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Goiânia, domingo, 13 de setembro de 1987. Naquela data teve início o que seria o maior acidente radiológico da história do Brasil. O Césio-137 espalhou medo, dúvidas e insegurança por toda a população goiana.
Memória viva: os relatos de quem viu
Tudo começou quando dois catadores de materiais recicláveis encontraram, nas instalações abandonadas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), uma cápsula contendo material radioativo. Sem conhecer os riscos, Wagner Mota Pereira, de 20 anos, e Roberto Santos Alves, de 21, levaram o objeto para um ferro-velho com a intenção de desmontá-lo e vender suas peças. A decisão desencadeou uma sequência de acontecimentos que resultaria na contaminação de mais de mil pessoas, quatro mortes oficialmente reconhecidas e consequências que permanecem até hoje.
Enquanto a tragédia começava a se desenrolar, a população vivia entre a aparente normalidade e uma crescente sensação de medo. Nora Ferreira, hoje com 68 anos, trabalhava na Companhia de Urbanização de Goiânia (COMURG) na época do acidente. Segundo ela, a desconfiança rapidamente passou a fazer parte do cotidiano. “Quando a gente pedia água nas casas, mandavam beber direto da torneira. E, se emprestavam um copo, não queriam pegá-lo de volta. Nem na calçada deixavam a gente almoçar”, relembra.
As mudanças não ficaram restritas ao convívio com os moradores. O uniforme da COMURG passou a despertar receio entre motoristas e passageiros do transporte coletivo. “A gente não podia mais entrar no ônibus uniformizado. Ninguém queria sentar perto da gente. Então os caminhões da COMURG passaram a buscar os funcionários diretamente na garagem”, conta.
Apesar do clima de tensão, os trabalhadores continuaram suas atividades sem treinamento específico. “A gente nem sabia o que era o Césio. Nunca tinha ouvido falar. Continuamos varrendo as ruas normalmente. Informação ou preparação, não tivemos nenhuma”, afirma Nora.
Quem também acompanhou de perto os desdobramentos do acidente foi Ediuriver Oliveira Brandão, atualmente primeiro-sargento da reserva da Polícia Militar de Goiás. Na época, ele era um soldado recém-formado e participou das operações de isolamento das áreas contaminadas. “Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Levou cerca de uma semana para identificarem que se tratava de material radioativo”, recorda. “Isolávamos as áreas sem saber o risco que corríamos. Quando descobrimos, já era tarde. Mas alguém precisava fazer aquele trabalho.”
Brandão também atuou no Depósito de Rejeitos Radioativos, em Abadia de Goiás. Segundo ele, as operações eram marcadas pela improvisação e pela falta de equipamentos adequados. Os trabalhadores recebiam orientações para permanecer o menor tempo possível nos locais contaminados. “Tínhamos cerca de 15 segundos para entrar em uma residência, recolher um objeto e sair. Você entrava, pegava uma cadeira ou qualquer outro item contaminado, colocava em um tambor e saía rapidamente. Depois outra pessoa repetia o processo”, relata.
Assim como Nora, o policial também enfrentou o preconceito da população. “As pessoas evitavam visitar nossas casas, apertar nossas mãos ou permanecer perto de nós. Era como se fôssemos transmissores da doença”, afirma. Segundo ele, muitos colegas desenvolveram problemas de saúde ao longo dos anos, além de transtornos psicológicos decorrentes da experiência.
Os números do Césio
De acordo com a Agência Gov, mais de cinco mil toneladas de rejeitos radioativos permanecem armazenadas em contêineres de concreto no Parque Estadual de Abadia de Goiás, destino final dos materiais contaminados. Cerca de 112,8 mil pessoas passaram por monitoramento radiológico após o acidente. Os casos mais graves foram encaminhados ao Estádio Olímpico de Goiânia, transformado temporariamente em centro de triagem. Pacientes em estado crítico seguiram para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro.
Entre eles estava Leide das Neves Ferreira, de seis anos, que ingeriu partículas do material radioativo. A menina não resistiu e tornou-se uma das quatro vítimas fatais oficialmente reconhecidas. Seu sepultamento ocorreu sob rígidos protocolos de segurança, com revestimento de chumbo para impedir a dispersão da radiação.
Reconhecimento e reparação
Quase quatro décadas depois, pessoas diretamente afetadas pela contaminação continuam recebendo uma pensão especial concedida pelo Governo Federal. O acompanhamento permanente é realizado pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), criado para atender vítimas e trabalhadores envolvidos nas operações da época. Brandão afirma que teve direito ao benefício, mas enfrentou um longo processo para conseguir o reconhecimento. “Foi necessário abrir processo, passar por perícias e juntas médicas. Apenas quem conseguiu comprovar a relação entre doenças graves e o acidente foi contemplado”, explica.
A biomédica Eliane Socorro Marques Souza, do Núcleo de Investigação Científica e Análise da Situação de Saúde dos Radioacidentados (NICASIS-RAD), destaca que o CARA foi criado para garantir acompanhamento permanente às vítimas. Atualmente, o centro oferece atendimento médico, psicológico, odontológico, assistência social e acompanhamento domiciliar para pacientes com dificuldades de locomoção.
Além da assistência pelo Sistema Único de Saúde (SUS), os beneficiários podem receber pensão vitalícia, cujo valor varia de acordo com o grau de exposição à radiação, avaliado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) em conjunto com o CARA.
Césio outra vez?
Diante da maior tragédia radiológica já registrada fora de uma usina nuclear, permanece a reflexão sobre os aprendizados deixados pelo episódio. Para o professor Fernando Pelegrini, do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG), a principal lição está na ampliação do conhecimento e da conscientização sobre os riscos associados às tecnologias nucleares. “Na época, poucos profissionais tinham experiência para lidar com uma situação daquela magnitude. Inicialmente acreditava-se que era apenas um problema de contaminação ambiental. Somente dias depois surgiu a suspeita de síndrome aguda da radiação”, explica.
Segundo o pesquisador, casos semelhantes ocorridos posteriormente em outros países demonstram que o desconhecimento sobre materiais radioativos continua sendo um desafio. Quase quarenta anos depois, os efeitos do acidente ainda permanecem presentes na memória dos sobreviventes e na história de Goiânia.
