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Projetado para transportar mais pessoas ocupando menos espaço, o transporte coletivo tem presença discreta na capital goiana. Destacando-se como a “capital do carro”, Goiânia está entre as cidades que mais utilizam o transporte individual.
A pesquisa Viver nas Cidades: Mobilidade Urbana, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec, empresa privada especializada em pesquisa de mercado e opinião pública, aponta que mais da metade dos goianienses utilizam o carro como principal meio de transporte no dia a dia — sendo 41% veículo próprio e 10% por aplicativo.
A predominância de carros não é apenas uma impressão. Vista do alto, Goiânia revela um padrão de comportamento. Em imagens aéreas captadas para esta reportagem, o fluxo intenso de carros em uma das principais avenidas da cidade, a Avenida Mutirão, contrasta com a presença mais discreta do transporte coletivo.
Vídeo: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG
Essa relação entre a quantidade de veículos e o uso do espaço urbano evidencia uma escolha que vai além da mobilidade: reflete hábitos, prioridades, cultura e, também, limitações do sistema de transporte público.
Um dos fatores que ajudam a explicar esse cenário é a ausência de modais mais eficientes e de alta capacidade, como o metrô. Segundo a pesquisa, grandes metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador apresentam maior uso do transporte público, já que a diversidade de opções torna o sistema mais competitivo em relação ao carro, tanto em tempo quanto em custo, incentivando maior adesão da população.
Em Goiânia, por outro lado, o sistema é majoritariamente baseado em ônibus, o que implica maior dependência de conexões e, muitas vezes, trajetos mais longos e demorados. Além disso, a própria configuração urbana da capital favorece o uso do automóvel. Planejada com vias largas e foco na circulação de veículos, Goiânia cresceu priorizando deslocamentos individuais, o que consolidou, ao longo do tempo, uma cultura fortemente centrada no carro.
Para compreender as causas e os impactos desse modelo, o professor doutor da Faculdade de Engenharia de Transportes da Universidade Federal de Goiás, Ronny Marcelo Aliaga, avalia que a mobilidade urbana de Goiânia segue um caminho preocupante. Segundo ele, o modelo atual, baseado na predominância do transporte individual, não é sustentável a longo prazo.
De acordo com o professor, os efeitos dessa escolha já são perceptíveis. “No estudo de 2023, identificamos um crescimento de 145% do transporte individual quando comparado com os dados da Origem-Destino domiciliar do ano 2000”, afirma. Para ele, as medidas adotadas até agora têm sido apenas paliativas, focadas em melhorar a fluidez do trânsito, mas insuficientes para resolver o problema estrutural da mobilidade.
A preferência pelo carro, segundo Aliaga, não se explica apenas por falhas no transporte público, mas também por uma questão cultural. Em Goiânia, possuir um carro ou moto ainda está fortemente associado à ideia de sucesso e liberdade, enquanto o transporte coletivo carrega estigmas negativos, como insegurança, baixa qualidade e associação à pobreza. Esse imaginário social contribui para reforçar o uso do transporte individual.
Em cidades que dependem majoritariamente de ônibus, como é o caso da capital goiana, os desafios se tornam ainda mais evidentes. O principal deles é o impacto direto do congestionamento no funcionamento do sistema. “A velocidade do ônibus dependerá sempre da velocidade dos veículos na via. Quanto maior o congestionamento de carros, maior o atraso do ônibus”, explica o professor.
Diante desse cenário, Aliaga destaca que soluções eficazes passam por decisões estruturais e, muitas vezes, impopulares. Entre as principais medidas, ele aponta a ampliação de corredores exclusivos para ônibus, a melhoria na integração de horários e frequências entre as linhas e a adoção de soluções complementares, como serviços de transporte por aplicativo e bicicletas, que facilitem o deslocamento no chamado “último trecho” entre terminais e residências.
Do lado do poder público, o secretário de Engenharia de Trânsito de Goiânia, Tarcísio Abreu, destaca que a Prefeitura tem investido em medidas para tornar o transporte coletivo mais eficiente e atrativo.
“Temos adotado um conjunto de medidas estruturantes dentro do programa Nova Mobilidade para tornar o transporte coletivo mais atrativo, eficiente e competitivo em relação ao transporte individual. Um dos principais avanços é a metronização, que utiliza inteligência artificial, semáforos inteligentes e dados em tempo real para priorizar os ônibus nos corredores”, afirma.
Segundo ele, as intervenções já apresentam impactos no tempo de deslocamento e na qualidade do serviço. “A metronização dos corredores BRT Leste-Oeste e Norte-Sul já apresenta resultados concretos, com redução de até 30% no tempo de viagem e aumento significativo da velocidade operacional dos ônibus”, destaca.
Para o secretário, as mudanças buscam reverter a lógica atual da mobilidade na capital. “Estamos promovendo uma mudança de paradigma, colocando o transporte coletivo como prioridade e oferecendo mais conforto, regularidade e qualidade de serviço à população, o que contribui diretamente para aumentar a adesão ao sistema”, conclui.

Experiência dos usuários
Pedro Ferreira, engenheiro mecânico, utiliza diariamente o carro próprio para locomoção. A escolha, segundo ele, está diretamente relacionada à praticidade no dia a dia. “Eu até já usei ônibus, mas hoje não compensa pra mim. De carro eu consigo chegar mais rápido e tenho mais flexibilidade na rotina”, afirma. Mesmo com os custos mais elevados, como combustível e manutenção, ele avalia que o uso do veículo próprio contribui para uma melhor qualidade de vida, especialmente pela economia de tempo e maior autonomia nos deslocamentos.
Em contraste, quem depende do transporte coletivo enfrenta uma realidade diferente. Gustavo Luz, assessor de relações internacionais, utiliza o ônibus como principal meio de locomoção e relata os desafios da rotina. Ao todo, ele chega a utilizar seis conduções por dia para cumprir seus deslocamentos. “Muitas vezes o trajeto leva mais tempo do que deveria, principalmente por causa das trocas de ônibus. Quando chove, a situação piora ainda mais e tudo fica mais demorado”, relata. Apesar das dificuldades, ele destaca que o transporte público segue sendo a alternativa mais viável diante dos custos do transporte individual.
Reportagem: Ana Luiza Póvoa e Tainá Mariano
