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Laura Batista começou a frequentar brechós desde pequena, quando ela e sua mãe descobriram esse tipo de comércio e se apaixonaram. Em suas idas aos brechós, a jovem passou a desenvolver seu estilo pessoal e a se interessar pela questão da moda sustentável. Nesse processo, diversas peças passaram pelo caminho de Laura e, ainda que muitas não se encaixassem no seu próprio estilo, ela não deixava de achá-las belíssimas e acreditar que seriam perfeitas para alguém. A partir desses interesses, Laura decidiu criar o próprio negócio: o Brechó Penumbra, que funciona desde 2019.
Diferentemente de Laura, nem todos tiveram essa mesma conexão com os brechós – o que, infelizmente, gerou diversos preconceitos e receios a respeito deles. Sobre isso, conversamos com Laura, que nos contou um pouco mais sobre esses preconceitos e algumas maneiras de combatê-los, além de reforçar os pontos positivos dos brechós.
LN: Como são as vendas durante o Natal e Ano Novo no seu negócio? Essas festas impactam as vendas?
Laura: Quem geralmente gosta de presentear no fim do ano ou até comprar peças para usar nesses eventos, não prioriza os brechós jamais. O preconceito por trás de peças de segunda mão certamente afasta as pessoas de até mesmo considerarem como uma opção. Por esse motivo, eu poderia dizer que as vendas de fim de ano são inferiores aos outros meses. As festas podem acabar impactando negativamente, às vezes.
LN: O que faz com que as pessoas não comprem em brechós?
Laura: Existem alguns motivos usados pelas pessoas para dizer que não querem comprar em brechós, mas o preconceito acaba ficando por trás de todos. Um dos mais comuns é a pessoa que diz ter muita energia negativa dos donos anteriores permeando aquelas roupas e que, por isso, não compensa comprá-las. No entanto, ao mesmo tempo essa pessoa pode estar comprando, por exemplo, de sites que tem uma péssima reputação em relação a trabalho escravo, a pagamento ruim de funcionários e costureiros, o que torna essa questão das energias um argumento muito vazio e sem embasamento.
Tem também as pessoas que acham que as peças são de baixa qualidade ou estragadas; outras só veem as peças antigas, porque muitos de nós realmente trabalhamos com vintage, e acham que essas peças são ultrapassadas, que não são bonitas; e tem até pessoas que têm nojo mesmo, que acham aquelas roupas nojentas por serem de segunda mão, por mais que passem por toda uma curadoria e um processo de limpeza. Além disso, tem gente que simplesmente não valoriza o trabalho, ou até que acham minimamente interessante, mas acreditam que por ser de brechó, deveria custar no máximo 10 reais. Essas pessoas desdenham do nosso trabalho sem ver todo o processo de curadoria e reparos que existe por trás.
[Vintage: algo clássico e antigo que está em bom estado de conservação e qualidade.]
LN: E o que as fazem comprar?
Laura: Eu acredito que um grande fator seja a consciência de originalidade, o saber que aquela peça pode ser única ou ter pouquíssimas dela por aí. Isso acontece principalmente quando se trata de peças vintage, que em muitos casos possuem mais de 30 anos de idade e, na maioria das vezes, nem todas as peças iguais a essa foram conservadas, algumas já se perderam há tempos. Ter consciência disso te faz gostar mais de comprar em brechós, torna tudo mais divertido e lúdico. Também tem toda a questão ambiental, de estar movendo peças que poderiam ter ido para o lixo.
Além disso, acredito que o principal motivo pelo qual as pessoas gostam de comprar de brechós é a possibilidade de achar muitas peças de qualidade e com preços menores. Por exemplo: comparando com o Fast Fashion – que agora está com preços elevadíssimos –, acaba valendo muito a pena. É claro que vale lembrar que existem brechós com valores mais caros, mas tem todo um trabalho de curadoria, sem falar daqueles que vendem só peças de marca. Nesse último caso, se você for comprar determinada peça diretamente da marca, vai ser cinco, dez vezes mais caro do que você encontraria num brechó.
[Fast Fashion: moda rápida, em português. É um padrão de produção e consumo no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados rapidamente.]
LN: O que pode ser feito para minimizar o receio que tantas pessoas têm de comprar peças usadas?
Laura: Eu acho importante os brechós de alguma forma ocuparem o espaço das mídias e, para minha felicidade, isso vem acontecendo. Ultimamente, as pessoas têm falado bastante sobre isso. Personalidades famosas têm falado sobre brechós na TV, no rádio, nas revistas, nas redes sociais, esses canais onde as pessoas podem consumir algum tipo de conteúdo e informação. A partir disso, a imprensa também começa a fazer matérias sobre o assunto, mostrando como é feita a curadoria, como são as peças, e assim desconstruindo a ideia de peças ruins, feias e sujas, que infelizmente ainda existe na mente de muitas pessoas.
