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O cinema é uma das artes mais influentes e poderosas do mundo, sua influência promove mudanças sociais, políticas e culturais, mas também molda estereótipos. Ao longo do tempo, a imagem do profissional bibliotecário vem sendo associada a características como silêncio, rigidez, introversão e apego excessivo às normas. Essas figuras autoritárias, por sua vez, transformavam a biblioteca em um espaço pouco convidativo. Tais imagens, reproduzidas em diversas produções cinematográficas, contribuem para a consolidação de estereótipos que nem sempre correspondem à realidade profissional contemporânea. Nesse contexto, este ensaio teórico tem como objetivo analisar como a representação de bibliotecários no cinema contribui com esse imaginário a partir da Teoria Crítica e da indústria cultural.

TEORIA CRÍTICA E INDÚSTRIA CULTURAL

A Teoria Crítica de Horkheimer nasce em contraposição a Teoria Tradicional, denunciando, de acordo com Freitag (1994), o caráter sistêmico e conservador do primeiro, e sublinhando enfaticamente a dimensão humanística e emancipatória do segundo. A teoria crítica preocupa-se em compreender como as estruturas sociais, econômicas e culturais influenciam a consciência dos indivíduos e como elas podem reproduzir formas de dominação. Freitag (1994), diz que a teoria crítica não busca somente descrever a realidade, mas também contradize-la e apontar possibilidades de emancipação.

Dentro dessa perspectiva, a produção cultural não é neutra, ela reflete interesses, relações de poder e valores da sociedade. Foi nesse contexto que Adorno e Horkheimer desenvolveram o conceito de indústria cultural, explicando como a cultura virou uma mercadoria dentro das sociedades capitalistas. Segundo os autores, a indústria cultural produz bens simbólicos massificados, favorecendo a padronização dos conteúdos passados para a população e consequentemente, das formas de pensamento. Sobre isso, a pesquisadora diz:

A indústria cultural não é, pois, mais um ramo da produção na diversificada produção capitalista, ela foi concebida e reorganizada para preencher funções sociais específicas, antes preenchidas pela cultura burguesa, alienada de sua base material. A nova produção cultural tem a função de ocupar o espaço do lazer que resta ao operário e ao trabalhador assalariado depois de um longo dia de trabalho, a fim de recompor suas forças para voltar a trabalhar no dia seguinte, sem lhe dar trégua para pensar sobre a realidade miserável em que vive (FREITAG, 1994, p. 72).

Os filósofos explanam que a indústria cultural produz muitos produtos para o consumo em massa, não se preocupando em oferecer representações detalhadas da realidade para não estimular a reflexão crítica. Em consequência disso, os estereótipos se tornam instrumentos insubstituíveis, pois permitem a rápida assimilação de personagens e situações sem exigir um maior aprofundamento ou reflexão.

O cinema, por sua vez, é um dos principais produtos da indústria cultural e participa ativamente desse processo. Ao reproduzir certos modelos de comportamento, contribui para a construção de imagens sociais muitas vezes equivocadas e podem ser incorporadas pelo público como representações verdadeiras.

O ESTEREÓTIPO DO BIBLIOTECÁRIO NO CINEMA

Antes de falar sobre o estereótipo do bibliotecário no cinema, faz-se necessário definir o que é um estereótipo. Os estereótipos são definidos como crenças compartilhadas em relação a outros grupos como forma de categorizar o mundo que nos rodeia. Segundo Behar et al. (2021, p. 9), “então se começa a estereotipar a partir do momento que o sujeito se socializa, observa as qualidades e defeitos do seu grupo, compara com os demais e tira uma conclusão com uma resposta final, onde generaliza as características”. Porém, o ato de estereotipar traz consigo problemáticas, como a deturpação da realidade e o não reconhecimento da individualidade, uma vez que a generalização excessiva elimina as especificidades e a unicidade de cada sujeito representado.

O cinema, como um meio de comunicação, pode reforçar essa deturpação da realidade do bibliotecário quando utilizado como meio capaz de ampliar, conservar e reproduzir rótulos. Esse processo gera uma simplificação profunda quando o senso comum ou a aparência superficial tomam a frente da narrativa, ofuscando a realidade vivida pelo profissional. Assim, a crítica de Horkheimer questiona os estereótipos, pois assim como a teoria tradicional, os estereótipos também aceitam rótulos, impedindo mudanças sociais e dessa forma, acaba mantendo as pessoas presas a preconceitos.

A partir disso, analisaremos duas produções que ilustram como essas ficções cinematográficas representam a imagem do bibliotecário no imaginário social.

Fonte: Extraído do curta-metragem a Vingança da Bibliotecária (2005)

A Vingança da Bibliotecária é um curta-metragem brasileiro de terror e comédia, dirigido por Santiago Dellape e lançado em novembro de 2005. A obra apresenta uma bibliotecária que utiliza estratégias sanguinárias para silenciar leitores que dormem ou fazem barulho na biblioteca. Com cerca de cinco minutos de duração, o filme brinca com a imagem estereotipada da biblioteca como um espaço excessivamente rígido, silencioso e controlado.

Fonte: Extraído do filme Vendedor de Ilusões (1962)

Vendedor de Ilusões (1962) é um musical clássico que acompanha as artimanhas de Harold Hill, um professor de música charlatão que pretende enganar uma pequena cidade do interior ao convencer seus moradores a investir na formação de uma banda marcial infantil. Entretanto, seus planos encontram resistência em Marion, a bibliotecária da cidade, que busca desmascarar suas mentiras.

Ela é retratada como uma mulher reservada, rígida, solteira e de comportamento recatado, características frequentemente associadas à profissão no imaginário popular. Apesar disso, a personagem também apresenta aspectos que rompem parcialmente com essa visão estereotipada. Ao sofrer perseguição das mulheres da cidade por disponibilizar à filha do prefeito livros considerados “indecentes”, Marion assume uma postura firme em defesa da leitura e da liberdade de acesso à informação. Dessa forma, embora a obra reproduza o arquétipo da bibliotecária conservadora, também a apresenta como uma profissional comprometida com princípios fundamentais da biblioteca e do direito à leitura.

CONCLUSÃO

Em conclusão, os filmes levantados mostram como o estereótipo apaga a identidade real das pessoas em favor de rótulos fáceis. No caso dos bibliotecários, as produções frequentemente os retratam como indivíduos rígidos, introvertidos ou excessivamente conservadores, deixando em segundo plano a complexidade de sua atuação profissional.

O que raramente é representado nessas obras é o caráter emancipatório da biblioteca. Mais do que um espaço de armazenamento de livros, a biblioteca é um ambiente de acolhimento, acesso à informação e construção do conhecimento. Nesse contexto, o bibliotecário atua como mediador informacional, promovendo a autonomia intelectual, o pensamento crítico e a inclusão social.

Essa perspectiva aproxima a Biblioteconomia da Teoria Crítica, uma vez que ambas possuem um compromisso com a emancipação humana. Enquanto os estereótipos reduzem as pessoas a características superficiais e limitantes, a Teoria Crítica rejeita essa visão simplificada e busca compreender os sujeitos em suas particularidades e em suas condições sociais concretas, com o objetivo de promover sua liberdade. Da mesma forma, a atuação bibliotecária contribui para que os indivíduos tenham acesso aos recursos necessários para interpretar criticamente a realidade e exercer sua cidadania de maneira autônoma.

REFERÊNCIAS
FREITAG, Barbara. Teoria crítica: ontem e hoje. 5. ed. São Paulo: editora brasiliense, 1994.
BEHAR, Claudia et al. O que são estereótipos. Ciência Atual, Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 1-11, 2021

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