- o conservadorismo e as amarras contra a leitura - 14 de junho de 2026
A leitura, apesar de ser vista apenas como passatempo, pode mover uma grande massa de pessoas em prol de uma sociedade; e é por isso que o meio conservador luta tanto para que as pessoas não se importem com isso: ler.
Já percebeu que ter um curso superior não é nada? Estudar sobre outras culturas ou métodos de ensino não é eficiente; relembrar acontecimentos históricos não é necessário; estudar é perda de tempo. Mas por quê?
A teoria crítica, proposta principalmente por Adorno e Horkheimer, busca libertar um sujeito de suas “algemas” a partir da análise de poder, opressão e desigualdade da sociedade em que está inserido. Assim, a leitura se torna não mais apenas um meio de passatempo, mas um meio de adquirir conhecimento e entender o meio em que estamos inseridos; podendo também ser uma quebra de ciclo para aqueles acabam em um looping em decorrência da hereditariedade. Um indivíduo leitor não é apenas “um leitor”, ele é, também, um questionador que busca respostas para suas perguntas. E isso assusta o meio conservador: questionamentos. Incentivar a leitura não apenas descredibiliza as falas de um grupo conservador, mas levanta perguntas que nem eles próprios têm respostas para dar.
Além disso, também há constante tentativa de censura à clássicos literários. No Brasil, por exemplo, tivemos a tentativa de censura de “O menino Marrom” de Ziraldo, lançado em 1986. Após tanto tempo, o que poderia ter de tão assustador para as pessoas em ver crianças lendo sobre racismo e aprendendo a não o perpetuar?
De fato, o conservadorismo é contra tudo o que pode agregar para uma sociedade. São a favor do homeschooling (prática de ensino em casa), são contra o ensino de filosofia e sociologia nas escolas, são contra as universidades federais, defendem o fechamento de bibliotecas, censuram e agridem moralmente (às vezes fisicamente) educadores…
O que pode ser feito? Do ponto de vista da biblioteconomia, combater tentativas de censura é um dever, não um querer. Enquanto bibliotecários, não somos apenas organizadores de acervos; somos informação, resistência. Já reparou que, em uma invasão/guerra/conflito entre nações, as bibliotecas são as que primeiro sofrem ataques? Além de apagar a história de uma sociedade, se destrói qualquer tentativa de resistência.
Sejam bibliotecas comunitárias, bibliotecas escolares, bibliotecas especializadas, bibliotecas móveis…, o bibliotecário é o responsável por apresentar os livros e introduzir um indivíduo ao pensamento, mas sem tentativas de moldar sua opinião (ao contrário do que o conservadorismo faz com seus moldes prontos para seus seguidores).
Após este detalhamento, é necessário se perguntar: como o meio conservador está tão presente no cotidiano como vemos agora?
Apesar de ser uma ideologia que defende os valores tradicionais da família e de Deus, o conservadorismo sempre esteve contido em um círculo mais fechado para seus semelhantes (religiosos e, claro, conservadores) e, em alguns casos, tentavam buscar pessoas de fora da comunidade para conversão, seja ela moral ou religiosa.
Com a intensificação da internet e as trends criadas, ficou cada vez mais fácil para esta parte da sociedade espalhar suas crenças e desejos, ideias, se expressarem; desse jeito se torna muito mais fácil a comunicação com a comunidade externa, desde jovens a pessoas mais velhas. Juntando o conservadorismo com a parte do entretenimento, têm-se a formação de um discurso feito especificamente para iludir e consolar aqueles mais vulneráveis: quanto mais esperançoso for o discurso, mais pessoas irão se inflar com esperança de algo com que sonham.
Cada vez menos textos, cada vez mais palavras faladas e tiradas de contexto, vídeos cada vez mais curtos e apelativos, muitas vezes repletos de notícias falsas, tornando qualquer tentativa de explicação totalmente falha. Assim, deixar que um indivíduo busque pela liberdade intelectual, é perder um seguidor cego e manipulável (e possível futuro manipulador).
Logo, é mais que dever do profissional de biblioteconomia pensar e lutar por projetos públicos, ainda que sejam difíceis de conseguir, e levar a criticidade e o poder de questionamento àqueles que não têm o devido acesso.
Referências:
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CHAVES, Vera Lúcia Jacob. ARAÚJO, Rhoberta Santana de. A ofensiva neoconservadora contra as universidades federais no Brasil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 43, n. 1, p. 203-220, 2022. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2446-94242022000100203. Acesso em: 14 jun. 2026
MAZZEI, Amanda. O avesso da censura: um raio-x da perseguição recente à literatura infantojuvenil em escolas brasileiras. CBN, 27 ago. 2024. Disponível em: https://cbn.globo.com/cultura/noticia/2024/08/27/o-avesso-da-censura-um-raio-x-da-perseguicao-recente-a-literatura-infantojuvenil-em-escolas-brasileiras.ghtml. Acesso em: 14 jun. 2026.
MIRANDA, Amanda. Professores são atacados por pais extremistas em Florianópolis. ICL Notícias, 15 out. 2025. Disponível em: Professores são atacados por pais extremistas em Florianópolis. Acesso em: 14 jun. 2026.
MONSANI, D.; VICÊNCIA DAS CHAGAS MACHADO, J.; GIANI RABELO; LUIZ DE BITTENCOURT, R. Bibliotecas sem acervo: os movimentos neoconservadores e a perseguição aos livros. Revista ACB, Florianópolis, v. 30, n. 1, 2025. Disponível em: https://revistaacb.emnuvens.com.br/racb/article/view/2204. Acesso em: 14 jun. 2026.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Desmonte das bibliotecas públicas evidencia o desinvestimento cultural e educacional no Brasil. Jornal da USP, 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/desmonte-das-bibliotecas-publicas-evidencia-o-desinvestimento-cultural-e-educacional-no-brasil/. Acesso em: 14 jun. 2026.
