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Entenda como a ideologia ‘Red Pill’ alimenta a violência contra a mulher na atual geração e prejudica a saúde mental de diversos jovens.

A escolha entre a pílula vermelha e a azul do filme “Matrix”. Por: Getty Images
O caso da jovem de apenas 17 anos que denunciou o estupro coletivo sofrido pelo ex-namorado e outros quatro jovens, em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), foi bastante repercutido nas últimas semanas. O crime, marcado pela brutalidade e pela exposição da vítima, reacendeu um debate que não pode ser ignorado: até que ponto a segurança das mulheres é, de fato, garantida na sociedade atual?
Por trás da violência física, pode-se apontar um fenômeno cultural crescente e perigoso: a disseminação de ideologias que desumanizam o gênero feminino sob o pretexto de um suposto “crescer masculino”, classificado por especialistas como um “câncer social”.
Embora o caso carioca esteja sob investigação judicial, ele não é um caso isolado. Ele se insere em um contexto onde comunidades digitais, autodenominadas “Red Pill”, ganham força entre adolescentes e jovens adultos. Este movimento, na tradução pílula vermelha, em inglês, é uma subcultura online composta majoritariamente por homens que disseminam ideologias machistas e misóginas, frequentemente disfarçadas de conselhos de autoajuda ou “dispersão para a realidade”.
O termo é uma referência ao filme Matrix, de 1999, onde a pílula vermelha é usada para validar uma teoria da conspiração. Essa em que os homens são as “verdadeiras vítimas” de uma sociedade dominada pelo feminismo. Seguindo a lógica ficcional, o movimento Red Pill passou a propagar esses ideais, em grande parte preconceituosas e direcionadas contra as mulheres, com a narrativa de que essas conspirações seriam a verdadeira forma de ver o mundo, já que os homens que tomassem a pílula deixariam de ser “dominados” por mulheres.
Para sociólogos e pesquisadores do comportamento, o movimento opera como um “câncer social” devido à sua capacidade de metástase, em que com a rápida propagação corrói a empatia e substitui o diálogo por uma suposta guerra entre os sexos ‘feminino e masculino’.
Michael Kimmel, sociólogo norte-americano, explica que esses jovens crescem acreditando que têm direito a poder, sexo e status por serem homens. Quando a realidade não entrega esses privilégios, seja pela autonomia feminina ou pelo avanço dos direitos das mulheres, eles canalizam a frustração em ódio organizado. No contexto Red Pill, a violência não é vista como crime, mas como uma tentativa de “retomar” um lugar de dominância que eles julgam pertencer a eles por direito.
O que começa como conselhos de autoajuda e cuidados com o corpo, frequentemente se transforma em pensamentos misóginos e machistas implícitos, em que a mulher é vista como um objeto ou uma propriedade, discursos de ódio e a hierarquização dos relacionamentos, que o homem acredita ser o “alfa dominante” e a mulher a “submissa”.
Para a pesquisadora Ana Carolina Weselovski, em seu mestrado para a pós-graduação em psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, esse movimento faz parte de uma massa maior conhecida como “manosfera”. Ela alerta que o perigo reside na forma como algoritmos de plataformas como TikTok e Instagram entregam esses conteúdos de forma massiva.
Segundo Weselovski, o discurso de ódio é frequentemente disfarçado de “autoajuda financeira” ou “desenvolvimento pessoal”, que serve como base de entrada para a radicalização de jovens que, bombardeados por esses vídeos, passam a enxergar a mulher como um adversário ou um objeto de consumo.
O feminicídio e a violência sexual são os estágios finais de uma masculinidade tóxica construída desde o nascimento de um homem. O cerne dessa criação é a misoginia, o desprezo pelo feminino e o desprezo pela mulher. A psicóloga e professora da UnB, Valeska Zanello, explica que esse fenômeno está ancorado no que ela define como a “Casa dos Homens”, um espaço simbólico de cumplicidade masculina onde, para ser aceito como “homem”, o indivíduo precisa performar virilidade e domínio sobre as mulheres.
Então frases como: “homem não chora, “isso é coisa de mulher”, “para de agir igual menina”, “vira homem”, são os primeiros passos para a criação do que se define como masculino. Nesse sistema, o valor do homem é medido pelo seu poder. Quando esse poder é questionado, a frustração é canalizada em agressão. Para a especialista, a ideologia Red Pill atua como um agravante contemporâneo, em que legitima o ódio como uma resposta “natural” à perda de seus privilégios históricos.
E há quem imagine que a ideia do movimento é nova, mas historicamente, o patriarcado sempre construiu a ideia de que mulheres pertencem aos homens. O primeiro seria ao pai, depois ao marido, o que mostra que a mulher nunca deixaria de ser uma posse. Até nas coisas mais sutis, como a tradição de pedir a mão da moça ao pai.
O desafio para a nova geração vai além do combate ao crime, ao abuso, dos pensamentos destrutivos sobre as mulheres, trata-se de repensar como se criar um menino. Pois, a ideia do “ser homem” vem especialmente do “não ser mulher”, porque ser mulher é considerado desprezível, em sua maioria, para o patriarcado.
A saúde mental masculina nesses grupos é marcada pelo que sociólogos chamam de ‘narcisismo do ressentimento’. O jovem, muitas vezes isolado e sem inteligência emocional para lidar com rejeições, encontra na Red Pill um anestésico para sua frustração. Em vez de tratar a insegurança, o movimento a transforma em ódio, criando um ciclo de hipervigilância e solidão profunda.
Se a masculinidade continuar sendo definida apenas pela negação e pelo ódio ao que é feminino, a sociedade continuará produzindo, em escala industrial, o que os especialistas já chamam de um câncer social, em que uma legião de jovens que veem no abuso a única forma de reafirmar sua própria existência.
