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Ana Julia Luzin

Mais do que distribuição de terras, envolve o combate à desigualdade, produção de alimentos e permanência de famílias no campo.

Quando se fala em reforma agrária, é comum que o debate seja marcado por disputas políticas e ideológicas. No entanto, a política pública vai além da simples redistribuição de terras. Prevista no Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/64), reúne medidas voltadas à democratização do acesso à terra, ao fortalecimento da agricultura familiar e à promoção do desenvolvimento social e econômico no meio rural. 

Apesar do que muitos pensam, a reforma agrária não consiste em “tomar” terras de grandes latifundiários e distribuir aos pobres e desempregados. A redistribuição de terras seria para trabalhadores rurais sem-terra, agricultores familiares, posseiros e outras populações vulneráveis do campo, em um processo completamente mediado pelo Estado. A legislação brasileira prevê a desapropriação, mediante indenização, apenas de imóveis rurais que não cumpram sua função social, além da destinação de terras públicas para fins de assentamento.

Estandes na Acof 2026, urgência na reforma agrária. Foto: Ana Julia Luzin

Portanto, a discussão sobre a reforma agrária no Brasil envolve muitos estereótipos e mitos, que precisam ser debatidos. 

❌ Mito: “A reforma agrária acaba com o agronegócio”

✅ Realidade: Os dois modelos econômicos podem coexistir no mercado, o agronegócio com as grandes exportações de commodities e a agricultura familiar com o abastecimento interno de suprimentos

❌ Mito: “Qualquer propriedade privada pode ser invadida e desapropriada”

✅ Realidade: A lei protege rigorosamente a propriedade privada produtiva, apenas terras que descuprem a função social podem ser desapropriadas.

❌ Mito: “Os assentados ganham a terra e não produzem nada”

✅ Realidade: O lote não é um presente e exige produtividade e compromisso com a terra, muitos até se tornam grandes produtores.

Compreender e aceitar esses fatos é essencial para entender por que a reforma agrária continua sendo apontada como uma estratégia de desenvolvimento para o país. É mais do que o acesso à terra, a redistribuição de terras representa oportunidades de geração de renda, fortalecimento da agricultura familiar e combate às desigualdades presentes no campo.

Para o professor, ex-reitor da UFG e atual vereador de Goiânia Edward Madureira, “A Reforma Agrária é uma política estruturante. Todos os países do mundo que se desenvolveram tendo como lastro a agricultura fizeram algum tipo de distribuição de terra para que mais pessoas tivessem acesso à terra. No Brasil esse processo é antigo, mas ele sempre anda meio aos saltos, né? Às vezes o governo investe mais em titulação de terra, às vezes investe menos. A gente espera que essa seja uma política contínua, porque a gente precisa, primeiro, da produção agrícola. A gente precisa ter pessoas no campo, essas pessoas precisam ter acesso à terra. E, é claro, junto com isso, é importante a questão de olhar com cuidado o meio ambiente. E o agricultor familiar é sempre aquele que tem um olhar mais atento para as questões ambientais, para a produção agroecológica. A gente vive, no mundo moderno, a gente vive de dicotomias, né? Como se a gente colocasse a cidade de um lado e o campo do outro. Mas, na verdade, a gente só tem cidades porque um dia alguém parou para plantar alguma coisa e começou a gerar excedente, isso gerou comércio, gerou indústria. Então, é fundamental a produção. Então, não existe cidade sem o campo.”

“Agora, a gente precisa dar condições para as pessoas sobreviveram de forma digna no campo. E a reforma agrária é um instrumento fundamental para isso”

Edward Madureira

A confirmação da importância dos pequenos agricultores é observada em números. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cinco em cada seis fazendas no mundo consistem em menos de dois hectares. Apesar de essas fazendas operarem apenas cerca de 12% de todas as terras agrícolas, são responsáveis por produzir cerca de 35% dos alimentos do mundo, com um estudo publicado no World Development.

No Brasil, segundo levantamentos do Censo Agropecuário de 2017, realizado em mais de 5 milhões de propriedades rurais de todo o Brasil, apontaram que 77% das terras agrícolas do País foram classificadas como de agricultura familiar. Ainda segundo esse levantamento, a agricultura familiar empregava mais de 10 milhões de pessoas em setembro de 2017, o que corresponde a 67% do total de pessoas ocupadas na área agropecuária, sendo responsável pela renda de 40% da população economicamente ativa.

Ao analisar o cenário internacional, também é possível compreender a relevância da redistribuição de terras para o desenvolvimento de um país. Nos Estados Unidos, apesar dos problemas e fraudes no processo, o Homestead Act (sancionado em 20 de maio de 1862) ajudou a consolidar uma economia rural de pequenos proprietários, ampliando os assentamentos, a agricultura e a demanda por transporte e bens industriais. Já na França, mais de 70 anos antes, no período da Revolução Francesa, terras da nobreza e do clero foram confiscadas e vendidas para ampliar o número de proprietários rurais, expandindo o comércio. Esses simples exemplos mostram que a reforma agrária pode ter o efeito de desenvolver economias ao desmontar privilégios e ampliar a base de proprietários produtivos.

Apesar dos benefícios apontados por especialistas e observados pela história, a implementação de uma reforma agrária no Brasil enfrenta desafios. Os conflitos no campo, falta de conhecimento sobre o tema, elevada concentração fundiária e a polarização política em torno do projeto dificultam a ampliação e continuidade das políticas públicas voltadas ao setor. Mais uma vez a importância de investir em atividades que valorizem e apresentem o trabalho dos pequenos agricultores fica amostra.

Segundo Edward, apesar das dificuldades, as iniciativas governamentais vêm lutando para firmar essa política no país.“A principal delas foi a retomada do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, que tinha sido extinto no governo anterior. [ … ] A gente precisa investir fortemente em assistência técnica e extensão rural, investir fortemente em mecanização, investir fortemente em acesso à terra, que a gente comentou, investir em mercado. [ … ] Tudo isso gera estímulos, gera renda. E com a agregação de valores, exploração inclusive da nossa biodiversidade, a gente vê movimentos muito exitosos. Eu sempre destaco o nosso Pro-SEMEIA, que é um programa nacional, que atinge hoje 10 mil famílias no país inteiro, onde a gente faz a ligação entre as universidades, institutos federais, universidades estaduais e os assentamentos. Então, por isso mesmo, a gente tem que fortalecer programas como esse”.

Em um país marcado por profunda desigualdade social no acesso à terra, a reforma agrária é uma luz no fim do túnel. Uma luz que envolve produção de alimentos, geração de renda e garantia que milhões de famílias agricultoras possam permanecer e produzir no campo.

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