- Festival FICA comemora 26 anos com obras sobre Cerrado, pertencimento e goianidade - 24 de junho de 2025
- Por que doenças erradicadas, como o sarampo, estão voltando? Como se proteger? - 8 de maio de 2025
- Jovem, milionária e lésbica: Alice Weidel, a nova cara da extrema-direita alemã - 24 de janeiro de 2024

Esta reportagem foi inteiramente apurada, redigida e editada por humanos. Também contém um Recomendador de Filmes interativo desenvolvido com auxílio de inteligência artificial, utilizada para gerar códigos e automações.

(Foto: Luana Sampaio/LabNotícias)
O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2025) encerrou sua 26ª edição com recordes históricos. Foram 1.446 produções inscritas de 88 países, a maior volume já registrado. Além da cifra recorde de R$ 6 milhões em investimentos para estruturação do evento. Ao longo de seis dias das mostras e apresentações, o FICA reuniu mais de 40 mil pessoas na histórica Cidade de Goiás. Os dados são da organização do festival e da Prefeitura vilaboense.
Neste ano, o tema foi “Cerrado: a savana brasileira e o equilíbrio do clima”. 43 documentários, vídeos e filmes concorreram aos R$ 220 mil em prêmios, entre R$ 5 mil e R$ 35 mil por categoria. A dupla de cineastas Victória Álvares e Quentin Delaroche foi laureada com o prêmio Cora Coralina, o mais importante do festival, pelo longa-metragem Tijolo por Tijolo. O filme pernambucano foi o grande vencedor desta edição ao amealhar quatro troféus. No discurso, a diretora Victória Álvares destacou o caráter de resistência da obra. “Esse nome remete, obviamente, à vida de crise, de aumento da construção da casa, mas remete também a como conseguimos construir esse filme. Filmamos num contexto de pandemia, num país que não tinha Ministério da Cultura. É importante celebrarmos nossas vitórias, mas lembrar também das nossas trajetórias de luta. A gente precisa ter audácia!”, declara.
O LabNotícias preparou uma ferramenta exclusiva para conhecer os filmes das mostras competitivas que mais combinam com você.
Encontre o filme ideal para você
1. Gosto de filmes:
2. Com o tema:
Filmes recomendados:
O festival é organizado em quatro mostras. A principal é a Mostra Internacional Washington Novaes em que são apresentadas obras de vários estados brasileiros e países. O nome da categoria é uma homenagem ao jornalista e ativista ambiental Washington Luís Rodrigues Novaes (1934-2020). As obras dele são referência no campo ambientalista e indigenista por usar documentários e livros para vocalizar a realidade da degradação socioambiental do Brasil. Washington foi presidente de honra do FICA e idealizador de programas como o “Globo Repórter”.
Os filmes dessa mostra podem ser premiados em oito quesitos, como melhor direção, melhor longa-metragem e júri jovem. “Tijolo por Tijolo” levou quatro deles: Prêmio Cora Coralina – melhor longa-metragem, Prêmio Carmo Bernardes – melhor direção, Prêmio José Petrillo – Júri da Imprensa e Prêmio Jesco Von Puttkamer – Júri Jovem.
Além dessas categorias, são mais 19 prêmios distribuídos em outras três mostras: Mostra do Cinema Goiano, Mostra do Cinema Indígena e Povos Tradicionais e Mostra Becos da Minha Terra. Confira na aplicação interativa abaixo todos os ganhadores do FICA 2025.
🏆 Vencedores do FICA 2025 ⭐
Cultura, arte, gastronomia e debate




O 26º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) contou com uma programação que foi além da cinematográfica. Foram realizados minicursos, oficinas, feiras de artesanato e gastronomia. Além disso, o debate das questões ambientais reuniu nomes como o ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, os cineastas Vincent Carelli e João Moreira Salles.
O universitário Gustavo Martins conta a experiência de participar pela primeira vez do festival e de conhecer a antiga capital goiana “Estar em Goiás pela primeira vez foi muito especial, principalmente no contexto acadêmico, pois me senti imerso nos livros de história podendo contemplar toda a arquitetura única da cidade. O FICA esteve muito bem-organizado, com cinemas confortáveis e bem climatizados, com entrada gratuita para assistir aos curtas [e aos longa-metragem]. Além disso, a gastronomia não deixou a desejar com diversas opções de pratos deliciosos e o toque caseiro”, explica o jataiense.
A estudante Natália Eduardo participou da mostra indígena e do debate sobre raízes culturais “Foi muito interessante você ver essa diversidade e riqueza cultural imensa. Foi muito interessante porque foi a primeira vez que visitei o FICA e entregou muita coisa”, explica. Ela destaca a surpresa positiva do festival não se restringir às salas de cinema, mas abarcar toda a cidade histórica “Quando soube sobre o FICA, imaginei ser algo cultural voltado ao cinema, mas lá percebi que tinha todas essas propostas […] como trazer a sociedade para entender melhor aquilo [debate ambiental] por meio das conversas com os povos originários e iniciativas do governo”, relata.
Cinema goiano vivo
O festival é o maior do estado e um dos maiores do país. Além de promover o debate ambiental por meio do cinema, o produtor de cinema e audiovisual Augusto Ramos destaca o papel do FICA como meio de promoção ao cinema local. “É um gás que dá pra gente que produz [cinema] independente. É uma oportunidade de a gente mostrar o nosso trabalho, mostar que o cinema goiano tá firme, atuante, apesar do pouco reconhecimento”, explica. Augusto atuou como assistente de direção Dandara, o curta participou da edição deste ano do festival. “É um filme que fala sobre ancestralidade de uma criança preta. Foi bem interessante falar sobre o racismo no ambiente escolar, porque acontece bastante. […] O processo [de produção] foi muito interessante, mas ver como chega ao público, às crianças, é bem gratificante”, relata sobre a obra dirigida por Raquel Rosa.
O bacharel em cinema explica como ainda há barreiras a serem quebradas para o cinema estadual. “Não é no FICA deste ano ou do ano que vem. Essa sementinha [do cinema goiano] já vem sendo plantada há um tempo para florescer mais à frente. É algo que ainda precisa de um tempinho”. Augusto Ramos cita o caso do filme goiano Oeste Outra Vez, homenageado nesta edição do FICA, que ganhou repercussão nacional e internacional. Em entrevista em maio ao repórter Renato Candido do LabNotícias, o cineasta do longa, Erico Rassi, destacou o êxito das produções locais. “É certamente o melhor momento da cinematografia goiana, que chegou a ficar 40 anos sem produzir um longa-metragem. O desafio agora é consolidar esse momento e expandir toda a cadeia produtiva, para que a nossa produção se torne cada vez mais relevante”, respondeu.
O produtor pontua que iniciativas complementares para fomentar a produção cultural de Goiás. “As políticas públicas em relação ao audiovisual ainda são bem precárias. Ainda falta bastante iniciativa nessa parte. As leis de incentivo ajudam, mas não são o ideal. Falta, não sei, um sindicato do cinema, um órgão como uma Ancine goiana”. Ele também pontua a potência do cinema universitário para o estado “Hoje, por exemplo, a gente tem faculdade em Goiânia, em Goiás [velho], de cinema, e não tem um festival ou um apoio específico ao cinema universitário, sabe? E tem coisas boas sendo produzidas no âmbito universitário”, destaca.
26 anos de FICA

O festival internacional de cinema foi iniciado em 1999 com segundas intenções: impulsionar a candidatura da cidade de Goiás à Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. O grupo de amigos ativistas ambientais idealizou o festival como atrativo para consolidação da antiga capital goiana como coração cultural do país. Os idealizadores do FICA, Luiz Felipe Gabriel, Jaime Sautchuk, Adnair França e Luís Gonzaga Soares, se uniram ao cineasta mineiro João Batista de Andrade para realizar a estreia do FICA entre 2 a 6 de junho de 1999. Batista desenvolveu a estratégia, desde a primeira edição do festival, de estabelecer premiações monetárias para atrair expositores ao projeto. O mineiro foi responsável por estabelecer o formato final do FICA, além de criar o regulamento e homenagear personalidades da cultura de Goiás.
Por se tratar de um grupo de fundadores diversos, composto por jornalista, publicitários e socióloga, a ideia do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental sempre foi ampla, o que se mantem até hoje. Jaime Sautchuk, jornalista e um dos idealizadores, conta que a história da criação do festival daria “um filme de aventura, cheio de alegrias e fortes emoções”. A ideia surgiu do pedido do então futuro governador Marconi Perillo por um evento que “colocasse Goiás no mapa”. Com o pedido em mente, Sautchuk comentou com a esposa e socióloga Adnair França. Ela foi a responsável por sugerir um festival de cinema que evoluiu para a ideia do FICA a partir das conversas com os demais fundadores.
O jornalista destaca no livro “Dossiê FICA: Uma Aventura Maravilhosa” o episódio do convite ao colega de profissão Washington Novaes para participar da empreitada. “Mandei um fax a ele explicando a ideia e perguntando se ele toparia fazer parte do grupo. Ele respondeu que andava muito ocupado e que não queria assumir mais compromissos. Em novo fax, eu disse a ele que não ofereceria mesmo uma tarefa dessas a algum desocupado. Na hora, ele me telefonou, rindo, e aceitou”, relata. Outro momento que destaca na obra é o da morte de Gonzaga Soares pouco tempo antes do festival estrear. Apesar da perda, ele ressalta o sucesso do evento pelo trabalho do grupo.
FICA 2026
A edição do próximo deve ser confirmada ainda neste ano. Em geral, o processo de planejamento começa no segundo semestre. Já as inscrições para os membros das comissões de seleção de filmes devem começar em fevereiro. Ficam para abril os chamamentos públicos de inscrições das obras para as mostras competitivas. Algumas semanas depois, começa a fase de seleção de apresentações artísticas ou culturais, de exposições de artes visuais e de atividades formativas.
