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A artista de rap Ebony lançou no último mês o terceiro álbum de sua carreira, o “KM2”, ou “Queimados”. Com 11 faixas que mesclam trap, rap, gospel, funk e trance, entre outros estilos musicais, a rapper renovou sua discografia – dessa vez com letras mais intimistas e com uma carga política logo na faixa-título.

A música escolhida para abrir o álbum, “KM2”, retrata a realidade da Baixada Fluminense e a onda de assassinatos que ocorreram nos últimos quatro anos na região metropolitana do Rio de Janeiro. Ebony e Larinhx, DJ que colabora na canção, mesclam relatos de moradores da região, reportagens jornalísticas e conseguem encaixar a voz de um vendedor de balas descrevendo seus produtos. Ao citar “Bala de canela, bala de mel, bala mentos, balas toffee, coraçãozinho”, as artistas acrescentam sons de tiros a cada doce citado.

Temas como religião, abuso, hipersexualização, competição feminina e busca pelo amor estão presentes nas canções, alcançando quem escuta o disco de forma íntima. Geovanna Gomes, estudante do curso de Direito da Universidade Federal de Goiás, é uma das ouvintes que se sentiram tocadas pelo álbum, principalmente com a faixa “Não Lembro Da Minha Infância”.

“Sua temática relacionada à infância é provavelmente o que mais toca e chama atenção, onde paramos pra refletir sobre como os acontecimentos de quando éramos crianças influenciam na nossa vida adulta.”, afirmou a jovem de 19 anos. Ela completa: “São traumas que persistem, dores que influenciam na nossa personalidade e na forma de ver o mundo”. No disco, a cantora reflete sobre momentos onde vivenciou abusos ainda muito nova.

Geovanna conta que se sentiu representada ao ouvir as músicas, onde Ebony fala sobre crescer em um lar religioso e receber orientações sobre casamento, além de precisar ser “mansa” para conseguir ter um marido – um dos trechos da canção já citada acima. “Hoje, para mulheres como nós, que passamos por essa quebra de paradigma e nos tornamos independentes, homens de fato são meros acessórios”, diz a jovem.

Ebony traz em KM2 temas como dor, desejo e fé enquanto mulher negra. Para a estudante de Direito, essa escolha é extremamente importante: “Sua relação com o desejo desde seus trabalhos anteriores traz um contraste com aquilo que se espera das mulheres, mostrando que nós também podemos sentir, dominar e não apenas ser conduzidas”, fala. Ela também cita outras artistas com trabalhos semelhantes, mas igualmente importantes: Mc Luanna, Ajuliacosta, Duquesa e Tasha e Tracie.

Geovanna diz que um dos pontos positivos do álbum também é a presença de críticas sociais em músicas descontraídas: “Em ‘Hong He’, uma das suas músicas mais animadas, traz como pré-refrão ‘absorventes eram pra ser de graça, as crianças não saem de casa, vim do futuro ainda ligam pra raça, na escola não aprendi nada’”. Por fim, ela afirma: “Em sua faixa de abertura, a valorização da comunidade em que viveu também mostra algo que já existe na cena mas que precisa ser resgatado, pois não esquecer as origens é um passo importante, sobretudo para artistas do rap”.

Solo fértil

Para que Ebony e outros artistas possam ascender no meio musical e falar de suas vivências na periferia, organizações culturais que os apoiem são necessários. A presença dessas instituições auxilia os jovens que possuem o desejo de fazer arte a partir da realidade que conhecem. Ayah Akili, produtora cultural da Organização Negra Periférica Carolina Maria de Jesus, de Goiânia, fala um pouco sobre as suas impressões do álbum da cantora.

Ayah afirma que o KM2 “coloca em evidência o protagonismo de mulheres negras em sua própria sexualidade, gestão de seus negócios, de suas dores, sua estética e sua maneira insubmissa de transitar no mundo”. Além disso, a produtora cultural discorre sobre território como centralidade, que parte da memória coletiva como povo: “O hip hop, por natureza, é um movimento bairrista, cuja estética textual é constituída por elementos regionalistas que vão desde a linguagem, à expressão e autoetnografia em cada composição”, afirma.

Ela continua: “Em Goiás não é diferente: a tradição do hip hop em manter a fidelidade de ser um instrumento de denúncia e observação do cotidiano de um cidadão marginalizado está presente da velha à nova escola”. Akili também apresenta os desafios que artistas enfrentam em suas carreiras: “Acredito que questões econômicas, educacionais e tecnológicas são os principais desafios. É um custo muito alto ser artista independente. No que tange ao aspecto educacional, no Estado de Goiás temos artistas negros homens e mulheres de grande potência, poder de influência, originalidade. No entanto, é preciso oportunizar a estes veículos de formação política, educativa e sociocultural que consiga comportar a diversidade e a característica intransigente do movimento”.

Confira dicas de artistas goianos por Ayah Akili:

Artistas de Goiás no Hip Hop

Artistas de Goiás que usam o Hip Hop como instrumento de denúncia e observação do cotidiano de um cidadão marginalizado

Cl A Posse

Canta sobre a realidade do jovem negro em Aparecida de Goiânia, na década de 2000.

A produtora cultural afirma que a existência de organizações como a Organização Negra Periférica Carolina Maria de Jesus “planta no seio das comunidades o princípio da autorresponsabilidade na gestão de seu trunfo individual e coletivo, enquanto povo”. Ela continua: “A atuação de base comunitária fortalece e alimenta a autoestima e a consciência histórica, pois estes espaços convocam cada cidadão e cidadã a repensar os valores e princípios herdados do contexto colonial, que perpetuam até hoje violências sistêmicas contra essas populações”.

Por fim, Akili diz que “ações, programas que busquem reparação, proteção e consciência dos territórios, mitigando a desigualdade econômica que reflete no desempenho educacional dos povos negros em todo país” são meios que fortalecem artistas independentes. “Além da importância da sociedade em se organizar para enfrentar as consequências da colonização. O álbum de Ebony atua diretamente na denúncia dessas desigualdades históricas”, conclui.

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