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Pesquisa sobre doença pode abrir caminhos para tratamentos mais eficazes
Um estudo da UFG analisou o modus operandi de parasitas que afetam milhões de pessoas em vulnerabilidade socioeconômica, os microrganismos da espécie Leishmania braziliensis. Os resultados da investigação apontam que a doença pode manipular o sistema de defesa do corpo humano para se proliferar com mais facilidade.

Imagem: Laboratório de Imunidade Natural – LIN/UFG
A pesquisa, intitulada “Papel da sinalização purinérgica na infecção por Leishmania braziliensis” foi conduzida pelo professor Wesley Lima de Paula, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (PPGBRPH), orientado pelo Dr. Rodrigo Saar Gomes, que já acompanha uma trajetória de estudos sobre o tema.
INFECÇÃO
Quando a doença começa a causar problemas, as células do corpo humano soltam um “grito de alerta”, que é uma molécula chamada de ATP (adenosina trifosfasto). Essa molécula é responsável principalmente pela parte energética do metabolismo das células.
ATP
Adenosina Trifosfato: Molécula responsável por fornecer energia para as células do corpo.
Caso seja convertida exclusivamente em adenosina por enzimas específicas, a substância tem efeitos anti-inflamatórios que agem para combater a doença. Mas, para isso, ela precisa se ligar às células por meio de receptores, especialmente aqueles que os cientistas chamam de A2A e A2B. Esses receptores são como as “fechaduras” que permitem essas ligações entre as células e a molécula.

Imagem: Centers for Disease Control and Prevention
INFECÇÃO
Por meio de testes em laboratório, Wesley descobriu que, na pele afetada das pessoas com a leishmaniose, havia uma quantidade maior de A2A. Só que, estranhamente, o receptor A2B estava menos presente. O grande problema é que, mesmo com mais receptores A2A, a inflamação nas células permanecia alta.
Para investigar o que acontecia, o professor realizou alguns testes em laboratório, infectando as células de defesa do corpo, chamadas de macrófagos, com uma amostra do parasita. A intenção do pesquisador era “fechar” o receptor A2A com um “bloqueador”, intitulado de ZM241385, a fim de entender se o parasita entrava com menos facilidade nas células ou se a confusão dentro delas diminuía. Sozinho, esse bloqueador não fez muita diferença.
Macrófagos “comendo” células fúngicas
Vídeo: Wikimedia Commons
CLÍMAX
Durante o experimento, o cientista percebeu que, quando o parasita infecta o hospedeiro, ele também incita as células a produzirem mais uma enzima chamada ADA (adenosima desaminase).
“Vimos que a ADA, que degrada a adenosina, estava aumentada e era fundamental para manter a célula de defesa ‘ligada’ e controlando o parasito”, detalha Wesley. Quando a ADA foi bloqueada nos experimentos, a infecção também piorou, a menos que o receptor A2A fosse inibido simultaneamente.

Imagem: gerada por inteligência artificial
Sendo assim, para que a adenosina possa fazer seu trabalho, é necessário bloquear a enzima ADA com pentostatina, um fármaco específico, e o receptor A2A. Quando isso acontece, o parasita tem maior dificuldade em infectar as células.
Enzimas
São como pequenas “máquinas” biológicas que aceleram as reações químicas no nosso corpo, permitindo que processos essenciais para a vida aconteçam rapidamente.
A DOENÇA
A Leishmaniose é uma doença causada por protozoários do gênero Leishmania e que se manifesta de diversas formas. No Brasil, há sete espécies de leishmanias envolvidas na ocorrência dos casos. As mais importantes são: Leishmania (Leishmania) amazonensis, L. (Viannia) guyanensis e L.(V.) braziliensis. Seus transmissores principais são os mosquitos chamados pelos estudiosos de “flebotomíneos”, pertencentes à ordem Diptera, família Psychodidae, subfamília Phlebotominae, e gênero Lutzomyia, conhecidos popularmente, dependendo da localização geográfica, como mosquito-palha, tatuquira e birigui.

Imagem: James Gathany
No ser humano, o período de incubação, tempo que os sintomas começam a aparecer desde a infecção, é de, em média, 2 a 3 meses, podendo apresentar períodos mais curtos, de 2 semanas, e mais longos, de 2 anos.
No Brasil, a leishmaniose mais comum é a do tipo cutânea (ou tegumentar), capaz de ocasionar lesões na pele. Os quadros mais graves incluem a leishmaniose mucosa e a visceral, que afetam mucosas e órgãos internos, como também o nariz, a boca e a garganta.
Esta última, causada pela espécie L. infantum, pode ser fatal dependendo da espécie do parasita e da resposta imunológica do hospedeiro. O foco da pesquisa, contudo, está nos dois primeiros tipos, devido ao maior acesso a pacientes para realização de exames e estudos laboratoriais.
PARTICULARIDADE
De acordo com os cientistas, o ser humano é um hospedeiro “acidental” do protozoário. A doença é classificada como uma “zoonose”, ou seja, atinge com maior predominância animais e outros mamíferos.

Infográfico: geração por inteligência artificial.
Vale ressaltar que os animais contaminados não podem infectar humanos, embora possam atrair o mosquito-palha. O inseto, por meio de seu comportamento hematófago, acaba por transmitir o protozoário para o organismo humano durante seu “repouso sanguíneo”, como explicado na imagem acima.
CONTEXTO POLÍTICO
Segundo Wesley, a patologia é “negligenciada”, pois “afeta uma parcela da população de forma sociopolítica”. Sendo uma patologia do chamado “sul global”, não existe vacina disponível para seres humanos e seus tratamentos atuais são agressivos e, muitas vezes, de difícil acesso para as populações mais vulneráveis.
A fabricação e a venda da Leish-Tec, única vacina contra a leishmaniose visceral canina foi suspensa pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 2023. Os motivos foram “desvios” de conformidade detectados em lotes do produto.
Além disso, de acordo com Rodrigo, há pouco interesse por parte da indústria farmacêutica em desenvolver medidas de prevenção e tratamento pelo fato de a enfermidade acontecer principalmente na zona rural.
“Essas doenças”, comenta Rodrigo, “não têm um grande aporte financeiro para estudo”. Apesar disso, no Brasil, a leishmaniose é considerada endêmica pelos pesquisadores. Chamando atenção para o papel da ciência básica nessa cadeia, o especialista afirma que:
“Muitas vezes, a gente não está necessariamente testando uma vacina ou tratamento, mas sim compreendendo mecanismos que vão ser usados, seja por nós mesmos ou por outros pesquisadores, para interferir nesses processos, em busca de melhorar a capacidade que temos de controlar essas infecções”.
ESTATÍSTICAS
De acordo com uma plataforma de dados do Ministério da Saúde, o Elastic, a leishmaniose tegumentar afeta mais de 300 mil pessoas no Brasil nos últimos 30 anos. A taxa de detecção supera os 60% e os estados com o maior número de casos por infecção são Pará, Bahia, Mato Grosso, Amazonas e Minas Gerais. A última atualização é de agosto de 2024.
O perfil demográfico dos infectados é majoritariamente masculino, o que registra um índice de 73,02% dos casos, totalizando 227.807 pessoas. Além disso, a patologia atinge principalmente as pessoas pardas, que contabilizam 196.445. A faixa etária com mais casos fica entre os 20 e 39 anos, ultrapassando 123 mil ocorrências.

Imagem: captura de tela do site Elastic
Os municípios com a maior taxa de infecção por Leishmania braziliensis são Manaus, com mais de 5 mil casos, Rio Preto da Eva, com mais de 4 mil, seguida por Valença, Taperoá e Presidente Figueiredo. 3 desses municípios estão localizados na região Norte do país.
No Centro-Oeste, o maior pico de infecção foi em 2009, tendo contabilizado 4.219 casos. O gráfico a seguir mostra como a patologia se manifestou de 2007 a 2024 por meio da quantidade de ocorrências registradas. De 2010 a 2022, a curva do número de casos oscilou, ora aumentando e ora diminuindo. A partir de 2023, o número de registros caiu para menos da metade, apresentando redução de 71%.
Em Goiás, o cenário reflete o panorama nacional. São 5.591 infectados, com uma taxa de detecção de 59,96%. A maior parte dos infectados é do sexo masculino e da cor parda. A doença se manifesta majoritariamente na faixa etária de 40 a 59 anos.
Existem ocorrências localizadas em 290 municípios. Niquelândia lidera os números, com quase 500 casos. Baliza e Alto Paraíso de Goiás vêm a seguir, totalizando, respectivamente, 257 e 208 ocorrências.

Imagem: captura de tela do site Elastic.
EFEITOS
No ponto de vista de Wesley, a pesquisa terá efeitos positivos e duradouros. “O entendimento da resposta imune a essa doença permite que, no futuro, novas estratégias imunoterapêuticas e estratégias vacinais possam garantir a melhor qualidade de vida das pessoas afetadas”, arremata.
As estratégias de prevenção apontadas pelo Ministério da Saúde incluem o uso de repelentes, o manejo ambiental, por meio da limpeza de quintais e terrenos, e o trabalho de conscientização.
