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Um em cada dois adultos goianos ainda não conseguiu completar a educação básica obrigatória. Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que 43,4% da população de 25 anos ou mais em Goiás — equivalente a 2,1 milhões de pessoas — não concluíram sequer o ensino médio em 2024.

Sob esse panorama, o cenário educacional goiano espelha um desafio nacional, mas com contornos específicos que evidenciam as desigualdades estruturais do sistema de ensino. Embora o estado tenha registrado avanços graduais na conclusão da educação básica, saltando de 26,6% em 2016 para 31,0% em 2024, o ritmo de crescimento ainda é insuficiente para superar o déficit educacional acumulado ao longo das décadas.

“Como profundo defensor das juventudes, compreendo que esses dados revelam uma ausência de políticas públicas que garanta de fato um direito constitucional que é o direito à educação”, afirma Luís Duarte Vieira, presidente do Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude – Cajueiro. O Cajueiro é uma associação civil sem fins lucrativos, com sede em Goiânia e atuação em todo território nacional, que possui três eixos estruturantes em sua atuação: a formação, a assessoria e a pesquisa em juventude.

Luís destaca a concepção de alguns pesquisadores que falam da juventude “Nem-Nem”, que nem trabalha e nem estuda. No entanto, para Vieira, há um outro grupo de pesquisadores — com o qual o Cajueiro se identifica — que considera o olhar da perspectiva da juventude “Sem-Sem”: juventude sem estudo e sem trabalho devido a ausência de políticas públicas.

“Nós estamos falando de jovens empobrecidos, em situação de vulnerabilidade e com uma série de direitos negados. E a educação é apenas mais um dos múltiplos direitos que são negados às juventudes”, salienta.

Distribuição por Nível de Instrução – Visualização Avançada

Evolução do Nível Educacional

Distribuição da população de 25 anos ou mais por nível de instrução (2016-2024)
5.5%
Sem Instrução (2024)
26.2%
Fundamental Incompleto (2024)
7.4%
Fundamental Completo (2024)
4.9%
Médio Incompleto (2024)
31.3%
Médio Completo (2024)
4.2%
Superior Incompleto (2024)
20.5%
Superior Completo (2024)
Como interagir: Clique nos ícones acima para destacar cada nível de instrução no gráfico. Passe o mouse sobre os elementos para ver detalhes. Use os botões no topo para alternar entre dados do Brasil e de Goiás.

Perfil dos que não concluíram a educação básica

Entre os 43,4% que não finalizaram a educação básica obrigatória, o perfil é diversificado: 4,2% são pessoas sem instrução formal, 26,0% possuem ensino fundamental incompleto, 6,7% completaram apenas o ensino fundamental e 6,5% começaram, mas não terminaram o ensino médio.

“Este indicador é mais relevante para pessoas que, por idade, já poderiam ter finalizado seu ciclo regular de escolarização, geralmente por volta dos 25 anos”, explica o documento do IBGE, destacando a importância de analisar essa faixa etária específica.

Magna Fonseca, 50 anos, se enquadra nos 26,0% que sequer concluíram o ensino fundamental. Magna abandonou os estudos na 5ª série (atual 6º ano), quando engravidou do seu primeiro filho aos 13 anos. Desde então, nunca mais retomou os estudos e atualmente trabalha como diarista. “Se eu tivesse condições, eu voltaria para a escola de novo. Pelo menos para terminar”, declara.

Magna é um reflexo das disparidades educacionais, em que 23,5% das mulheres abandonam os estudos devido a gravidez na adolescência. Apesar disso, a maior causa de evasão escolar permanece sendo a necessidade de trabalhar, tanto para homens (53,6%) quanto para mulheres (25,1%). Essas disparidades também se aprofundam quando analisadas por cor ou raça.

Em 2024, a taxa de analfabetismo para pessoas brancas foi de 2,7%, enquanto para pessoas pretas ou pardas atingiu 4,1% — uma diferença de 1,4 ponto percentual. Entre idosos, essa desigualdade se amplifica dramaticamente: a taxa de analfabetismo de pessoas brancas com 60 anos ou mais foi de 9,6%, enquanto entre pessoas pretas ou pardas chegou a 17,7%.

Disparidades Educacionais por Cor/Raça – Visualização Avançada

Disparidades Educacionais por Cor/Raça

Taxas de analfabetismo na população geral e entre idosos (2024)
2.7%
Brancos (população geral)
4.1%
Pretos/Pardos (população geral)
9.6%
Brancos idosos (60+)
17.7%
Pretos/Pardos idosos (60+)
Principais achados: As taxas de analfabetismo são significativamente maiores entre pretos e pardos em comparação com brancos. Entre idosos, a disparidade se amplifica dramaticamente, com pretos/pardos idosos apresentando taxa quase 2 vezes maior que brancos idosos.

Analfabetismo persiste, principalmente entre idosos

Paralelamente ao déficit na educação básica, Goiás ainda enfrenta o desafio do analfabetismo. Em 2024, o estado registrou 213 mil pessoas com 15 anos ou mais analfabetas, representando uma taxa de 3,6% — uma redução de 0,4 ponto percentual em relação a 2023.

O analfabetismo em Goiás revela um padrão geracional marcante: enquanto a taxa geral é de 3,6%, entre pessoas com 60 anos ou mais ela salta para 14,0%, quase quatro vezes superior à taxa dos mais jovens. Aurilene Nascimento, de 56 anos, é um exemplo dessa realidade.

Nascida em São João do Carú, no Maranhão, quando jovem estudou apenas até a 1ª série (atual 2° ano), o suficiente para aprender pelo menos a escrever o próprio nome. Após o falecimento do seu pai, foi obrigada a interromper os estudos para ajudar na lavoura e prover o sustento da família. Apesar disso, ao longo da vida, Aurilene aproveitou as poucas oportunidades que teve para estudar — que, infelizmente, não foram muitas.

“Quando eu fui tendo meus filhos, eu tentei estudar, mas o meu marido nunca me deixou ir pra escola porque tinha as crianças pra cuidar. Os filhos cresceram, mas depois vieram os netos. Aí quando eu pensava de novo em ir para a escola, tinha os meus netos pra cuidar”, relata Aurilene, destacando uma vida inteira voltada para os cuidados com a família.

Ainda assim, a vontade pelo conhecimento nunca arrefeceu. “Estou velha, mas agora eu vou estudar de novo. Em nome de Jesus”, completa Aurilene, desejosa em não ser mais parte da estatística que posiciona a população idosa de pretos e pardos como a mais afetada pelo analfabetismo no país, e o Maranhão como o quinto estado com a maior taxa de analfabetos.

Taxa de Analfabetismo no Brasil – Visualização Avançada

Taxa de Analfabetismo no Brasil

Distribuição por Unidade da Federação em 2024 (População de 15 anos ou mais)
5.1%
Média Nacional
14.3%
Maior Taxa (AL)
1.8%
Menor Taxa (DF)
3.6%
Média em Goiás
0-3%
3-6%
6-9%
9-12%
12%+
Como interpretar: O mapa mostra a taxa de analfabetismo por estado em 2024. Cores mais escuras indicam taxas mais altas. Passe o mouse sobre cada estado para ver detalhes. A taxa considera pessoas de 15 anos ou mais que não sabem ler ou escrever um bilhete simples.

Mulheres lideram avanços educacionais

Um dado que se destaca é o protagonismo feminino nos avanços educacionais. No ensino superior, 36,4% das mulheres de 18 a 24 anos frequentam ou já concluíram o ensino superior, superando a meta nacional de 33%. Entre os homens, esse percentual é de apenas 26,3%.

A diferença se mantém quando analisada a população jovem de 15 a 29 anos: 19,5% das mulheres estão ocupadas e estudando, contra 17,4% dos homens. Enquanto 35,0% das mulheres se dedicam exclusivamente ao trabalho, entre os homens esse percentual sobe para 54,2%.

Samanta Nascimento, graduanda em Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG), é um exemplo disso. Neta de Aurilene, seu principal encorajamento para estudar vêm justamente dos seus avós, que trabalharam duro para dar aos netos circunstâncias diferentes das suas.

“Meus avós sempre me incentivaram a ler e a estudar, pois sofreram na pele com a falta de oportunidades que o analfabetismo traz. Para mim, ser uma das primeiras da família a chegar ao ensino superior é uma sensação de dever cumprido”, ressalta Samanta.

Educação avança, mas desafios persistem

Os dados revelam que, apesar dos avanços graduais, Goiás enfrenta desafios estruturais significativos para universalizar o acesso à educação de qualidade. O déficit de 43,4% na conclusão da educação básica entre adultos reflete não apenas problemas atuais do sistema educacional, mas também as consequências de décadas de investimento insuficiente em educação.

Luís Duarte Vieira, em sua atuação como presidente do Cajueiro, destaca como um dos seus maiores motivos de orgulho a Trilha Uni, projeto que ajuda a preparar alunos para ingressarem na faculdade. “É um modo de contribuir com os jovens que desejam realizar os vestibulares e o Enem”, destaca. Apenas na primeira chamada, em 2025 o Trilha Uni contribuiu para a aprovação na universidade de 18 estudantes participantes do programa.

Assim, as iniciativas do Cajueiro seguem em consenso com as recomendações do IBGE, que evidenciam que o principal desafio segue sendo “reduzir as desigualdades de acesso ao ensino superior, além de promover um combate efetivo ao atraso escolar e desenvolver políticas de incentivo à permanência na escola”, conclui o relatório.

Informações sobre EJA
Educação de Jovens e Adultos (EJA): Atualmente, a Secretaria de Estado da Educação disponibiliza turmas EJA em diferentes municípios para que as pessoas a partir de 15 anos de idade possam concluir a Educação Básica. As turmas são ofertadas de forma presencial ou à distância (EJATec). A oferta é feita em etapas, sendo a 1ª etapa correspondente aos anos iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano); a 2ª etapa equivalente aos anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano); e a 3ª etapa ao Ensino Médio (1ª a 3ª série). Podem se matricular no Ensino Fundamental jovens e adultos a partir dos 15 anos de idade. Já os interessados em concluir o Ensino Médio precisam ter, no mínimo, 18 anos de idade. Para esclarecimento de dúvidas, entre em contato com geeja@seduc.go.gov.br ou (62) 3243-6763.

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