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Em nossa primeira reportagem, destrinchamos o título informal que Goiânia carrega: o de “capital do carro”. O apelido não vem por acaso, mas sim pelo reflexo de vias saturadas por veículos individuais enquanto o sistema rodoviário coletivo fica em segundo plano. Para transformar essa percepção empírica em dados concretos, desenvolvemos um produto experimental utilizando inteligência artificial (IA) combinada com imagens capturadas por drones. Nosso objetivo foi contabilizar, com precisão, a disparidade real que acontece em um dos pontos mais movimentados da capital goiana.

Utilizando imagens aéreas de drone processadas por um modelo experimental de visão computacional voltado para contagem de objetos, analisamos o fluxo de veículos na cidade. Os resultados automatizados evidenciam o tamanho do desafio urbano enfrentado pela população.

Em um cruzamento movimentado, a inteligência artificial identificou e demarcou de forma precisa 40 veículos individuais disputando simultaneamente o espaço reduzido da interseção.

Avenida Mutirão, Setor Bueno, 9 de abril de 2026. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

O cenário ganha contornos ainda mais alarmantes quando expandimos a visão para uma perspectiva panorâmica de uma das principais avenidas da cidade. Conforme documentado, a ferramenta de IA mapeou um congestionamento linear impressionante, contabilizando 105 carros distribuídos ao longo da via. No meio de todo esse trânsito, a imagem revela um dado crucial para o nosso debate: apenas dois ônibus operavam naquele trecho no momento do registro.

Estação 84 do BRT, Avenida 84, 11 de maio de 2026. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

Em outra área comercial de intenso fluxo de Goiânia, a IA apontou mais 32 carros estacionados ou transitando em frente a um grande estabelecimento local (Hiper Camelódromo), reforçando a presença do automóvel no cotidiano goianiense.

Hipercamelódromo OK, Campinas, 29 de novembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

A proporção capturada na segunda imagem (105 carros para apenas 2 ônibus) resume visualmente o nó da mobilidade urbana em Goiânia: pouquíssimos veículos de grande capacidade compartilhando espaço com centenas de carros que transportam, na maioria das vezes, apenas uma pessoa.

Por que os goianos preferem transporte individual?

Para compreender a raiz desse fenômeno que as lentes do drone expuseram, conversamos com o Professor Willer Luciano Carvalho, Doutor e coordenador do curso de Engenharia de transportes da Universidade Federal de Goiás. Segundo ele, o diagnóstico de Goiânia caminha em consonância com o restante do país, mas caminha para um ponto de ruptura.

“A mobilidade em Goiânia, assim como em todo o Brasil, é focada no automóvel, e cada dia mais com destaque para os veículos individuais, em detrimento do coletivo. Isso é prejudicial, pois com esse modelo, as cidades carecem de espaço para os veículos, ficando cada dia mais limitados os espaços destinados às pessoas”, avalia o professor. Ele alerta que a conta dessa escolha já chegou: “Esse modelo já se mostra insustentável, onde nas grandes cidades as taxas de congestionamento e tempo no trânsito só aumentam, trazendo prejuízos à população”.

Ao ser questionado se essa preferência massiva pelo carro, mapeada pelo nosso produto, seria um traço puramente cultural ou uma resposta às limitações estruturais do transporte público, o entrevistado ponderou que há uma forte união de ambos os fatores. “Existe sim uma questão cultural, temos o carro como algo de status na nossa sociedade. Mas também pela falta de investimento no transporte coletivo e a precarização desse serviço. Sistemas mais eficientes como sobre trilhos, são pouco utilizados no país, seja para deslocamentos dentro de grandes centros urbanos, ou no transporte intermunicipal ou interestadual”, explica.

Caminhos para o futuro

Enquanto metrópoles como São Paulo buscam mitigar seus problemas de tráfego recorrendo a redes integradas de metrô e trens, Goiânia permanece dependente de sua frota de ônibus. “Acho que as cidades precisam pensar em modelos mais eficientes para o transporte de passageiros, como os sistemas sobre trilhos, e também valorizar o transporte ativo (como bicicletas e caminhabilidade), com políticas, ações e investimentos voltados para essas áreas. Muito discurso existe, mas as ações acabam sendo, prioritariamente, para a priorização do transporte rodoviário”, critica o especialista.

Os dados visuais obtidos pelo nosso experimento provam que, sem uma mudança drástica na atratividade do sistema público, o asfalto de Goiânia continuará sendo privatizado por veículos particulares. O caminho para equilibrar essa balança exige tanto infraestrutura quanto uma mudança de mentalidade. “Precisamos requalificar o transporte coletivo urbano, seja na melhoria dos sistemas já existentes, ou na implantação de sistemas mais eficientes. Mas também temos o desafio de quebrar com a cultura de desprezo que existe, principalmente contra o ônibus”, conclui o professor.

Se as imagens capturadas do alto apontam o diagnóstico de uma cidade sufocada pelo individualismo no transporte, Goiânia precisa urgentemente desenvolver maneiras mais eficientes de resolver isso. 

Reportagem: Ana Luiza Póvoa e Tainá Mariano.

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