Dragon’s Dogma, uma duologia sobre um ciclo sem fim

Nascido em 24 de maio de 2012 no Japão, Dragon’s Dogma é uma duologia de jogos de RPG eletrônicos aclamados pelo sua jogabilidade única e seu teor filosófico em sua história.
A trama acompanha o Arisen, um escolhido pela vontade maior para enfrentar o dogma do dragão e Grigori, a besta dracônica que representa o fim dos tempos, inimigo a ser combatido pelo Arisen, epicentro e engrenagem do ciclo sem fim. Após o nascimento do dragão Grigori, inicia-se mais um ciclo, onde a fera escolherá a dedo quem irá ser digno de enfrentá-la, um ato de bravura basta – ao escolher, Grigori arranca o coração do indivíduo, come-o e transforma o ser escolhido no Arisen, conectados por este laço, Arisen torna-se imortal para quaisquer causas de morte menos Grigori, somente ambos podem se matar. O Arisen também possui agora o poder de comandar a legião dos peões, criaturas similares a humanos mas que não possuem vontade própria que não seja a vontade do Arisen, desta forma a jornada do herói em busca de seu coração se inicia como qualquer outra fábula.
Grigori, uma simples engrenagem da vontade maior.
Mesmo que ameaçador, Grigori é uma parte central do dilema colocado pelo jogo, que no caso seria o dogma do dragão. A fera dracônica nasce de tempos em tempos após o fim de um ciclo, seu único objetivo pré-estabelecido é de encontrar alguém digno de resolver o dogma e guiá-la mesmo que indiretamente para sua conclusão independente de qual seja.
Grigori representa na trama a opressão do ciclo, uma bomba relógio que deve ser desligada o quanto antes mesmo que no fim, o tempo não faça diferença. A serpe é ciente do ciclo de que faz parte, do seu papel e que não possui e não precisa do fardo da liberdade além de enfrentar o Arisen. Grigori é a força da natureza, ou melhor, é a força tangível e visível de um conceito intangível e invisível que é a vontade maior, a pequena engrenagem do maquinário do ciclo sem fim, gerando a desigualdade injustiça.
A teoria crítica, desenvolvida na Escola de Frankfurt principalmente por Horkheimer e Adorno, resume-se ao estudo de políticas e estruturas sociais que perpetuam a opressão, a desigualdade, injustiça e formas de dominação. Grigori sendo a força máxima que preda todas as outras abaixo de si, inclusive reprimindo momentaneamente a sociedade fictícia de Dragon’s Dogma, também representa o que um dia a teoria crítica e seus autores queriam dizer.
O dogma, o ciclo, a vontade, os peões e o Arisen

O dogma do dragão se resume a duas escolhas, abandonar algo muito precioso para você em troca de não lutar contra o dragão, lhe poupando e poupando a sociedade naquele momento mas deixando-o imortal e imoralizado ou enfrentar o seu destino correndo o risco de ser morto pelo dragão e condenar aquela geração juntamente consigo em sua queda.
Parece algo simples, mas por trás mostra-se que até mesmo as decisões mais simples, ou melhor, as que apresentam pouco sentido podem representar algo muito maior. O dogma é apenas um pretexto ao ciclo sem fim, de que não importa sua escolha o seu destino já foi selado éons atrás por uma vontade maior, vontade essa que gira infinitamente, em multiplos momentos e realidades, mas que nunca muda.
A vontade maior apresenta-se como neutra, parcial ou até mesmo faltante na trama, mas que no fim estava puxando as cordas em algo que já foi decidido muito antes, por algo ou alguém, a humanidade vive uma fachada linda de sua liberdade mas que na realidade seu futuro já está escrito, não há liberdade, apenas o conceito do que ela mesma acha que vive.
Os peões representam esta casca vazia humana, a falta de liberdade que os tornam dependentes do Arisen, eles possuem personalidade, sentimentos, sentem como humanos mas nunca fogem muito do mesmo script das ordens do Arisen, presos nas infinitas engrenagens dos ciclos e infinitas dimensões.
Arisen nos representa, nossa jornada do herói, nossos objetivos, nossos deveres, nosso “modo automático”, mas que se não tomar cuidado sempre vai seguir as regras do jogo, nunca irá pensar fora do padrão imposto. O dilema do dogma do dragão é prova do pensamento binário pregrado desde sempre, o Arisen tem poder de muda-lo, mas ele não sabe, há outras saídas para o dilema, talvez nenhuma quebrará o ciclo assim como não se pode quebrar uma perpétua maldição, mas talvez um dia o solução seja encontrada.
Em conclusão
Dragon’s Dogma é uma obra interativa que usa muitos artifícios filosóficos para justificar sua narrativa, está longe de ser perfeita mas certamente consegue dá vida a certos estudos e conceitos antropológicos, filosóficos e sociológicos.
O dogma do dragão é alvo interessante para estudos te algumas teorias da comunicação, já que bebe bastante destas fontes, entretanto observa-se que a teoria crítica é o alicerce do dilema, ou melhor a manivela que faz o dogma funcionar.
