção por Leishmania braziliensis são Manaus, com mais de 5 mil casos, Rio Preto da Eva, com mais de 4 mil, seguida por Valença, Taperoá e Presidente Figueiredo. 3 desses municípios estão localizados na região Norte do país.

No Centro-Oeste, o maior pico de infecção foi em 2009, tendo contabilizado 4.219 casos. O gráfico a seguir mostra como a patologia se manifestou de 2007 a 2024 por meio da quantidade de ocorrências registradas. De 2010 a 2022, a curva do número de casos oscilou, ora aumentando e ora diminuindo. A partir de 2023, o número de registros caiu para menos da metade, apresentando redução de 71%.

Em Goiás, o cenário reflete o panorama nacional. São 5.591 infectados, com uma taxa de detecção de 59,96%. A maior parte dos infectados é do sexo masculino e da cor parda. A doença se manifesta majoritariamente na faixa etária de 40 a 59 anos.

Existem ocorrências localizadas em 290 municípios. Niquelândia lidera os números, com quase 500 casos. Baliza e Alto Paraíso de Goiás vêm a seguir, totalizando, respectivamente, 257 e 208 ocorrências.

A imagem  um painel informativo sobre casos de leishmaniose em Gois BrasilNo canto superior esquerdo h um grande nmero 5591 com a descrio Casos Novos acima indicando o total de novos casosAbaixo no canto inferior esquerdo h duas caixas menores A primeira exibe Taxa de deteco com o valor 5996 A segunda mostra Proporo de forma mucosa com o valor 1060O lado direito da imagem  dominado por um mapa da Amrica do Sul com o Brasil em destaque O estado de Gois est sombreado em azul escuro indicando sua relevncia nos dados apresentados Acima do mapa o ttulo TOTAL DE CASOS NOVOS POR UF INFECO sugere que o mapa ilustra a distribuio geogrfica dos novos casos H controles de zoom e navegao no canto superior esquerdo do mapa
Goiás apresentou redução nos casos ao longo dos anos.
Imagem: captura de tela do site Elastic.


Saiba mais acessando os números na íntegra

Acesse o site do Elastic e confira as estatísticas

EFEITOS

No ponto de vista de Wesley, a pesquisa terá efeitos positivos e duradouros. “O entendimento da resposta imune a essa doença permite que, no futuro, novas estratégias imunoterapêuticas e estratégias vacinais possam garantir a melhor qualidade de vida das pessoas afetadas”, arremata.

As estratégias de prevenção apontadas pelo Ministério da Saúde incluem o uso de repelentes, o manejo ambiental, por meio da limpeza de quintais e terrenos, e o trabalho de conscientização.

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