Nas últimas décadas, as transformações tecnológicas têm reconfigurado profundamente as formas pelas quais os indivíduos acessam, consomem e se relacionam com a informação. Se outrora o jornal impresso e o telejornal ocupavam o centro da circulação noticiosa e cultural, hoje essa centralidade migrou, em grande medida, para plataformas digitais de conteúdo audiovisual. Nesse contexto, o TikTok desponta como um dos fenômenos midiáticos mais significativos da contemporaneidade, reunindo bilhões de usuários ao redor do mundo e tornando-se, para parcelas expressivas da população, especialmente os jovens, a principal fonte de informação sobre temas que vão da política à saúde, da ciência ao entretenimento. Diante desse cenário, emerge uma questão de relevância teórica e prática: o TikTok, enquanto espaço de circulação informacional, favorece a apropriação da informação em sentido pleno, ou limita-se a reproduzir um modelo de consumo cultural passivo e superficial? Para responder a essa interrogação, torna-se necessário recorrer a um aparato conceitual capaz de iluminar as relações entre mídia, cultura e autonomia intelectual. É nesse ponto que a teoria crítica, desenvolvida pelos pensadores da Escola de Frankfurt, e as noções de ação cultural e apropriação da informação, trabalhadas por autores como Victor Flusser, Coelho Netto e Paulo Freire, oferecem ferramentas interpretativas fundamentais. O presente texto tem por objetivo analisar o TikTok à luz desses conceitos, buscando compreender em que medida a plataforma se aproxima da lógica da animação cultural, voltada ao entretenimento e ao consumo passivo, e em que condições poderia aproximar-se de uma ação cultural genuinamente emancipatória, capaz de conduzir à apropriação crítica da informação. Para tanto, o texto está organizado em três momentos: primeiramente, discute-se o arcabouço teórico que sustenta a análise; em seguida, examina-se o funcionamento do TikTok e sua relação com os conceitos apresentados; por fim, apresentam-se as considerações finais que sintetizam os achados do percurso argumentativo.
A teoria crítica, formulada no âmbito da Escola de Frankfurt no início do século XX, constitui um dos marcos mais influentes do pensamento social contemporâneo. Pensadores como Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse desenvolveram uma perspectiva que se opõe radicalmente ao que Horkheimer denominou de teoria tradicional. Enquanto esta se contenta em descrever e classificar os fenômenos sociais com base em uma suposta neutralidade científica, a teoria crítica questiona as condições históricas que produzem tais fenômenos, perguntando não apenas como as coisas são, mas porque são assim e como poderiam ser diferentes. Um conceito central nessa tradição é o de razão instrumental, entendida como uma forma de racionalidade que se dobra aos imperativos do sistema econômico e técnico, perdendo sua dimensão emancipatória. Horkheimer e Adorno argumentam que, ao longo do processo histórico moderno, a razão, que em Kant e Hegel possuía uma vocação universal e libertadora, foi progressivamente reduzida a um instrumento de dominação e de controle dos próprios seres humanos. O resultado é uma sociedade em que o pensamento tende a reproduzir os valores dominantes sem questioná-los, perpetuando a submissão dos indivíduos sob a aparência de liberdade.
Essa perspectiva possui implicações diretas para o campo da cultura e da informação. Quando transposta para o universo das práticas culturais, a teoria crítica distingue duas formas fundamentais de se relacionar com os bens culturais. De um lado, a animação cultural, definida por autores como Coelho Netto e Santos como uma prática voltada essencialmente à publicidade, ao entretenimento e à atração de públicos, sem necessariamente promover reflexão ou autonomia intelectual. De outro lado, a ação cultural propriamente dita, que visa estabelecer uma ponte entre os sujeitos e as obras culturais, estimulando a reflexão crítica, o questionamento da realidade e a produção de novos conhecimentos. A distinção entre essas duas formas de ação cultural articula-se diretamente com o conceito de apropriação da informação. Segundo Borges, a apropriação não se resume ao ato de receber ou decodificar uma mensagem, mas envolve um processo complexo de interação entre texto, contexto e leitor, no qual o sujeito, a partir de suas experiências históricas, políticas e sociais, atribui sentido à informação e a transforma em conhecimento novo. Nesse processo, dois movimentos são essenciais: a objetivação, que implica um afastamento crítico em relação à realidade para analisá-la; e a subjetivação, que consiste em internalizar as informações e recriá-las a partir da própria perspectiva. Para Paulo Freire, essa dinâmica está no centro de qualquer prática educativa ou cultural verdadeiramente libertadora. O indivíduo que apenas recebe informações de forma passiva permanece alheio ao seu próprio contexto histórico; aquele que se apropria da informação, ao contrário, passa a compreender sua realidade, a questioná-la e a agir sobre ela. É nesse sentido que Flusser propõe o conceito de cultura libertadora: uma prática cultural que não trata as necessidades culturais como pretexto para alimentar um sistema comercial e ideológico, mas que busca dar a cada pessoa a possibilidade de descobrir suas verdadeiras necessidades e de satisfazê-las de forma autônoma.
Compreendido o arcabouço teórico, torna-se possível examinar o TikTok a partir dessas categorias conceituais. Lançado globalmente pela empresa ByteDance, o TikTok é uma plataforma de compartilhamento de vídeos curtos cujo funcionamento é organizado em torno de um algoritmo de recomendação sofisticado. Esse algoritmo analisa o comportamento do usuário, o tempo que ele permanece assistindo a cada vídeo, os conteúdos que curte, compartilha ou comenta, e, com base nessas informações, seleciona e organiza os conteúdos exibidos na aba principal da plataforma, conhecida como “Para Você”. Esse modelo de funcionamento apresenta características que o aproximam, em larga medida, da lógica da animação cultural. Em primeiro lugar, o objetivo primário da plataforma não é promover o desenvolvimento intelectual ou crítico de seus usuários, mas maximizar o tempo de engajamento. O conteúdo que alcança maior visibilidade é aquele que prende a atenção de forma imediata, que provoca reações emocionais rápidas, riso, surpresa, indignação, e que estimula o compartilhamento impulsivo. Essa lógica favorece a superficialidade e a fragmentação em detrimento da profundidade, da contextualização e da reflexão genuína.
Em segundo lugar, o algoritmo do TikTok tende a criar o que os pesquisadores de comunicação denominam câmaras de eco ou bolhas informacionais. Ao identificar as preferências do usuário e fornecer conteúdos cada vez mais alinhados a essas preferências, o sistema reduz a exposição a perspectivas divergentes, limitando justamente o conflito de ideias que, segundo a teoria crítica e o conceito de apropriação da informação, é condição indispensável para o desenvolvimento do pensamento crítico. O sujeito que permanece confinado em sua bolha informacional tem sua capacidade de objetivação comprometida, pois não se depara com realidades que desafiem suas concepções prévias. Em terceiro lugar, o formato predominante dos vídeos, extremamente curtos, dinâmicos e descontextualizados, dificulta o processo de subjetivação que caracteriza a verdadeira apropriação da informação. Quando um tema complexo é reduzido a trinta segundos de conteúdo audiovisual, o que se oferece ao espectador é, na melhor das hipóteses, uma síntese superficial que pode despertar curiosidade, mas raramente propicia a compreensão profunda necessária para a criação de novos conhecimentos. Nesse sentido, o TikTok reproduz, em sua estrutura, aquilo que Horkheimer identificava como razão instrumental: uma lógica que serve aos interesses do sistema, neste caso, o mercado publicitário digital, sem questionar suas implicações para a formação intelectual e crítica dos sujeitos.
Não obstante as limitações estruturais apontadas, seria redutor afirmar que o TikTok se encerra inevitavelmente na animação cultural. A plataforma também abriga práticas que, em determinadas condições, se aproximam da ação cultural libertadora descrita por Flusser e Coelho Netto. Isso ocorre quando criadores de conteúdo utilizam o espaço da plataforma não apenas para entreter, mas para contextualizar historicamente os temas abordados, para dar visibilidade a vozes marginalizadas, para propor questionamentos sobre a realidade social e política, e para estimular nos espectadores o desejo de aprofundar o conhecimento sobre os assuntos tratados. Há, nesse sentido, uma distinção importante entre o uso que a plataforma faz do usuário e o uso que o usuário pode fazer da plataforma. ESe o design algorítmico do TikTok é estruturalmente orientado para o consumo passivo, isso não impede que indivíduos e coletivos empreguem suas ferramentas de forma crítica e emancipatória. Professores que produzem aulas contextualizados, ativistas que documentam lutas sociais, pesquisadores que traduzem conhecimento científico de forma rigorosa e acessível, e comunidades que utilizam a plataforma para preservar e difundir suas culturas tradicionais são exemplos de usos que se aproximam do ideal da ação cultural.
Esse potencial, contudo, está longe de ser automático ou universal. Para que o TikTok funcione como espaço de ação cultural, é necessário que o usuário desenvolva o que a literatura da Ciência da Informação denomina competência crítica em informação: a capacidade de identificar, avaliar, contextualizar e questionar as informações recebidas. Trata-se de uma habilidade que não emerge espontaneamente do consumo da plataforma, mas que precisa ser ativamente cultivada, o que remete, mais uma vez, ao papel dos mediadores da informação, sejam eles educadores, bibliotecários ou comunicadores comprometidos com a função social de seu trabalho. Nesse ponto, o argumento central da teoria crítica torna-se particularmente relevante: a neutralidade não existe na mediação da informação. Assim como o bibliotecário que desenvolve ações culturais inevitavelmente posiciona-se em relação aos saberes que media, o algoritmo do TikTok também não é neutro, ele reflete escolhas econômicas, políticas e ideológicas que privilegiam determinados conteúdos em detrimento de outros. Reconhecer essa ausência de neutralidade é o primeiro passo para uma relação mais crítica e consciente com a plataforma e com as informações que ela veicula.
A articulação entre teoria crítica, apropriação da informação e ação cultural revela-se igualmente fecunda quando aplicada ao universo das redes sociais digitais. Em ambos os contextos, o que está em jogo é a questão fundamental da autonomia intelectual: em que medida os sujeitos são capazes de se relacionar com a informação de forma ativa, reflexiva e transformadora, ao invés de assumi-la passivamente como reflexo natural e inevitável da realidade?
A teoria crítica oferece não apenas um diagnóstico das distorções presentes nas práticas informacionais contemporâneas, mas também um horizonte normativo: a emancipação. Emancipar-se, no vocabulário frankfurtiano, significa libertar-se das formas de dominação que se apresentam como naturais e inevitáveis, incluindo a dominação exercida pelos algoritmos que estruturam o consumo informacional na era digital. Significa, portanto, desenvolver a capacidade de perguntar não apenas o que determinada informação diz, mas quem a produziu, com que intenção, em que contexto e a serviço de quais interesses.
Essa perspectiva impõe responsabilidades não apenas aos indivíduos, mas também às instituições e aos profissionais que atuam na mediação da informação. Se as bibliotecas têm o papel de promover a ação cultural libertadora descrita por Flusser, educadores, comunicadores e demais mediadores culturais têm a responsabilidade de desenvolver nos sujeitos a capacidade de navegar criticamente pelo oceano informacional das redes sociais. No caso do TikTok, isso significa ensinar a identificar fontes confiáveis, a questionar a lógica algorítmica, a buscar aprofundamento além dos limites do vídeo curto e a perceber as informações recebidas como construções históricas e sociais, e não como verdades absolutas. O percurso argumentativo desenvolvido ao longo deste texto permite concluir que o TikTok, em sua configuração predominante, funciona como um espaço de animação cultural: entretém, informa de forma superficial e fragmentada, e tende a reproduzir a lógica do consumo passivo que a teoria crítica identifica como obstáculo à emancipação intelectual dos sujeitos. O algoritmo da plataforma, longe de ser neutro, opera segundo a razão instrumental descrita por Horkheimer: serve ao sistema econômico do mercado publicitário digital sem se preocupar, em sua estrutura, com o desenvolvimento crítico e autônomo de seus usuários.
Isso não significa, entretanto, que o TikTok seja inevitavelmente incompatível com práticas de ação cultural e apropriação da informação. Quando utilizado de forma consciente e crítica, a plataforma pode ser um instrumento de visibilidade para vozes e saberes historicamente marginalizados, de divulgação científica contextualizada e de mobilização social em torno de causas coletivas. Nesses casos, aproxima-se do ideal de cultura libertadora proposto por Flusser: uma prática que, ao invés de alimentar o sistema comercial e ideológico dominante, busca dar a cada sujeito a possibilidade de descobrir e satisfazer suas verdadeiras necessidades culturais. O que diferencia esses dois usos possíveis da plataforma é, em última análise, a competência crítica em informação dos sujeitos envolvidos, tanto dos produtores quanto dos consumidores de conteúdo. E é exatamente aí que reside o papel insubstituível dos mediadores da informação: educadores, bibliotecários e comunicadores que, comprometidos com a função social de sua prática, atuam para desenvolver nos sujeitos a capacidade de se apropriar criticamente da informação, transformando o consumo passivo em produção ativa de conhecimento. Em um cenário em que o TikTok se consolida como uma das principais fontes de informação da sociedade contemporânea, essa responsabilidade torna-se não apenas relevante, mas urgente. Reafirma-se, assim, a pertinência da teoria crítica como chave interpretativa para os desafios informacionais do presente. Mais de meio século após sua formulação pelos pensadores da Escola de Frankfurt, a pergunta que ela coloca permanece atual e necessária: a informação que circula nas plataformas digitais serve à emancipação dos sujeitos ou à perpetuação de sua submissão? Responder a essa pergunta, e agir a partir dessa resposta, é tarefa de todos os que se comprometem com uma sociedade mais justa, crítica e autônoma.
