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As Bienais do Livro de São Paulo e do Rio de Janeiro, realizadas em 2024 e 2025, são eventos culturais e literários de grande relevância para o mercado editorial brasileiro. Nesses espaços, editoras, expositores, autores e ilustradores se reúnem para divulgar e comercializar suas obras. A análise dessas edições, a partir das matérias publicadas pela CNN Brasil e pelo Estadão, permite um olhar comparativo sobre as preferências literárias e as dinâmicas de consumo de livros no Brasil. Este ensaio tem como objetivo explorar tais diferenças e semelhanças, relacionando-as à teoria crítica da informação, aos estudos de usuários e à bibliometria.

A matéria da CNN Brasil, que aborda a Bienal do Rio de Janeiro de 2025, destaca a predominância de romances voltados ao público jovem entre os mais vendidos no primeiro fim de semana. Dois fatores se destacam nessa análise: a influência das redes sociais, em especial o TikTok, por meio do fenômeno “BookTok”, e a presença física dos autores nos eventos, o que intensifica o desejo de compra. Um exemplo notável é o sucesso da autora Lynn Painter, que liderou as vendas com o livro Melhor do que nos filmes (Intrínseca), presente nas duas Bienais analisadas e que participou de ambas as edições. Em contraste, segundo a matéria do Estadão, a Bienal de São Paulo de 2024 apresentou maior diversidade nos gêneros literários entre os mais vendidos, com destaque para autores nacionais. Raphael Montes foi o autor mais vendido pela Companhia das Letras, enquanto Ana Claudia Quintana Arantes, da Editora Sextante, teve grande destaque com A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, figurando entre os mais vendidos em ambas as edições. Ainda assim, a presença de best-sellers internacionais continua marcante, o que revela a persistência de uma concentração editorial e cultural.

Ao observar o comportamento dos leitores entre 2024 e 2025, percebe-se a intensificação do papel das redes sociais na mediação das escolhas literárias, o que remete à abordagem dos estudos de usuários. De acordo com essa perspectiva, os sujeitos são compreendidos como portadores de um repertório informacional, que orienta suas ações no cotidiano. Quando identificam uma ausência ou necessidade informacional, dão início a um processo de busca, sendo que:

Os usuários são estudados enquanto seres dotados de determinado ‘universo’ de informações em suas mentes, utilizando essas informações para pautar e dirigir suas atividades cotidianas. Uma vez que se verifica uma falta, uma ausência de determinada informação, inicia-se o processo de busca de informação – aí entra a informação, como aquilo capaz de preencher uma lacuna, satisfazer uma ausência (ARAÚJO, 2009).
Carlos Alberto Ávila Araújo
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A popularização do BookTok, especialmente em 2025, ilustra bem esse fenômeno: os jovens utilizam essas plataformas digitais para preencher vazios emocionais, buscando obras com as quais se identifiquem e nas quais encontrem pertencimento. O portal RedePsi, em seu artigo Entre Afetos e Likes, reforça essa compreensão ao apontar como os afetos atravessam a experiência digital contemporânea. A psicanálise contribui com essa análise, principalmente a partir da noção lacaniana de “desejo do Outro”, que explica como os jovens passam a desejar aquilo que os demais valorizam nas redes sociais. Assim, livros deixam de ser consumidos apenas por interesse pessoal e passam a representar formas de validação coletiva e integração social. Nesse contexto, o engajamento com obras populares no BookTok está associado não apenas ao gosto literário, mas também à busca por aceitação e reconhecimento.

As interações virtuais, como curtidas, comentários e compartilhamentos, funcionam como expressões de afeto simbólico e desempenham um papel importante na construção do pertencimento. A psicanálise aponta que essas necessidades de validação têm raízes na infância. Dessa forma, o consumo literário se transforma em uma forma de expressão emocional, reforçando a interconexão entre os universos literário e digital nas vivências dos jovens. Eventos como as Bienais acentuam esse fenômeno, promovendo comportamentos marcados pelo medo de exclusão — hoje conhecido como FOMO (fear of missing out) — e pela busca intensa por conexão e pertencimento.

A comparação entre as Bienais evidencia que, mesmo com a diversidade aparente da edição de 2024, persistem dinâmicas de poder e desigualdade no acesso à informação. A predominância de best-sellers estrangeiros e o domínio de determinados grupos editoriais revelam a permanência de barreiras culturais e econômicas — elementos centrais da teoria crítica da informação. Segundo essa teoria, a informação deve ser compreendida como um recurso essencial à existência humana, cuja distribuição é profundamente desigual na sociedade. Nas palavras de Araújo:

Como recurso, a informação é apropriada por alguns, que garantem para si o acesso. Aos demais, sobra a realidade da exclusão. Assim é que as temáticas estudadas no âmbito dessa teoria envolvem a questão da democratização da informação, do acesso à informação por parte de grupos e classes excluídos e marginalizados, a criação de formas e sistemas alternativos de informação, e mesmo estudos sobre a contrainformação, como forma de rejeição aos regimes informacionais hegemônicos (ARAÚJO, 2009).
Carlos Alberto Ávila Araújo
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Carlos Alberto Ávila Araújo, ao articular a teoria crítica da informação com uma sociologia crítica da cultura, amparada em autores como Bourdieu, reforça esse argumento ao evidenciar como instituições culturais — como arquivos, museus, bibliotecas e, por extensão, eventos como a Bienal — muitas vezes reproduzem lógicas de dominação simbólica, aprofundando desigualdades cognitivas e culturais. Ainda que essas instituições se apresentem como espaços democráticos, operam mecanismos sutis de exclusão, que mantêm a concentração do poder informacional.

A análise bibliométrica dos livros mais vendidos aponta para uma diminuição relativa da presença de títulos nacionais. Segundo o autor, a bibliometria parte do princípio:

De que a informação pode ser quantificada e que, por meio dessa quantificação, seria possível prever suas manifestações futuras, já que, tal como os fenômenos da natureza, ela também obedeceria a leis que regem sua existência”, além de indicar uma “aproximação entre a Bibliometria e a Recuperação da Informação, tanto com a utilização de contagens de citações para a recuperação da informação como para a medição bibliométrica de itens recuperados em processos de busca e seleção (ARAÚJO, 2009)
Carlos Alberto Ávila Araújo
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Ao observar os dados das duas Bienais, percebe-se que, em 2024, além das obras de Raphael Montes e Ana Claudia Quintana Arantes, outros três livros nacionais estiveram entre os mais vendidos: Sonho e pesadelo, Abecedário de personagens do folclore brasileiro e Amor às causas perdidas. Já em 2025, apenas Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, figurou entre os primeiros colocados, além da continuidade de vendas expressivas das obras de Montes e Arantes. Entretanto, observa-se também uma crescente influência das redes sociais na visibilidade e no sucesso comercial de determinados títulos. A viralização de livros de Carla Madeira no TikTok, por exemplo, ampliou significativamente sua procura na Bienal de 2025. Isso demonstra uma mudança no perfil de consumo literário, que passa a ser guiado não apenas por estratégias editoriais tradicionais, mas também por dinâmicas digitais e afetivas.

O comparativo entre as Bienais de 2024 e 2025 revela, portanto, elementos de continuidade e de transformação no cenário literário brasileiro. A crescente mediação das redes sociais na formação do gosto e no consumo de livros destaca a importância de entender os leitores como sujeitos ativos em seus processos informacionais, como apontam os estudos de usuários. Ao mesmo tempo, a teoria crítica da informação nos alerta para as estruturas desiguais que continuam a moldar o mercado editorial, dificultando o acesso igualitário à produção cultural. Por fim, a bibliometria oferece ferramentas para compreender os padrões de concentração e popularidade, ao mesmo tempo em que sinaliza as novas tendências impulsionadas pela cultura digital. Essas reflexões são fundamentais para o desenvolvimento de políticas públicas e culturais que promovam a bibliodiversidade, ampliem o acesso ao livro e valorizem a produção literária nacional no Brasil.

Referências:

ARAÚJO, Carlos Alberto Avila.  Correntes teóricas da ciência da informação. Ciência da Informaçã, Brasilia, v. 38, n. 3, e192-204, 2009. 

Entre Afetos e Likes Uma Análise Psicanalítica das Relações Digitais.  RedePsi, [s.l.], out. 2024. Disponível em:  https://www.redepsi.com.br/2024/10/30/entre-afetos-e-likes-uma-analise-psicanalitica-das-relacoes-digitais/. Acesso em: 20 jun. 2025.

Bobbie Goods, Amanhecer na Colheita e mais: veja os livros mais vendidos na 1ª semana da Bienal do Rio.  Cultura UOL, São Paulo, 16 jun. 2025. Entretenimento. Disponível em: https://cultura.uol.com.br/entretenimento/noticias/2025/06/16/13787_bobbie-goods-amanhecer-na-colheita-e-mais-veja-os-livros-mais-vendidos-na-1-semana-da-bienal-do-rio.html. Acesso em: 19 jun. 2025.

PINOTTI, Fernanda. Bienal do Livro do Rio: veja os livros mais vendidos no 1º fim de semana. CNN, São Paulo, 16 jun. 2025. CNN POP. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/bienal-do-livro-do-rio-veja-os-livros-mais-vendidos-no-1o-fim-de-semana/. Acesso em: 16 jun. 2025.

QUEIROZ, Julia. Os livros mais vendidos da Bienal de São Paulo 2024. Estadão, São Paulo. 16 set. 2024. Literatura. Disponível em: https://www.estadao.com.br/web-stories/cultura/literatura/os-livros-mais-vendidos-da-bienal-de-sao-paulo-2024-nprec/. Acesso em: 16 jun. 2025.

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